Crítica | Depois da Chuva (1999)

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Depois de finalizado Madadayo (1993), Akira Kurosawa teve o agravamento de seus problemas de saúde. Mesmo assim, ele mal esperou a recuperação e já começou a buscar material para adaptar, além de contatos de produção para negociar o seu próximo filme. Para o roteiro (que escreveu sozinho) Kurosawa buscou inspiração no conto de Shûgorô Yamamoto, prolífico e popular autor japonês, muito conhecido pelos seus inúmeros pseudônimos e do qual o diretor já tinha adaptado produções literárias que geraram Sanjuro (1962), O Barba Ruiva (1965) e Dodeskaden – O Caminho da Vida (1970). Todo o trajeto de escrita do roteiro, escalação do elenco e pré-produção foi realizado com o diretor em vida. Seu falecimento, em setembro de 1998, aos 88 anos, deixou um filme em vias de ser iniciado.

Foi o filho do diretor que ofereceu o leme da produção para o assistente de segunda unidade que vinha trabalhando com Kurosawa desde Kagemusha, a Sombra de um Samurai (passando por Ran, Sonhos, Rapsódia em Agosto e Madadayo). Takashi Koizumi já tinha dirigido um filme em 1969, um documentário sobre o Vietnã, mas depois seguiu outros rumos e foi só com este convite especial — para levar a cabo um filme escrito e pré-produzido pelo Mestre Kurosawa — que ele retornou para trás das câmeras. Em Depois da Chuva, temos a história de Ihei Misawa (Akira Terao), um ronin em busca de emprego, que vive também com o dilema de lutar ou não lutar por dinheiro.

Ao lado de sua mulher Tayo Misawa (Yoshiko Miyazaki), ele é obrigado a parar em uma pequena hospedaria. É o período de chuvas e o rio está cheio. Demorará dias até que o leito diminua e seja possível atravessar novamente. É no convívio com o pobres indivíduos daquela hospedaria e com sua postura honesta em relação às regras do feudo que Ihei chamará a atenção do Senhor local (Shirô Mifune, que sim, é filho de quem vocês estão pensando) e então estão abertas as duas bases do filme, caracterizado como uma obra sobre entrega, sobre coração, dever e maneiras (honestas) de viver a vida.

Na primeira parte do filme, temos todos os ingredientes possíveis que esperávamos de um longa de Kurosawa. Koizumi realiza uma boa apresentação da condição de tempo favorita de seu Mestre e filma a chuva de maneira simples, mas poderosa. O único ponto que talvez já nos faça pensar duas vezes é a extensão demasiada da trilha sonora acompanhando os créditos de abertura e os primeiros momentos do ronin diante do rio. Infelizmente, será a trilha o elemento mais incômodo da fita, por aparecer de modo inteiramente descritivo em cenas onde o silêncio era a única escolha necessária — e isso se torna ainda mais incômodo pelo fato de o trabalho do compositor Masaru Satô ser excelente, porém, mal utilizado. Como estamos falando de um antigo parceiro de Kurosawa (seu primeiro trabalho solo para o diretor foi em Anatomia do Medo, de 1955, mas eles se conheceram um ano antes, quando Satô deu assistência na composição da trilha de Os Sete Samurais) entendemos que o espírito musical, se bem utilizado, dialoga com a cena e com o público. É o seu excesso de exposição, todavia, que põe tudo a perder.

No roteiro, temos um Kurosawa mais humano do que nunca. Há um fator social patente no texto, de contemplação para as necessidades dos que têm fome (“os pobres precisam se unir” diz o ronin, certa hora) e de ação daqueles que podem fazer alguma coisa para aplacar esta fome. A chuva, aqui, impede que parte desses indivíduos — que são carregadores e artistas — saiam para trabalhar, o que agrava a crise no local. Na parte final do filme, essa contemplação volta-se para si mesma, para o próprio ronin, e o que era uma boa toada de reflexão passa a entrar em uma via imensamente romântica, adocicada demais até mesmo em comparação ao que a obra trouxera antes. Não bastasse a narração escancarada da trilha, temos no roteiro essa marca heroica reforçando de maneira extremamente didática a posição de um homem bom, algo que tão claro tinha ficado para nós, especialmente porque a atuação de Akira Terao é doce e fala por si só.

Depois da Chuva é um belo filme sobre humanos e sobre a humanidade em tempos de crise, a partir de um olhar no microcosmo, mas peca por fazer dessa reflexão — ao menos na parte final — um flerte, em pouca distância, com aspectos melodramáticos.

Depois da Chuva (Ame agaru) — Japão, 1999
Direção: Takashi Koizumi
Roteiro: Akira Kurosawa (baseado no conto de Shûgorô Yamamoto)
Elenco: Akira Terao, Yoshiko Miyazaki, Shirô Mifune, Fumi Dan, Hisashi Igawa, Hidetaka Yoshioka, Mieko Harada, Tatsuo Matsumura, Takayuki Katô, Tatsuya Nakadai, Makiya Yamaguchi, Toshihide Wakamatsu, Daisuke Ryû, Bin Moritsuka, Masayoshi Nagasawa, Tappei Shimokawa
Duração: 91 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.