Crítica | Desafio à Corrupção

estrelas 4

Não há como começar a falar sobre o filme sem mencionar o título totalmente despropositado que o filme ganhou no Brasil. O original The Hustler poderia muito bem ter sido traduzido para algo como O Apostador ou O Jogador. Mesmo o título que o filme ganhou em Portugal seria mais adequado: A Vida é um Jogo.

Paul Newman ainda bem jovem interpreta o papel principal neste drama de Robert Rossen (diretor que surpreendeu anos antes com um inesperado Oscar de melhor filme para seu drama ambientado no cenário da política, A Grande Ilusão – não confundir com o filme francês de Jean Renoir). Eddie Felson é basicamente um viciado jogador de sinuca, que para fazer disso também um meio de sobrevivência costuma aplicar golpes. É assim que começa o filme. Felson entra em um bar com um parceiro e os dois se fazem passar por colegas de trabalho a caminho de uma convenção. Felson faz uma tacada de mestre que teima com o parceiro que pode repetir, apostando com ele. O parceiro recusa, vendo que ele aparentemente está bêbado e não conseguirá repeti-la jamais. Dentre os espectadores do jogo, o dono do bar aceita a proposta, apostando alto com ele.  A farsa então se desfaz frente ao espectador. Felson não está bêbado de verdade, apenas fingindo, para assim pegar algum incauto que se acha mais esperto que ele.

A viagem longa com o seu companheiro, que na verdade é quem banca as apostas, tem o objetivo de desafiar aquele tido como o melhor jogador do país, Minnesota Fats (Jackie Gleason). O primeiro encontro é desastroso. Eddie começa bem, ganhando uma alta quantia, mas insiste em não querer parar e acaba perdendo tudo. Neste jogo também, Eddie vai conhecer Bert (George C. Scott), que fica impressionado com o seu talento e quer convencê-lo a se tornar digamos assim, o seu agente. Neste ponto da trama, Eddie já conheceu Sarah (Piper Laurie), uma mulher solitária de passado misterioso que também tem o seu vício: o da bebida.  A atriz Piper Laurie não foi incluída no filme apenas como um par romântico ao galã Paul Newmann. A relação entre os dois, na verdade, não é exatamente romântica. Sarah é bastante frágil emocionalmente, e oscila entre momentos de lucidez em que quer afastar Eddie das más companhias e momentos em que irrompe em reações destemperadas, traçando um complexo e realista perfil de um distúrbio que hoje todos conhecem como bipolaridade.

Para Bert, Sarah é indesejada, pois ele quase como um cafetão do mundo do jogo quer explorar o máximo de Eddie Felson, e uma namoradinha problemática atrapalha seus planos.  Após iludi-la com um falso recado que ela interpreta como um rompimento de Eddie, Sarah acaba na cama com Bert, para após, envergonhada de sua atitude de mulher fácil – ao menos para os padrões da época do filme – cometer suicídio. A morte de Sarah terá um impacto profundo sobre Eddie, que ao final do filme, movido agora por um sentimento de raiva num misto de remorso, tem enfim a vitória esmagadora que sempre desejou sobre seu rival Minnesota Fats. Um pouco tarde demais, já que Eddie, entrando em confronto com Bert – que acusa pela morte de Sarah – vai aceitar os seus termos e retirar-se da jogatina definitivamente.

Embora somente Paul Newman tenha oficialmente frequentado o Actor´s Studio, é indiscutível a influência dessa escola no novo estilo de interpretar de todos os principais atores do filme, que lançado no início da década de 60, é radicalmente diferente do que era o padrão na década de 50, e principalmente da década de 40. George C. Scott, embora um coadjuvante, não tem exatamente uma composição de personagem, mas principalmente uma presença em cena que dispensa mesmo até qualquer diálogo. Bert tem como diriam à época do filme “uma cara preparada”. Piper Laurie tem sem dúvida a melhor performance de todos. Sua Sarah é complexa, e Laurie demonstra pela voz e pelo olhar suas nuances e alterações de humor. Newman surpreende pela naturalidade de sua interpretação. Falando em Actor´s Studio, reza a lenda que o diretor, adepto desta escola, angariou como coadjuvantes atores não-profissionais e os fez terem aulas de interpretação moderna na famosa escola.

Além da influência do Actor´s Studio na interpretação do quarteto principal de atores, Desafio à Corrupção não esconde a sutil influência exercida sobre o diretor e roteiristas pelos ainda recentes novos ventos vindos da Europa, a Nouvelle Vague e o Neo-Realismo italiano.  É nisto que ele parece tão mais moderno que outros dramas americanos do início da década de 60. Antes mesmo da narrativa começar somos brindados por uma apresentação de créditos original: cenas rápidas do próprio filme vão sendo mostradas, que “congelam” à medida que vão surgindo os nomes dos atores e equipe técnica, embaladas por um delicioso jazz – ao longo do filme o uso tradicional de trilha sonora será quase nulo, outra característica inovadora para um drama americano.

Fora isso, é notável a montagem e a continuidade nas cenas de jogo e o uso dramático do cenário – não há quase cenas externas, o que confere um proposital tom quase claustrofóbico ao filme, reverberando a prisão psicológica que o jogo impõe ao personagem principal. Conforme o tom dramático da cena e o que ela representa na trajetória de Eddie, o vemos transitar pelo claro-escuro de bares mal frequentados até descer ao porão da casa de Findley (Murray Hamilton). A fotografia do mestre Eugène Schufftan é clara e com profundidade de campo, propositalmente evitando os contrastes do filme noir, como que querendo dizer que todos apostam suas fichas neste jogo e que há luz ou escuridão dentro das personagens e não na influência do ambiente que os circunda.

Desafio à Corrupção é um clássico de transição do cinema americano, com influência inegável sobre os novos talentos que viriam a surgir na virada da década de 60 para 70 nos Estados Unidos: Francis Ford Coppola, Martin Scorsese e mesmo John Cassavetes. Passados mais de 40 anos, seu impacto dramático e a qualidade da direção, produção e atuação ainda faz dele uma visão obrigatória. Rossen sem dúvida soube criar uma parábola eficaz sobre a obsessão norte-americana pelo sucesso e fama, sobre a aura endeusada que esta sociedade costuma colocar sobre os vencedores, mas também o alto preço que cobra quando passam a ser também perdedores.

Desafio à Corrupção (The Hustler) — EUA, 1961
Direção: Robert Rossen
Roteiro: Sidney Carroll, Robert Rossen (baseado na obra de Walter Tevis)
Elenco: Paul Newman, Jackie Gleason, Piper Laurie, George C. Scott, Myron McCormick, Murray Hamilton, Michael Constantine, Stefan Gierasch, Clifford A. Pellow, Jake LaMotta
Duração: 134 min.

SIDNEI CASSAL. . . . Formado em Letras (Português/Francês) . Estudante de Direito. Trabalhei com redação e criação publicitária. Participei de Oficina de Cinema, em convênio com a TVE-Porto Alegre, onde os curta-metragens produzidos foram montados e exibidos. Cinéfilo de carteirinha.