Crítica | Depois da Terra

depois-da-terra-plano-critico

estrelas 2

É tão curiosa quanto embaraçosa a comprovação que Depois da Terra nos dá sobre a que ponto a carreira de M. Night Shyamalan foi carregada pelo apedrejamento constante do público em seus filmes: nos pôsteres da obra em questão, o nome de Shyamalan está sempre ali nos cantinhos das letras miúdas onde estão listados os envolvidos. No trailer, nem uma sombra do nome do indiano aparece. Pelo contrário, Depois da Terra foi vendido como um projeto marcado pela imagem da família Smith: Will, Jaden e Jada-Pinkett. Afinal, teria Shyamalan perdido o seu quê autoral?

Se por culpa do diretor, do público ou dos dois, isso ainda é um questionamento levantado até hoje, mas Depois da Terra, certamente, apresenta o resultado que têm devido a má administração dos dois lados. Em primeiro, temos Will e Jaden Smith visando retomar a gostosa química entre pai e filho que experimentamos em À Procura da Felicidade, ao tempo em que Jada-Pinket atua como produtora ao lado do marido e concedem ao filho a posição de herói prodígio em uma aventura de ação apocalíptica. Do outro lado, temos um cineasta outrora ovacionado repelido a simplesmente emprestar seu nome para uma grande produção que poderia funcionar como uma alavanca para seu retorno aos holofotes, objetivo que é sabotado pela ineficácia da obra em saber qual caminho seguir: se o do melodrama familiar ou a aventura ecológica.

Claro, para os de maior boa vontade, os temas que marcam a identidade de Shyamalan estão ali, como a relação homem x natureza e as relações familiares como ponto motivacional para a narrativa. E aqui, nos é revelada um ponto frágil do diretor quando expelidas suas características de direção: se Shy sabe como trabalhar enquadramentos e movimentos de câmera, é nos momentos onde lhe é exigida uma ambientação competente em cima de um cenário fantástico que o diretor falha. Depois da Terra é pouco inventivo como distopia, sua realidade caótica de uma Terra devastada pela guerra e pela poluição jamais cativa ou intriga visualmente, e muito devido a impressão de que não há vontade de estabelecer aquele universo para além do básico.

Impressiona mais ainda o fato de Shyamalan, também presente no roteiro, pareça tão desinteressado em estabelecer vínculos consistentes entre os personagens de Will e Jaden, tão unidimensionais e resvalados a conflitos permeados por diálogos e posições clichês, clichês estes que tomam o lugar das boas ideias que sim, estão ali, esperando para serem abraçadas, mas que acabam sendo mantidas como mero ornamento para um filme, tal qual O Último Mestre do Ar, calibrado para ser mantido dentro de uma fórmula pouco desafiadora.

E aqui, entra em questão a escolha desrespeitosa transformar Depois da Terra muito mais um veículo para promover a imagem de Jaden Smith em alguma espécie de astro de ação, escolha essa reforçada pela presença de seus pais na cadeira de produtores. E é uma pena que Jaden, tão à vontade em À Procura de Felicidade tenha se deixado entregar a artificialidade que já lhe marcava no divertido remake de Karatê Kid. Smith filho é ausente de carisma e boa presença, lhe faltam expressões e reações convincentes para aceitá-lo como protagonista, além de que sua interação com o pai em cena nos passa a ideia de que aquilo está mais para um sentimento fabricado, e em momentos de maior desespero, o filme recorre ao melodrama extremo em momentos incabíveis para convencer o espectador da relação entre pai e filho.

Moroso e cansativo em seu ato final megalomaníaco, Depois da Terra apenas se firma como uma tentativa falha de alavancar o nome da família Smith, que não muitos anos depois, admitiu as próprias culpas no desastre comercial e receptivo da produção. Pois sim, Depois da Terra é um filme da família Smith, e não de M. Night Shyamalan.

Que bom que, após isto, o indiano viria se recuperar.

Depois da Terra (After Earth) — EUA, 2013
Direção:
  M. Night Shyamalan
Roteiro: Gary Whitta, M. Night Shyamalan
Elenco: Jaden Smith, David Denman, Will Smith, Sophie Okonedo,  Zoë Kravitz, Glenn Morshower, Kristofer Hivju, Sacha Dhawan
Duração: 100 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.