Crítica | Demolidor por Ed Brubaker e Michael Lark (parte 6 de 6)

estrelas 5,0

Há spoilers de histórias anteriores. Confira no nosso especial.

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Eu deveria morar em uma caverna. Eu deveria morar em uma caverna e não ter amigos. Não ter família.
Matt Murdock #114

Lembremos, antes de começar esta última crítica de Ed Brubaker no comando do Demônio Destemido, onde o roteirista pegou o herói e quem ele sucedeu. Sua tarefa era ingrata, muito ingrata. Continuar o trabalho de Bendis, para muitos o melhor escritor do Demolidor – superior até a Frank Miller – e resolver o problema de Matt Murdock atrás das grades eram objetivos quase impossíveis. Mas Brubaker logo mostrou para que veio, ousou com esmero, brindou aos fãs com arcos memoráveis e, ainda que tropeçando, prometeu um final digno do Demolidor. E cumpriu. Seu último arco, O Retorno do Rei, não só traz de volta um personagem essencial da mitologia como amarra, pode-se dizer, todo o segundo volume de histórias de Murdock com um sentido existencial.

Em um arco geral, Brubaker consegue elevar o aspecto psicológico depressivo e pessimista, uma das marcas diferenciais de Murdock no rol dos super-heróis, ao patamar de importância que as características mais heroicas de Matt geralmente tomam. Falando praticamente, o roteirista soube utilizar consequências da Invasão Secreta para dar um norte à sua narrativa, mas não deixou de trazer os percalços banais da relação de Matt e Dakota. Essa atenção é admirável e é com ela que o roteiro começa a ser delineado com participações de coadjuvantes como Tarântula Negra, Angela Del Toro e mestre Izo, uma de suas criações que é mestre de outro personagem marcante do mundo do protagonista.

Da mesma fora, o problema sobre Milla Donovan continua com pontas soltas e dá esperança ao leitor, afetando e se intercalando com a narrativa da vida dupla de Matt de forma atrativa e fluida. Brubaker ainda consegue achar tempo para destacar, em poucas linhas, outro personagem que seria alvo de sua criatividade em uma HQ solo: Danny Rand, o Punho de Ferro, companheiro de mestre Izo em algumas noites na trama envolvendo A Mão. São pequenas sutilezas que dão margem para se comparar os heróis e mostrar o conhecimento oculto de Rand, algo que todo fã gosta de apreciar.

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É nesse contexto que surge o prólogo do último arco em uma edição que mostra como Wilson Fisk não é um vilão qualquer. Magistralmente escrita sob seu ponto de vista, o número traz um ex-mafioso tentando escapar do seu passado e traçar paralelos sutis e eficientes com Matt Murdock. Ao mesmo tempo que não força a barra no otimismo, Brubaker consegue humanizar Fisk de um modo singelo, muito graças à Michael Lark, aqui em sua melhor forma explorando os momentos de silêncio do roteiro com uma fotografia poética e alternando rostos sisudos e tristes por sorrisos de canto de boca que dizem mais do que qualquer palavra.

A diagramação da página, nesse sentido, torna-se um pouco menos quadrada, principalmente com o aparecimento de Lady Bullseye que entra na estante grandes vilões do Demolidor na edição 116. Mais splash pages, uma memorável envolvendo a versátil vilã, conseguem dar o grau de dificuldade e surpresa da dor causa pelas habilidades ninjas da fã do arqui-inimigo do Demolidor. Isso sem falar de seu arrojado design, que faz extremo sentido e é útil durante a história.yinyangdaredevil

A questão principal que se coloca em todos estes últimos números é a seguinte: como sair da espiral interminável de ameaças à família e aos amigos? Como sair do ciclo vicioso que atinge até problemas já resolvidos e esquecidos? No volume 2 inteiro Murdock viu-se mais impotente, mais falho, tanto com Smith quanto com Bendis e Brubaker. O último soube utilizar-se da sequência para entregar uma literal saída de mestre, cuidadosamente arquitetada e que faz completo sentido para um Matthew ainda longe de ser o despreocupado Demolidor do volume 3, escrito por Mark Waid. Não à toa o protagonista deseja, em certo ponto, se enfiar em uma caverna e desaparecer.

Murdock é um control freak, um neurótico comparado à Bruce Wayne, um paranoico impossível de ser libertado e que se prendeu ainda mais com cada tragédia e acaso de sua vida. Como um exercício de comparação, o que Peter Parker aprendeu a tratar como piada e leveza, Murdock internalizou e desejou domar. Suas emoções não fluem totalmente, pois servem como instrumento de uma razão que já o colocou como Kingpin na era Bendis e que agora o coloca em posição semelhante. É esse seu demônio interno, talvez o traço mais humano e fato de identificação mais fácil com o leitor, que demonstra seu enorme ego e o problema crônico em lidar com a contingência da vida terrena, a mesma que o advogado católico não consegue deixar totalmente, mesmo com meditações esporádicas em algumas edições para conseguir tocar sua vida.

Ao final, Ed Brubaker consegue dar um sentido existencial inédito à Murdock, mas que casa com o personagem. Trata-se, afinal, de um caminho moderno, no sentido filosófico: Matthew se foca tanto em si, vê tanto sua pessoa como centro do mundo, que mesmo os puxões de orelha de Dakota North não o tiram dessa posição. Ele precisa controlar a vida e prevenir acidentes, mesmo a linha de um e outro sendo tênue.

Existe semelhança maior com a cultura super-heróica?

O desejo é um inferno e por isso mesmo triste
Nelson Rodrigues

Demolidor Volume 2 – #112-119 e #500
Publicação original: 2006-2009
Roteiro: Ed Brubaker
Desenhos: Michael Lark
Cores: Matt Hollingsworth
Editora: Marvel Comics
Página: 200 (aprox.)

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.