Crítica | Demolidor por Ed Brubaker e Michael Lark (parte 5 de 6)

estrelas 4

Há spoilers de histórias anteriores. Confira no nosso especial.

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É maldade dizer que Ed Brubaker alterna bons e maus arcos. Seria mais justo dizer que o roteirista escreve arcos bons e arcos sensacionais. Nesse caso, trata-se da primeira opção, como que um intervalo entre duas tempestades.

Partindo de um mês após os acontecimentos inesquecíveis envolvendo Milla Donovan, esposa de Matt Murdock, a narrativa se fundamenta, primeiramente, na reação dos coadjuvantes queridos do protagonista. Além de Ben Urich e Foggy, já esperados, mais destaque é dado a Dakota North, uma personagem que continuará sendo desenvolvida e que mantém um interessante contraponto otimista importante no processo de superar seu passado que Murdock necessita passar.

Seguindo nessa linha que Brubaker propõe um novo caso jurídico envolvendo “Big” Ben Donovan, personagem obscuro das antigas que volta a aparecer. Dentro de um arco geral, ver a saída do estado depressivo de Matt em um caso clássico envolvendo a persona do advogado e a do herói faz muito sentido. Tendo em vista que o próprio público não aguenta mais uma queda trágica que estragasse ainda mais o espírito do Demolidor, um roteiro simples e efetivo é bem-vindo, mesmo não tendo reviravoltas e sendo facilmente esquecível.

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No campo da arte, Paul Azaceta participa da edição 106 tentando emular o traço de Michael Lark, mas só consegue realizar uma cópia nitidamente mais pobre. Não que a obra de Lark seja fora do padrão. Já disse e repito que ela se encaixa muito bem com o tipo de história aqui contada. Mas vê-la tão formatada e modelada classicamente, novamente em uma história que, dessa vez, além de ser urbana é, infelizmente, banal, não traz grandes suspiros aos entusiastas da HQ.

Evidentemente que superar o arco passado logo de cara é impossível e não muito recomendável como tentativa. As edições envolvendo Bem Donovan trazem, em uma figura maior, um hiato necessário para a poeira baixar. Mas ver, na edição 111, última analisada na presente crítica, os indícios de algo novo e inesperado, é simplesmente empolgante. No início de sua última história como imaginador do Demolidor, Brubaker introduz Lady Bullseye e aprofunda a relação entre Matt e Dakota, com transições entre os dois núcleos sutilmente realizadas e mostrando mais do passado de cada personagem. A arte de Michael Lark ganha destaque aqui com os desenhos da suposta nova vilã. Mas é impossível deixar de apreciar a capa de Marko Djurdjevic e os desenhos de Clay Mann nos flashbacks propostos por Brubaker

Fluída e orgânica, essa edição dá indícios do fechamento de ouro a seguir. Depois de uma janela bem colocada, ainda que maçante, Brubaker vem com tudo para mudar a vida do herói de Hell’s Kitchen mais uma vez.

Demolidor Volume 2 – # 106-111
Publicação Original: 2006-2009
Roteiro: Ed Brubaker
Desenhos: Michael Lark, Paul Azaceta, Clay Mann
Cores: Matt Hollingsworth
Editora: Marvel Comics
Páginas: 200 (aprox.)

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.