Crítica | Derek – 2ª Temporada

estrelas 4

Derek foi uma das grandes surpresas que a Netflix nos apresentou entre 2012 e 2013. Criada por Ricky Gervais, a série teve uma brilhante 1ª Temporada e foi um verdadeiro choque para os espectadores, que não esperavam que Gervais tivesse sensibilidade o bastante para criar e atuar em um programa com essa temática plenamente humana e de forte caráter social. Com menos apelo cômico (ao menos como linha narrativa principal) e maior importância dramática, Derek é uma tocante crônica sobre os laços humanos estabelecidos onde menos se espera e de um modo inesperado.

Acompanhando o cotidiano de um Lar para Velhos chamado Broad Hill, a série nos traz situações bastante comuns quando se trata de um grupo de idosos sendo cuidados por pessoas carinhosas e que se importam com o que fazem. A relação familiar e fraterna entre todos e a tristeza advinda da morte de algum residente no Lar são ingredientes centrais da série, que neste seu segundo ano mudou sutilmente o tom em relação ao ano anterior, mas mesmo assim, manteve-se em um bom patamar de criatividade e qualidade.

O primeiro episódio já marca uma mudança com a partida de Dougie. Mesmo que o personagem viesse reclamando do seu local de trabalho desde a temporada anterior e mesmo que sua saída fosse algo possível de se acontecer mais dia menos dia, fazê-lo despedir-se logo no início da temporada pareceu algo abrupto. É como se de repente houvesse a gota d’água para a auto-demissão e lá estava o rabugento zelador sendo substituído por um idiota que só no último episódio parece ganhar um pouco de juízo comportamental.

Ainda nesse patamar de mudanças e novos horizontes, tivemos o pai de Derek morando entre os internos; Derek morando com Kev em um trailer perto do Lar e Hannah grávida por um tempo. Cada uma dessas surpresas ganhou um bom espaço no decorrer dos episódios, algo que infelizmente não pode ser dito de todos os personagens e/ou situações que Ricky Gervais poderia muito bem ter acrescentado aos roteiros. Talvez o mais importante tropeço nesse sentido é o (não) desenvolvimento dado a Tom, o personagem de Brett Goldstein. Por algum motivo obscuro o moço é sumariamente escanteado, passando a maior parte do tempo lendo em um canto da sala de convivência e passando vergonha na frente dos idosos, todos com receitas milagrosas e constrangedores para que ele e Hannah concebam um filho o quanto antes.

Ao final da temporada essa situação inicial parece mudar, mas mesmo assim, Tom ainda traz o ranço de um personagem subaproveitado, algo que espero que mude no próximo ano do show.

Outro ponto que vimos mudar foi a forma de apresentação das novidades para os velhinhos. Na 1ª Temporada percebemos que as saídas era mais frequentes e havia um ar mais inocente nos roteiros, coisas que se dissiparam um pouco aqui. A única saída aqui é para o zoológico (o segundo melhor episódio da temporada, diga-se de passagem) e, ainda na contagem de diferenças narrativas, constatamos que a inocência plena que marcou o ano de estreia do programa não é assim tão evidente nesta continuação, basta vermos a estranhíssima, desnecessária e incompreensível exploração do odioso personagem de Kev (o que torna ainda mais bizarro o escanteamento de Tom), que inclusive tem a visita de alguém ainda mais nojento em cena, o seu irmão.

De todo modo, não podemos reclamar que não houve desenvolvimento dramático dos protagonistas. Hannah passou por maus bocados durante o ano e vemos claramente seu amadurecimento advindo desses dissabores. A mesma coisa podemos dizer de Vicky, que, ao que tudo indica, ganhará um namoradinho decente na próxima temporada.

Vemos permanecer o belo uso e composição da trilha sonora na série, bem como a direção de Gervais segue o ritmo correto entre o drama e o tom cômico em alguns episódios, sempre dando indício do lado mais caloroso e mais estranho do ser humano, inclusive de Kev, que, gostemos dele ou não, acaba nos impressionando algumas vezes durante o ano e aparenta indícios de mudança.

Não é fácil levar adiante um show com uma temática densa e o nível de ternura e realismo de Gervais imprime a Derek. Sua atuação continua esplêndida, com destaque para o episódio do cachorrinho Ivor, que nos mostra uma genuína atuação dramática de Gervais, composição cênica ainda mais forte que a que ele apresentou para seu personagem anteriormente.

Esperemos as grandes mudanças futuras. Por hora, basta lembrarmos um pouco de tudo o que vimos nos seis episódios desta temporada e refletirmos sobre a importância de ser humano e, como o próprio Derek twitaria, a importância de amar a todos ou querer que todos se transformem em boas pessoas. Um sonho cada vez mais raro e de aparência cada vez mais utópica…

Derek – 2ª Temporada (Reino Unido, 2014)
Direção: Ricky Gervais
Roteiro: Ricky Gervais
Elenco: Ricky Gervais, Kerry Godliman, David Earl, Holli Dempsey, Brett Goldstein, Karl Pilkington, Tony Rohr, Colin Hoult, Tom Hughes
Duração: 24 min. (cada episódio)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.