Crítica | Desaparecidas

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Por mais que seja um diretor de resultados irregulares, não há como acusar Ron Howard de ser um cineasta de visão acomodada, por mais que o próprio nunca tenha apresentado sua própria marca como autor. Mas há muita versatilidade em Howard, e desta forma, poucos teriam ido de Splash – Uma Sereia em Minha Vida para Cocoon com este mesmo gosto, ou pensando em outros casos, sair de Willow – Na Terra da Magia e seguir com a comédia O Tiro Que Não Saiu Pela Culatra. Versatilidade e experimentações é algo que não falta no currículo de Howard.

O que talvez falte ao cineasta (que numa rápida curiosidade, é pai de Bryce Dallas Howard) seja a habilidade de imprimir uma carga dramática que empurrem seus filmes para fora da caixinha de segurança onde estes geralmente costumam vir embalados. Há exceções, como o empolgante filme de ação espacial Apollo 13 – Do Desastre ao Triunfo ou o intenso O Preço de um Resgate, mas em grande parte do tempo, falta pulso firme às narrativas de Ron Howard, e especialmente em seus projetos mais acadêmicos como os fracos Uma Mente Brilhante e A Luta Pela Esperança, estas fragilidades se fazem ainda mais evidentes.

E por falar em Uma Mente Brilhante, Desaparecidas foi encomendado justamente para aproveitar o embalo do nome de Howard nas premiações (de onde saiu do Oscar com os prêmios de filme e diretor debaixo dos braços) retomando a ambientação tão clássica do gênero faroeste para narrar uma história de resgate e vingança onde a curandeira Maggie (Cate Blanchett), após ter seu marido Brake (Aaron Eckhart, numa ponta decepcionante) assassinado e uma de suas filhas sequestradas, parte em busca de seu paradeiro ao lado do pai, Samuel (Tommy Lee Jones), com quem possui uma relação conturbada.

Tendo fracassado comercialmente nos EUA e lançado diretamente em home vídeo aqui no Brasil, grande parte da fragilidade de Desaparecidas se deve tanto a ineficiência de Howard quanto ao roteiro excessivamente linear de Ken Kaufman (de Cowboys do Espaço), que baseando-se no romance de Thomas Edison, pouco aprofunda as relações entre os personagens através de seus diálogos que visam ser expositivos, mas pouco criam empatia por seus dilemas. A amargura de Maggie por seu pai não é tão responsável por grandes mudanças na trama, e suas tentativas de conferir algum peso durante a busca dos personagens pouco ajuda para que nos importemos com aquela distância emocional entre pai e filha. Quanto a direção de Howard, este jamais se decide entre a veia do suspense, da ação física e do drama familiar, o que condena Desaparecidas a um deslocamento quase imediato.

E ao se fazer longo demais para as pretensões rasas que apresenta, o que resta em Desaparecidas é a bela contemplação das terras secas e pedregosas do velho oeste americano no século XIX, em especial quando o diretor de fotografia Salvatore Totino oscila tão organicamente entre as paletas de cores áridas misturadas ao vermelho durante o dia e ao azul durante a noite. Mas a beleza plástica não faz de Desaparecidas uma experiência mais revigorante, e mesmo nomes competentes como Cate Blanchett e um caricato Tommy Lee Jones possuem pouco o que fazer com seus papéis limitados. E não é à toa que, por isso, Desaparecidas seja um dos filmes mais obscuros na filmografia irregular de Ron Howard.

Desaparecidas (The Missing) – EUA, 2003
Direção
: Ron Howard
Roteiro: Ken Kaufman, baseado em romance de Thomas Edison
Elenco: Cate Blanchett, Tommy Lee Jones, Aaron Eckhart, Evan Rachel Wood, Val Kilmer, Simon Baker
Duração: 137 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.