Crítica | Demônio

estrelas 3

Você já ficou preso no elevador? Bom, se a resposta for sim, já sabe que é uma experiência bem apavorante. Agora imagine que você ficou preso com mais alguém. Um pouco mais reconfortante agora, não? Porém este “alguém” é o tinhoso em pessoa e ele quer te levar para um fazer tour no inferno em uma viagem só de ida.

Logo no início o roteiro de Shyamalan nos apresenta a fábula do dia que o demônio vem a Terra matar alguns seres… humanos no caso. Este é o dia que tudo dá errado, em especial para cinco pessoas da pior espécie que por algum “acidente” acabam presas em um elevador de um prédio lustroso. Acontece que uma dessas pessoas é o capeta e ele está determinado a levar todos os outros consigo para o inferno, isto enquanto acontece um pandemônio na segurança do prédio para arrancar os pobres coitados que estão presos no elevador onde até mesmo a polícia e os bombeiros tem que intervir.

A ideia do filme é bem simples, Shyamalan não teve que pensar muito para arquitetar uma história interessante para o seu entretenimento. Os méritos do roteiro (que talvez provenham do experiente Brian Nelson) estão contidos em sua maioria na simbologia que envolve vários números que aparecem durante o filme. Por exemplo, o elevador que empacou foi o de nº6. Além disso, ele conseguiu fazer quase todos os personagens carismáticos e interessantes, tirando o “super crente” Ramirez (bela criatividade, hein, Shyamalan, mais um Ramirez igual entre os 1872990 que já existem na indústria cinematográfica).

O desenvolvimento da desconfiança e paranoia de cada um que está no elevador para descobrir quem é o assassino é trabalhada de modo que consegue te manter acordado. Porém, os diálogos contam com inúmeras frases de efeito calhordas que não agregam em nada.

Apesar destas “tantas” qualidades, o roteiro tem seus deslizes sendo o maior deles não fornecer praticamente nenhum tipo de pista para o público de quem é o demônio no elevador. Com certeza, isto ajuda a manter o suspense no filme, porém diminui a interatividade do espectador com a história que acaba ficando cíclica (quando as luzes apagam o demônio se diverte). Graças a essa repetição sem fim, ele se torna maçante do meio para o final.

Além disto, temos momentos shyamalescos de ser no meio do roteiro, como quando Ramirez tenta evidenciar que o capeta está agindo naquele dia (o dia que tudo dá errado segundo ele). Para provar isso ele pega um pão com geleia e o joga. Claro que a face com geleia espatifou no chão e é por isso que o demônio está lá, simplesmente por causa de uma porcaria de pão com geleia. Depois desta você imagina que não exista mais nenhum momento ridículo como este no filme, certo? Errado! Aparentemente os minions (“servos/ajudantes”) do tinhoso são bichinhos como guaxinins ou pombas, ou seja, o demo é a Branca de Neve. Aliás, este filme conta com poucos sustos.

A fotografia em conjunto com a direção do longa, inova no início da projeção. Temos uma longa sequência onde a imagem aparece de cabeça para baixo. Pode até dar um efeito legal, criativo e simbólico no caso. Mas nem tudo é perfeito, nas cenas que acompanhamos os presos no elevador não conseguimos ter aquela sensação claustrofóbica sendo a única vez que ela consegue passar esta impressão é devido à atuação competente de Bokeem Woodbine. Ela também sofre com os constantes close-ups na cara de todos os personagens, mesmo aqueles que não estão presos no elevador.

Outra coisa que pode ser ruim e boa ao mesmo tempo são as partes que o demônio age. Nessas horas a tela fica completamente negra ficando possível somente ouvir os gritos de horror, isso ajuda a aumentar a curiosidade para saber quem morreu, porém não permite a descoberta do tinhoso colocando as mãos na massa.

A música é de ótima qualidade só que ela não combina com o filme, diversas vezes eu pensei estar assistindo um filme de super-herói do tipo Homem-Aranha, graças ao ritmo frenético dos trombones e violinos. Acompanhando a música, temos os efeitos sonoros que em si são muito bons existem até barulhos de preces das almas que estão no calço do diabo, fora os barulhos indescritíveis da respiração das traqueias semi-mutiladas e das partes escuras do filme.

Os destaques de atuação ficam para os cinco que estão presos no elevador (a química entre eles é ótima), os outros são personagens bem insossos como o detetive cético que acompanha o caso ou os guardinhas do prédio. O quinteto constituído por Jenny O’ Hara, Bojana Navakovic, Bokeem Woodbine, Geoffrey Arend e Logan Marshall-Green é incrível. O psicológico de seus personagens ficou espetacular em especial, todo o pavor e desconfiança que eles passam ficaram muito bem trabalhados nas interações e relações que um tem com o outro. Geoffrey Arend, que interpreta o vendedor, pegou os poucos minutos de participação e os tornou os melhores do filme graças a sua comicidade.

A direção de John Erick Dowdle manteve um ritmo bem melhor do que os de Shyamalan em outros filmes como Fim dos Tempos. Seu auxílio na montagem, deixou o filme dinâmico, apesar deste ciclo sem fim que o roteiro constrói (elevador, gabinete do segurança, reflexão óbvia do Zé Detetive, elevador novamente, bombeiro ou mecânico tentando tirá-los do elevador, elevador sem luzes, matança do capeta).

Shyamalan conseguiu realizar um trabalho bom após vários anos de projetos ruins. Espero que ele continue escrevendo roteiros porque sua direção já está desgastada, talvez com um período fora da cadeira de direção, ele tenha algumas boas ideias que possam alavancar novamente sua carreira.

Demônio é um filme de terror que vai acabar sendo esquecido nas prateleiras das locadoras. A ideia é boa, mas a execução foi mediana, ganhando destaque em suas atuações competentes. Ele cumpre o que promete, bom, pelo menos para mim as escadarias voltaram a ser a opção número um para chegar a casa, apesar de elas serem tão escuras.

Demônio (Devil, EUA, 2010)
Direção: John Erick Dowdle
Roteiro:
Bryan Nelson, M. Night Shyamalan
Elenco:
Chris Messina, Logan Marshall-Green, Jenny O’Hara, Bojana Novakovic, Boken Woodbine, Geoffrey Arend, Jacob Vargas, Matt Craven, Joshua Peace
Duração:
80 minutos

MATHEUS FRAGATA . . . Estudo cinema na UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar.