Crítica | Dentro de Casa

Em sua superfície, Dentro de Casa, novo filme de François Ozon (Potiche: Esposa Troféu) me fez lembrar do polêmico Violência Gratuita, de Michael Haneke, especialmente pelo prazer voyeurístico que o filme concede diante de personagens que convivem num universo onde a rotina e a comodidade podem ser facilmente afetadas por qualquer ação que seja. Mas enquanto que o filme de Haneke tratava-se de um estudo (minimalista, diga-se) da podridão do ser humano, o filme de Ozon é mais sobre o poder da palavra e sobre uma criação narrativa que manipule a própria realidade e nos permita contestar até que ponto a realidade que acompanhamos pode ser verossímil.

Baseado na peça teatral The Boy in the Last Row, o filme é sobre o professor Germaine (Fabriche Luchine), que após ler uma estranha redação de um aluno chamado Claude (Ernst Umhauer) onde o mesmo narrava sua “intromissão” dentro de uma casa de uma família de classe média onde mora seu melhor amigo, percebe que o garoto possui um talento singular para a escrita e para a construção de narrativas, ao contrário do próprio professor, um escritor fracassado no passado. Germaine incentiva Claude a dar prosseguimento a história, e aos poucos vão surgindo acontecimentos inusitados e imprevisíveis dentro da convivência de Claude naquele lar, chegando ao ponto de questionar até que ponto as narrativas construídas pelo garoto podem ser reais.

Ozon espelha seu filme nos próprios personagens, que são o principal mote para a condução o jogo de encontros e desencontros emocionais da obra. O diretor apoia seu ritmo na interação entre Germaine e Claude, e conformo a curiosidade do professor pelas redações do aluno vão crescendo, questionamentos começam a vir à tona. Em determinado momento, a própria esposa de Germaine, Jeanne (Kristin Scott Thomas), com a qual ele compartilha tais histórias indaga se este não estava nutrindo algum interesse mais profundo por seu aluno, mesmo sem saber se tais acontecimentos não provinham da imaginação fértil do garoto. Dessa forma, Ozon expande seu foco para além do núcleo inicial, permitindo que o espectador torne-se o voyeur do voyeur, numa jogada instigante e que nos envolve quase de imediato nos questionamentos e julgamentos dos próprios personagens.

Em determinado momento, Germaine diz para Claude que a escrita permite criar o inimaginável, governar a realidade em prol de uma narrativa que possa instigar e manter o leitor atento a história que está sendo contada. Germaine enxerga em Claude as oportunidades de viver aquilo que seu passado não lhe permitiu conseguir, mas Ozon concentra sua dramaticidade em outro ponto: na tragédia que parece se anunciar em cada seguimento da obra, em cada questionamento sobre o quanto daquilo pode ter alguma verossimilhança.

Dessa forma, Dentro de Casa se torna uma autêntica celebração à arte, assumindo contornos metalinguísticos que simplesmente nos fazem esquecer das indagações até certo ponto, e assim como o professor, nos tornamos apenas mais alguns ansiosos pelo desenrolar da história. Ozon parece querer mostrar que a influência de nossas ações não está apenas na própria interação entre seres humanos, mas que de as vertentes mais inusitadas podem moldar nosso futuro. E no final, quando Claude finaliza sua história, pouco nos importamos com a dubiedade proposta pelo diretor, de que é do espectador a tarefa de decidir os momentos conclusivos da história, de que deixamos de ser os acompanhantes daquela história para nos tornarmos os moldadores daquela narrativa. O que fala mais alto é a deliciosa estranheza da situação.

Apesar dos excesso na narração em off e até mesmo de alguns pequenos detalhes que Ozon apenas deixa jogados pelo caminho, Dentro de Casa é uma visão bastante singular sobre a observação da vida alheia, do conhecimento para além da comodidade, das reações inusitadas para o que acontece além de algumas paredes. E em seu plano final, Ozon deixa claro sua mensagem: a história continua…

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.