Crítica | Descompensada

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estrelas 4

Um nome que você provavelmente ouviu muito este ano é o de Amy Schumer. Comediante americana, ganhou destaque por apresentações stand up e seu programa Inside Amy Schumer, que foi indicado para diversos Emmys e gerou considerável repercussão. Considerável a ponto de ganhar seu primeiro longa-metragem pelas mãos de um dos Midas do humor americano, Judd Apatow. Com Descompensada, Schumer revela-se não só uma ótima roteirista, mas também uma estrela com gigantesco talento.

A trama nos apresenta à Amy, jornalista de uma revista de variedades em Nova York e que é totalmente desacreditada no conceito de monogamia, trocando de parceiros a cada noite agitada; em outras palavras, é a versão feminina de Alfie, o sedutor. Quando é designada para entrevistar e escrever uma matéria sobre o médico esportista prodígio, Aaron (Bill Hader), Amy parece disposta a tentar novamente uma “relação de gente grande”.

É uma premissa vaga e associada principalmente à comédias românticas açucaradas. E por um lado, Descompensada é um longa abertamente do gênero, especialmente em sua estrutura batida e imutável. A transformação e amadurecimento da personagem ocorrem sem driblar clichês, mas é a forma como Schumer e Apatow conduzem a narrativa que realmente fazem a diferença. Quem já viu qualquer filme do diretor, sabe que – em primeiro lugar – seus trabalhos capturam com perfeição o que é a vida e seus momentos mais variados, especialmente em seus excessos de referências pop e escolhas musicais – só lembrando que o criticado Tá Rindo do Quê? é o melhor exemplo desse estilo de cinematografia, focando-se em uma situação ordinária com naturalidade e diálogo puro e simples. É o mesmo aqui, com Apatow virando suas lentes para a pequena história dessa multifacetada personagem.

Schumer é uma comediante nata, e tem excelente timing cômico para as mais variadas situações que ela mesmo teceu. A cena de sexo com um troglodita de academia é um dos pontos altos, provocando humor pela incapacidade do sujeito de falar “sujo” durante a transa, limitando-se a passar uma dieta de treinamento. Sua relação com Hader também é admirável, ainda mais por vermos o ator incorporando um personagem muito mais sensível do que estamos acostumados a fazer.

O elenco de apoio é rico como na maioria dos filmes de Apatow, a começar por ele que definitivamente é o ladra-cenas da produção: LeBron James. Interpretando a si mesmo, o jogador de basquete do Cleveland Cavaliers serve como melhor amigo de Aaron e seu conselheiro amoroso particular, revelando um carisma impressionante como um aficionado por Downton Abbey. Em sua nova fase de surgir irreconhecível a cada trabalho, Tilda Swinton surge estranhamente bronzeada e durona como a editora de Amy, enquanto Ezra Miller parece limitado a uma figura tímida durante toda a projeção, mas revela uma persona absolutamente inesperada em uma cena chave.

Descompensada é o veículo perfeito para que o mundo conheça o talento de Amy Schumer, rendendo uma comédia romântica leve e contemporânea, sem nunca fugir dos clichês, mas também sem perder a oportunidade de subvertê-los com uma boa prosa cômica. É o exato oposto de seu título original.

Descompensada (Trainwreck, 2015 – EUA)

Direção: Judd Apatow
Roteiro: Amy Schumer
Elenco: Amy Schumer, Bill Hader, LeBron James, Brie Larson, Vanessa Bayer, Tilda Swinton, Ezra Miller
Duração: 125 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.