Crítica | Dersu Uzala

estrelas 5,0

Não sei se é em razão da proximidade do Natal ou se é pelo tema principal de Dersu Uzala, mas senti a necessidade de fazer um depoimento pessoal sobre o filme, fugindo um pouco da objetividade crítica que deve sempre guiar esse trabalho. No entanto, resistindo bravamente às tentações, decidi, no final das contas, fazer as duas coisas: meu “nhé, nhé, nhé” pessoal e a crítica. E, ainda por cima, respeitando meus leitores, eu o fiz em dois momentos claramente identificáveis por sub-títulos. Quem não quiser ler as palavras bem pessoais que afloraram assim que acabei de rever a obra soviética de Akira Kurosawa, podem passar para o segundo capítulo, que trata efetiva e objetivamente da crítica.

A amizade e a velhice

Sempre que assisto Dersu Uzala, eu me emociono. E olha que sou costumeiramente conhecido como um cara durão, que não se emociona fácil e por aí vai. Mas, na verdade, é tudo uma máscara para eu manter minha fama de mau e esconder um bobalhão que tem que resistir para não se debulhar em lágrimas ao testemunhar, por exemplo, o desespero de Marlim ao ver seu filho Nemo sendo pescado em Procurando Nemo.

No entanto, mais do que temas de amor, abnegação, sacrifício e outros corriqueiramente utilizando em dezenas e mais dezenas de filmes, a amizade é um que me toca profundamente. Hoje, com redes sociais mil e relacionamentos à distância, o conceito puro de amizade desapareceu ou mudou completamente, o que torna Dersu Uzala uma obra ainda mais urgente, ainda mais contemporânea de uma maneira anacrônica (se é que vocês me entenderam). Não é que amizades não possam perdurar por décadas se os amigos estão distantes geograficamente. Elas podem sim, mas essas amizades nasceram, provavelmente, de contatos pessoais, próximos, de alguma conexão qualquer que acabou unindo aquelas duas pessoas.

Chamem-me de quadrado, antiquado, velha guarda e o que mais vocês quiserem, mas amigo não é conhecido ou colega. Amigo é algo raro, que cada um de nós deve (sim, deve) ter poucos, por mais popular que sejamos. Ter 500 “amigos” no Facebook nada significa. Ter um amigo de infância pode significar o mundo. Tem pessoas que conheço há quase duas décadas e que não considero amigo de verdade. São conhecidos muito próximos e tal, mas amigo mesmo é aquele cara que, sem pedir absolutamente nada em troca, quando te vê depois de 5 meses (ou mesmo 5 anos) sem te ver, te entende perfeitamente e, em alguns segundos, conversa com você sem que aquele período distante tenha significado mais do que um soluço na amizade. Um amigo não quer reconhecimento, não quer conversar ao telefone todos os dias, não quer receber um e-mail ou uma mensagem a cada minuto.

Amigo ultrapassa a barreira do que é ditado pela sociedade como “correto” para efetivamente ser seu amigo. Com isso, quero dizer que seu amigo não é aquele cara que lembra de seu aniversário todos os anos, mas sim o cara que, quando você dá parabéns, agradece como se nada tivesse acontecido e engata em outro assunto completamente diferente. Amigo não espera os parabéns. É o que eu disse: amigo só é amigo se não quer absolutamente nada em troca.

E amigos envelhecem juntos. Trocam experiências e ajudam um ao outro a crescer pessoalmente.

E o envelhecimento é outro tema importante, tema esse que só me emocionou agora, quando assisti Dersu Uzala para escrever a presente crítica. Afinal de contas, a idade chegou para mim e eu consigo me identificar com o “problema”.

Sim, não sou velho propriamente dito. Tenho 40 anos. Mas é muito diferente de quando você tem 20 ou 30…

Ter 40 é melhor.

E realmente acredito que as coisas só continuam a melhorar. Sim, vamos envelhecendo fisicamente e sim, podemos fazer menos coisas do que fazíamos quando jovens. Mas, quando jovem, você olha para trás sem qualquer senso de ter feito alguma coisa na vida. E você olha para frente como se não existisse o dia de amanhã.

Quando um pouco mais velho – como agora, eu aos 40 – ao olhar para trás vejo tudo aquilo que construí e que vou deixar para minha família (certamente minha maior “construção”). Olho para frente e vejo – com a cautela que vem com a vivência e alguma sabedoria – as oportunidades que terei. Algumas poderei abraçar sem titubear. Outras terei que deixar passar. Mas sem arrependimentos.

Bom, minha gente, se vocês leram até aqui, agradeço imensamente. Tinha que literalmente colocar isso “para fora”. Na pior das hipóteses, se nenhuma das mensagens que tentei passar acima funcionar, pelo menos reparem como um filme pode mexer com uma pessoa.

A crítica de Dersu Uzala

Depois que acabou O Barba Ruiva, o contrato de Akira Kurosawa com o estúdio Toho também acabou. O próprio Kurosawa viu a oportunidade de crescer com seus próprios pés e partiu para uma empreitada hollywoodiana ao ser tragado para a malfadada produção de Tora! Tora! Tora!, da Fox. Digo tragado para usar um eufemismo pois o diretor foi, na verdade, ludibriado pelas promessas dos produtores, que diziam que David Lean dirigiria as sequências americanas e Kurosawa as japonesas (o filme trata do ataque a Pearl Harbor pelos dois ângulos).

Acontece que, na verdade, Richard Fleischer é que acabou dirigindo e Kurosawa não conseguiu adequar-se às exigências de Hollywood, sendo defenestrado em três semanas. E, como se esse desgaste todo não bastasse, o filme foi um fracasso de crítica e bilheteria.

Com isso, Kurosawa teve que brigar muito para conseguir fazer seu filme seguinte, Dodeskaden, primeira experiência do diretor com cores (ainda que tenha flertado com isso antes) e belíssimo por sinal. No entanto, o diretor amargurou outro fracasso, o que acabou dificultando em muito a obtenção de fundos para projetos futuros.

Toda essa situação somadas a problemas de saúde e pessoais levou Kurosawa a tentar se matar em 1971. Somente dois anos depois é que, procurado pelo estúdio soviético Mosfilm, o mestre finalmente arregaçou as mangas e voltou a fazer aquilo que fazia de melhor: deixar o público de queixos caídos e olhos abertos com suas deslumbrantes imagens em movimento. O resultado foi a obtenção do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e sucesso nas bilheterias, além de ter chamado atenção novamente para sua capacidade como autor.

Assim nasceu Dersu Uzala, obra baseada em livro autobiográfico do explorador russo Vladimir Arsenyev. A tocante história do experiente caçador do povo Goldi que forma laços de amizade com um capitão do exército russo que está nas inóspitas terras do leste da Rússia em 1902 consegue ficar ainda mais poderosa por ser baseada quase que integralmente em fatos reais. E claro, apesar de já ter sido levada às telas antes pelo cineasta soviético Agasi Babayan, a narrativa se beneficiou muito do estilo Kurosawa de filmar.

Dersu Uzala foi o primeiro filme do diretor falado em língua não japonesa (é integralmente falado em russo) e a primeira – e única – experiência dele com filme de 70 mm. O resultado é que as já famosas panorâmicas de Kurosawa evocam ainda mais os temas do filme que não só se relacionam com a amizade e a velhice como, também, com a integração com a natureza e com a invasão da chamada “civilização”.

Filmado quase que totalmente em locação no leste da União Soviética ao longo de um ano e meio, o aspecto naturalista do filme é fortemente ressaltado. Somos jogados para dentro da natureza selvagem em uma época em que a chamada civilização ainda não havia chegado a todos os rincões perdidos do planeta. Apesar do tour de force que foi fazer o filme, o resultado é extremamente contemplativo, sereno, capaz de nos fazer olhar para nós mesmos e indagar determinadas atitudes que temos.

Em determinado momento, Dersu Uzala (Maksim Munzuk) leva o Capitão Vladimir Arseniev (Yuri Solomin) para uma cabana perdida na floresta. Antes de partirem, Dersu faz questão de consertar o teto do local e de pedir mantimentos não perecíveis ao capitão para deixar por ali. Quando indagado do porquê, Dersu simplesmente diz que isso impediria que outros, que porventura usassem a cabana, morressem de fome.

Vejam só que coisa mais linda: um homem simples e que nada tem a não ser a mochila em suas costas que se preocupa não só por quem conhece, mas por pessoas que nunca viu e que, provavelmente, nunca verá. O mundo em que hoje vivemos simplesmente não comporta mais pessoas assim e é isso que vemos gradativa acontecer na fita. Há outro momento mais para a segunda metade do filme em que Dersu diz que, apesar de ter conseguido algum dinheiro com a venda de peles de animais, não tem mais nada pois ele pediu para um comerciante guardar seu dinheiro e, ele não sabe explicar, o cara desapareceu sem dar explicações. A forma como Dersu explica isso ao capitão, sem realmente entender o que aconteceu, é de partir o coração e nos fazer ficar com raiva da humanidade que nos cerca. A atitude aparentemente ingênua de Dersu não é ingênua, mas sim verdadeiramente humana. Tanto é assim que, ato contínuo, o capitão fica sem palavras – literalmente – e tem que sair por breves momentos da companhia do amigo para, longe da câmera de Kurosawa, provavelmente ponderar sobre o ponto em que nós chegamos, isso se ele não tiver chorado.

Kurosawa não usa muitos close-ups e trabalha muitas vezes em plano médio quando lida com Dersu e o capitão. Mesmo assim, as atuações de Munzuk e de Solomin são edificantes. Munzuk não parece estar atuando. Ele simplesmente é Dersu Uzala. Já Solomin me lembra muito Omar Sharif em Doutor Jivago: um nobre soldado que compreende e fica fascinado com a natureza humana.

Quando o filme evolui para tratar dos problemas trazidos pela velhice, Kurosawa mistura o lado místico da crença dos Goldi com as realidades do dia-a-dia. Dersu começa a perder a visão e acredita que isso se deve ao fato de ter atirado em um tigre, animal sagrado para ele. Ao fazer isso, o diretor consegue, de maneira muito eficiente, mostrar a proximidade da relação de Dersu com a natureza e, ao mesmo tempo, de Dersu com o capitão, que oferece moradia em sua casa na cidade.

E o final, já lindamente telegrafado por Kurosawa na já descrita cena do roubo do dinheiro de Dersu, é absolutamente crível e tocante. É o fim de uma era. O fim de um tipo de humanidade e o começo de outra, talvez tão boa quanto, mas certamente muito diferente. É nesse momento que nós, espectadores, assim como o Capitão Arseniev, caímos de joelhos e choramos pela perda de alguém ou alguma coisa muito especial e que é insubstituível.

Dersu Uzala é um dos filmes mais bonitos já feitos e mostrou a todos que, mesmo desiludido, traído e desesperançoso, Kurosawa foi um dos maiores diretores que já existiram.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.