Crítica | Demolidor – #1 a 7 (1964 – 1965)

O presente texto traz a crítica para as 7 primeiras edições da revista Daredevil, publicadas nos Estados Unidos entre abril de 1964 e abril de 1965. Essas são as primeiras histórias do Homem Sem Medo (Demolidor Vol.1), e todas foram escritas por Stan Lee, tendo alguns artistas diferentes em seus números, algo que comentarei pontualmente em cada ocasião.

Boa leitura a todos.

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Demolidor #1: A Origem do Demolidor

The Origin of Daredevil, 1964

estrelas 4,5

Com os primeiros desenhos feitos por Bill Everett, mas por questões de prazo, terminados por Steve Ditko e Sol Brodsky, essa PRIMEIRÍSSIMA aventura do Demolidor é realmente um evento. Stan Lee conseguiu fazer o que à época já dizia: retrabalhar a estrutura de “herói comum” presente no Homem-Aranha, só que com um nível de dificuldade ainda maior para o herói”.

A história aqui é ágil e com um excelente recurso narrativo, começando com o encontro do Demolidor (com sua “roupa de circo”) e os capangas do ‘Arranjador’, o homem que ele julga ser o responsável pela morte de seu pai.

Os conflitos não são ampliados em demasia e a história é contada sem firulas, partindo de uma surra que o Demolidor dá nos caras da Academia do Fogwell, para o modo como ele perdeu a visão, treinou, encontrou uma (outra) grande tragédia em sua vida, formou-se na Universidade e passou a seguir uma vida dupla, como o advogado cego Matt Murdock e como o Demolidor.

Um grande início para um grande herói.

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Demolidor #2: A Ameaça Maligna de Electro

The Evil Menace of Electro!, 1964

estrelas 2,5

A história dessa segunda edição do Demolidor começa bastante interessante e com um componente cômico: a participação do Coisa pedindo ao escritório Nelson e Murdock que cuide do contrato de locação do Quarteto Fantástico. Até o embate inicial do Demolidor com os bandidos que desmontavam carros para o Electro, o texto é interessante. Mas basta o vilão da revista entrar em cena e tudo vai por água abaixo.

Stan Lee realiza algumas impossibilidades para o próprio herói que criou, por exemplo, fazendo uma demonstração de superforça, onde o Homem Sem Medo usa um pneu como estilingue e um motor de carro como objeto de lançamento para parar um caminhão que queria atropelá-lo!

Além disso, a constituição do Electro (que é todo ridículo: participação, planos, diálogos, uniforme…) incomoda bastante o leitor. E para piorar, há uns truques com a questão da eletricidade que nem é preciso ser físico para dar risada de como acontece. Nesse ponto, vale destacar o voo do Demolidor em um foguete do Quarteto Fantástico, seu pouso tranquilo; a invasão do Electro ao prédio do Quarteto; a facilidade que o Electro tem de “derreter” uma porta ou arrombar o cofre de Reed Richards… ufa! É coisa demais! Ao menos a arte de Joe Orlando e a finalização de Vince Colletta se saem bem a aventura inteira. No caso do roteiro de Lee, apenas os pontos cômicos e a fase civil do Demolidor são interessantes e bem escrita. O resto da aventura, não.

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Demolidor #3: O Coruja, Sinistro Senhor do Crime!

The Owl, Ominous Overlord of Crime!, 1964

estrelas 3,5

Com ótima arte de Joe Orlando e finalização de Vince Colletta, essa edição traz o Demolidor contra um inimigo que inicialmente é apresentado como um inescrupuloso homem de negócios e que depois resolve assumir de vez a sua versão de criminoso.

Vemos uma grande preocupação de Stan Lee em fazer do Demolidor um herói comum, o mais popular e próximo de uma “pessoa normal” possível. No meio da história temos o herói realizando uma espécie de capuz em seu uniforme para colocar sua roupa civil (que de início foi apresentada como “um terno que não faz vincos” enrolado em forma de bola [!!!] e que o Demolidor ia chutando ou transportando pela cidade!).

Outra questão a ser destacada é a proximidade do Demolidor quase revelar sua identidade secreta para Karen Page, chamando o nome dela e se esquecendo de camuflar a voz. A tensão sexual entre os dois é latente. Ah, se ele soubesse o que o futuro lhe traria…!

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Demolidor #4: Killgrave, o Inacreditável Homem Púrpura!

Killgrave, the Unbelievable Purple Man!, 1964

estrelas 4

O que mais impressiona nessa edição é o primor artístico dos desenhos de Joe Orlando e a arte-final de Vince Colletta, um resultado artístico ainda melhor que o observado nas edições anteriores. Aqui há uma excelente sacada dos artistas em relação ao roteiro de Stan Lee, opondo as personalidades de cada um dos principais envolvidos em uma cena através de um admirável trabalho de cores e posição dos indivíduos no quadro.

Um exemplo disso podemos observar quando Murdock via visitar Killgrave na prisão. Num dos quadros temos um policial moreno e de roupa predominantemente azul; Matt Murdock, ruivo, e de roupa predominantemente preta; Karen Page, loira, e de roupa predominantemente rosa; e Killgrave, roxo e de roupa roxa. O trabalho de cores é impressionante e funciona perfeitamente na edição inteira, embora eu tenha destacado aqui apenas um exemplo específico.

A história também é bastante interessante, mantendo a maior parte do tempo um tom ligado à questão da lei (que voltaria na edição com o Namor) e Matt Murdock às voltas com dois deveres: como condenar um criminoso e como impedi-lo de usar seus poderes para se safar da polícia ou de algum julgamento? O desfecho pode ser um pouco trivial, mas é compensado pelo trajeto que o antecede.

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Demolidor #5: O Misterioso Matador Mascarado!

The Mysterious Masked Matador!, 1964

estrelas 3,5

Essa edição começa com uma nota de agradecimento da Marvel a Bill Everett, Joe Orlando e Vince Colletta, que ajudaram a desenhar as 4 primeiras edições do Demolidor. Nessa mesma nota, o nome de Wallace “Wally” Wood é apresentado. O artista se manteria como responsável pela arte da revista do demolidor até o final de 1965.

Ao observar os desenhos iniciais, já percebemos algumas mudanças. As luvas vermelhas do Demolidor dão lugar às luvas pretas e já é possível ver o ‘DD’ no peito do herói, em contraste com o único ‘D’ que tínhamos nas edições anteriores. Além disso, os chifrinhos do Demolidor também ficaram maiores a partir dessa edição, dando-lhe uma impressão ainda mais forte de “demônio desafiador“, fazendo jus ao próprio nome do herói.

Já em relação à história, podemos dizer que não é das melhores coisas que Stan Lee escreveu mas entretém e segura bem o leitor até o final. O lado da moeda que acompanha Matt Murdock é muitíssimo bem articulado, mas não só o vilão “Matador Mascarado” quanto sua participação geral na história deixam a desejar.

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Demolidor #6: Preso Pela Irmandade do Medo!

Trapped by… the Fellowship of Fear!, 1965

estrelas 4

Nesta edição, o Demolidor enfrenta o Senhor Medo, que aqui faz uma espécie de parceria forçada com o Touro e o Enguia. Trata-se de uma história sem grandes atrativos internos – como a do Homem Púrpura, por exemplo – mas é surpreendentemente boa, porque o nível de ação faz bastante sentido e consegue manter alta a curiosidade do leitor.

Karen Page está cada vez mais apaixonada por Matt Murdock, mas não vê muitas esperanças num possível relacionamento, o que vai empurrando-a para a proposta de Foggy Nelson. Essa questão amorosa vez ou outra parece forçada demais ou um pouco chateante, mas nessa edição tem um charme bastante interessante. Quando Stan Lee trabalha o romance mais como flerte do que como algo ao qual se deve larga atenção textual, temos uma exposição boa em mãos.

Engraçado que temos o Demolidor mais uma vez desacreditado pela população, que parece crer que ele fugira do Sr. Medo, mas ao final da revista, o herói consegue reverter o jogo, exatamente como fizera na edição passada, contra o Matador Mascarado.

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Demolidor #7: Em Combate Mortal com o Príncipe Submarino!

In Mortal Combat with… Sub-Mariner!, 1965

estrelas 4

Essa edição que traz o Demolidor contra Namor é uma das mais importantes para a mitologia do herói. É bom lembrar que esta era apenas o 7º número da revista (que tinha publicação bimestral) e já trazia mudanças notáveis, tanto no tom utilizado por Stan Lee no roteiro quanto na arte, agora a cargo de Wally Wood (desde a edição #5, na verdade).

Nessa aventura, o Demolidor faz a sua estreia com o uniforme vermelho, uma mudança radical para a concepção do herói. Como o nosso colega Ritter Fan comentou na Parte 1 do Entenda Melhor sobre o Demolidor, essa mudança para um uniforme completamente vermelho fez jus ao devil de seu nome, e não é de se espantar que seja usado até hoje: esse modelo realmente combina e funciona perfeitamente para o herói.

Aqui também tivemos o grande ajuste em relação à locomoção do Homem Sem Medo, que parece ter feito um brainstorm e criado, além de um uniforme novo, um dispositivo em sua bengala que permitia que ele se pendurasse em objetos a grandes distâncias, facilitando assim o seu trânsito ou fuga de um lugar para outro.

A luta contra Namor é realmente épica e conta com uma excelente arte de Wally Wood, que no começo da revista faz um trabalho digno de aplausos na caraterização do Reino da Atlântida e regiões submarinas. O único ponto fraco dessa aventura é a resolução final de Namor, que é exposta quase que subitamente: voltar para o seu Reino e esmagar uma rebelião que lhe queria tirar o trono…

Todavia, à parte esse deslize, toda a ventura é muitíssimo bem construída, com destaque equilibrado para a questão legal proposta por Namor (apesar de absurda aos nossos olhos, mas aqui é preciso comprar a ideia da ficção), a vida de Murdock e seu flerte com Karen Page e amizade/sociedade com Foggy Nelson.

Até a posição de Namor em relação aos humanos é interessante e bastante explorada na revista, principalmente no orgulho e realeza do personagem, sempre em grande evidência e que dá um sabor totalmente diferente à aventura.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.