Crítica | Demolidor, por Frank Miller e Klaus Janson (1979 a 1983)

estrelas 5

Qualquer superlativo que um crítico de quadrinhos escrever sobre a Era Frank Miller e Klaus Janson nas rédeas do Demolidor será um eufemismo. Adjetivos como “sensacional”, “estupendo”, “incrível” não começam nem a descrever a ousadia da linha narrativa de Miller, que trabalhou em conjunto com Janson nos desenhos, imprimiu ao título do mais famoso herói cego de todos os tempos. As cinco estrelas que estão logo acima estão ali só para constar, pois o Plano Crítico não permite a colocação de 10 estrelas ou mais, ou alguma coisa do tipo hors concours.

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Só lendo e relendo para acreditar no que Miller faz com esses três personagens…

Muito já escrevi sobre o trabalho de Miller no leme de Demolidor, na segunda parte do Entenda Melhor sobre o herói. No entanto, é possível escrever muito mais. Para não tornar a leitura enfadonha, porém, abordarei alguns aspectos novos e relevantes, pelo que o ideal é o leitor fazer a leitura casada do Entenda Melhor com a presente crítica, se possível.

Para começar, estamos falando de um autor ligado a um mesmo personagem por, basicamente, quase quatro anos seguidos, o que significa a leitura de 33 números da revista, do #158 (de maio de 1979) até o #191 (de fevereiro de 1983), ou seja, “apenas” 840 páginas. No entanto, são 840 páginas de pura mágica dos quadrinhos, que muito poucas vezes se repetiram na história da Nona Arte mainstream. Mas há que haver um balizador, claro. Nem todos esses números foram escritos por Miller e desenhados por Janson. Os primeiros números só tiveram Miller no desenho e os roteiros foram todos de Roger McKenzie, o verdadeiro responsável por começar a levar o Demolidor para o caminho das sombras. Além disso, vários números não tiveram Janson nos desenhos também, mesmo quando Miller ficou só no roteiro. Acontece que, olhando para todo o espectro do trabalho durante esse tempo, fica claro que conhecer essa era pelo nome desses dois magníficos (olha o superlativo aí) artistas é extremamente justo.

Quando Miller pegou sozinho o Demolidor, a revista estava para ser cancelada. Roger McKenzie havia tentado virar o jogo, mas Miller, como não gostava do roteirista (o que é um pouco injusto), conseguiu arquitetar para que ele fosse defenestrado. Feito isso, Miller pegou o trabalho de McKenzie e começou a caminhar a passos largos para literalmente destruir o Demolidor.

No entanto, para destruir, Miller precisava reconstruir e, para reconstruir, ele precisava destruir. Não entenderam? Eu explico.

Até o finalzinho da década de 80, o Demolidor era um daqueles heróis bem padrão que víamos ser usados pela Marvel. Não era muito diferente de um Homem-Aranha ou mesmo de um Nova (calma, estou falando conceitualmente!). Tudo que acontecia, deixava de acontecer no número seguinte e muito do que o Demolidor enfrentava era composto de ameaças efêmeras e “comuns” de revistas de super-heróis. Não havia nada de errado na gênese do herói, pois sua origem, contada logo no primeiro número, era mais do que padrão (ainda que muito boa). Miller, como sua carreira viria demonstrar, não gosta muito de status quo. Mesmo quando faz obras menos “reconhecidas”, como All-Star Batman e Robin, Miller no mínimo gosta de polemizar. Quando está inspirado – e sua carreira, no início, foi marcada por essas inspirações – ele altera não só o status quo do personagem, quanto da própria arte de fazer quadrinhos (mais superlativo, mas duvido que alguém discorde disso!).

Assim, ele se utilizou de um artifício conhecido nos quadrinhos (e em outras artes também) como retcon, acrônimo de retroactive continuity. O que significa? Basicamente a inserção ou modificação de elementos no passado de um ou mais personagens como se sempre tivesse sido dessa forma. A menção a essa expressão no meio dos quadrinhos normalmente faz o leitor fã ficar temeroso pelo futuro de seu personagem favorito, já que, na maioria das vezes, o retcon dá errado. No entanto, sempre tem aqueles momentos mais raros em que ele dá certo (vejam, por exemplo, o excelente retcon do Soldado Invernal nos quadrinhos do Capitão América) e, em alguns outros, mais raros ainda, eles definem o herói para sempre. Esse último é o caso de Frank Miller e o Demolidor. O herói que existe hoje – amargurado, por vezes violento e sempre desesperançoso – é o herói como “criado” por Miller e não por Stan Lee, Bill Everett e Jack Kirby, em 1963.

Miller alterou sua origem (e depois alterou novamente, mas isso fica para outra crítica) dando um pai violento para Matt Murdock, alterou a personalidade do Mercenário para criar um louco varrido que só quer se vingar do Demolidor, inventou que Murdock e uma tal de ninja chamada Elektra (criada por Miller só para isso) já haviam sido amantes e determinou que Matt Murdock havia treinado para ser o Demolidor com Stick, um ninja que o transformou também em um “ninja sem katanas”. Ou seja, Miller rasgou o passado do herói (a destruição que mencionei) e ergueu outro no lugar (a reconstrução que também mencionei). E tudo isso somente para destruir o herói novamente em sua narrativa.

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Não deixa ela tristinha não, seu capeta!

O que quero dizer com tudo isso é que, para criar seus arcos dramáticos, Miller vagarosa e cirurgicamente, deu relevância a um novo passado do herói, pois o passado que ele tinha antes tinha pouco peso. Com isso, a queda de Murdock (não estou falando ainda de A Queda de Murdock, que marcou a volta de Miller ao Demolidor, em 1986) tornou-se automaticamente muito mais importante, mais pesada e absolutamente inesquecível.

E essa queda do herói se dá no seu lado psicológico, o que é sempre uma aposta arriscada. Em seu longo trabalho, Miller enlouquece Matt Murdock. Transforma-o em anti-herói, em uma figura distorcida pelo ódio, capaz de deixar o inimigo tetraplégico propositalmente e, depois, de fazer roleta russa com ele na cama do hospital. É como ler uma graphic novel experimental ou com personagens completamente desconhecidos, em que a regra do jogo é determinada só ali, naquele momento. O Demolidor já tinha uma enorme carreira editorial antes de Miller mexer com ele e isso significa coragem de Miller para sugerir essa narrativa e coragem da Marvel em aceitá-la. Encontrar esse tipo de trabalho, hoje em dia, em quadrinhos mainstream, é um evento raro. E, na magnitude do que foi feito por Miller com o Demolidor, sinceramente não consigo lembrar de nenhum outro exemplo.

Mas há um outro – e essencial aspecto – para o sucesso da Era Miller + Janson: a arte.

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Nem Baryshnikov era tão gracioso!

Mesmo antes do advento de Miller e de Janson, o Demolidor já gozava de um trabalho artístico muito interessante. Nada de músculos extremos. Nada de situações coloridas demais (ok, com algumas exceções). Miller, em sua época de ouro (justamente essa até o final da década de 90), tinha um estilo arrebatador de arte, com personagens esguios, atléticos e incrivelmente atraentes. Além disso, ele sabia manipular muito bem a sucessão de quadros e ousar quando necessário. Janson, no início, desenhava em cima dos traços à lápis de Miller, completando os desenhos com sua tinta graciosa e irretocável. Depois, quando passou a também fazer os traços, Janson soube manter a uniformidade em relação ao trabalho anterior, mas ousou ainda mais na graciosidade das lutas e dos quadros. Às vezes, é como ver um balé em andamento.

Quando o uso de algum vilão espalhafatoso se fazia necessário, Miller e Janson souberam dimensionar muito bem a ação de forma a dar destaque às lutas e aos diálogos, retirando, digamos assim, o brilho exagerado, as cores fortes do bandido. Com isso, mesmo com o Demolidor enfrentando gente exótica, a dupla criadora conseguiu imprimir um ar de seriedade por todos os anos em que ficaram à frente do herói.

Demolidor por Frank Miller e Klaus Janson é leitura obrigatória para quem gosta de quadrinhos. Não, não é verdade. A leitura dessas narrativas é absolutamente, inequivocamente, irremediavelmente, inacreditavelmente essencial para qualquer pessoa que tenha a pretensão de dizer que é fã, mesmo casual de quadrinhos, até para aqueles que dizem que não gostam de quadrinhos de “super-heróis”.

Pensando bem, 10 estrelas seria pouco. Essa série é como o volume 11 de This is Spinal Tap. Pronto. Achei o superlativo que queria!

Demolidor – Vol. 1: #158 a #191  (Daredevil – Vol. 1: #158 – #191)
Roteiro: Frank Miller, Roger McKenzie
Arte: Frank Miller, Klaus Janson (e outros)
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Editora (no Brasil): Editora Abril
Lançamento (nos EUA): maio de 1979 a fevereiro de 1983
Páginas: 840

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.