Crítica | Demon

O nome é sugestivo e nos faz crer em um assustador filme de horror, repleto de ferrões musicais e outros efeitos sonoros capazes de arrepiar os espectadores a cada “cena reveladora”. Não se engane. Demon está no mesmo patamar do polêmico A Bruxa, de Robert Eggers. Subverte algumas fórmulas consagradas, promete seguir um caminho mais dinâmico, mas o que temos é um olhar contemplativo para cada conflito que se estabelece: tudo é aterrorizante e surpreendente, mas apresentado sob uma perspectiva anestesiada.

Baseado na peça Adherence, de Piort Rowicki, encenada pela primeira vez em 2008, o filme passou pouco percebido pelos cinemas, mas ganhou bastante atenção em alguns festivais. A trama explora do mito judaico do Dybbuk, uma presença sobrenatural que não é um demônio, mas o espírito de uma pessoa morta que possui alguém. Em Demon, a manifestação surge na festa de casamento do arquiteto Piort (Itay Tiran) com Zaneta (Agnieszka Zulewska). Ele é um morador de Londres que ganha de presente o terreno e a casa de campo dos sogros.

No dia anterior aos festejos, Piort encontra um esqueleto enterrado em um dos espaços próximo a casa, mas decide guardar segredo para não estragar o ritual do dia seguinte, algo que lhe tornará um “novo homem”. O problema é que durante a comemoração, regada aos mais variados tipos de bebidas alcoólicas, Piort vai se manifestar. Alguns não acreditam em sua possessão, mas aos poucos o comportamento passa dos limites do que seria, aparentemente, “um porre” seguido de uma ressaca, revelando-se um acontecimento inesperado que deixará todos em estado de suspensão.

Ele se revela e ficamos sabendo que o espírito é de uma jovem chamada Hana (Maria Debska), garota morta durante a Segunda Guerra Mundial. É a partir deste momento que o filme também revela a sua faceta de crítica política e sociológica, ao tratar de maneira tangente e discreta a eterna ferida causada pelo Holocausto. O padre, única figura que poderia resolver o conflito, demonstra-se incapaz de realizar o exorcismo. Desta maneira, a única pessoa que consegue estabelecer uma negociação razoável com a entidade é um convidado, professor de história e conhecedor de yiddsih, língua falada por “aquela que habita” Piort.

O tema é tratado com muita sutileza, quase imperceptível, pois há outras demandas dramatúrgicas que nos chamam à atenção. O uso da bebida, por exemplo, é uma estratégia para fazer alguns personagens entrarem em confronto. Nestes confrontos, os diálogos insinuam constantemente que há “algo no ar”, naquelas relações que em determinado momento da história, eram pacíficas, com judeus e católicos contemplando a harmoniosamente as suas convivências.

Um detalhe técnico bastante favorável ao filme é a trilha sonora de Penderecki, um dos responsáveis por assinar a composição musical para os clássicos O Iluminado e O Exorcista, sendo o último, um filme que inevitavelmente possui elo com esta produção que, mesmo tentando se distanciar da proposta de cenas com presença forte de violenta física e psicológica, traz elos em seus componentes técnicos.

Dirigida pelo polonês Marcin Wrona, também responsável pelo roteiro, em parceria com Pawel Kaslona, a produção flerta com o horror e o drama, temperados por doses leves de humor. Não espere cabeças giratórias, corpos pendurados ou vômitos esverdeados. O cineasta foi bem claro em entrevistas, ao alegar que “o objetivo do filme não era copiar elementos do terror japonês, espanhol ou estadunidense”, afinal, conforme a sua fala, eles tinham os seus próprios “demônios”.

Tal revelação é curiosa e complexa, haja vista o suicídio do cineasta em um quarto de hotel durante a semana de lançamento do filme em um famoso festival. Wrona sabia exatamente do que falava nessa entrevista, pois o mistério acerca da sua morte nunca foi desvendado e só ele mesmo, diante dos seus “demônios”, sabia exatamente o que passava em sua vida para cometer algo que o livraria deste mundo. Uma perda para os cinéfilos, tamanha a capacidade narrativa e eficiência dramática deste empreendedor de imagens ficcionais.

Demon (Demon) — Polônia, 2015.
Direção: Marcin Wrona
Roteiro: Marcin Wrona, Pawel Maslona
Elenco: Itay Tiran, Agnieszka Zulewska, Tomasz Zietek, Andrzej Grabowski, Tomasz Schuchardt, Cezary Kosiński, Maria Debska, Włodzimierz Press, Adam Woronowicz
Duração: 104 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.