Crítica | Desconhecida (2016)

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estrelas 3

Joshua Marston gosta de falar sobre identidades, em muitas esferas diferentes. Dois de seus filmes anteriores, Perdão de Sangue (2011) e Maria Cheia de Graça (2004) lidam com esse tema em cenários distintos, partindo do princípio de que alguém, a partir de um determinado impulso, pode encontrar as formas mais ingratas, extremas e misteriosas de curar suas dores, vingar seus entes queridos, se fazer ver ou fugir de si mesmo. Este último caso é o que vemos na personagem Alice, interpretada por Rachel Weisz, em Desconhecida (2016).

Alice vive constantemente trocando de personalidade. Inventando vidas, passados, relações. O momento em que a vemos, é de “retorno às origens”, tentando encontrar alguém que não via há 15 anos. A ideia central do filme é mostrar esse pequeno reencontro de uma pessoa que passou metade da sua vida mudando quem e o quê ela é, com alguém que fizera parte de um passado onde a mudança era ainda uma ideia. As perguntas vêm à mente. O que pensa alguém assim? Por que faz esse tipo de coisa?

O espectador não deve esperar um arroubo de realidade no roteiro de Marston e Julian Sheppard. Não há também uma linha psicológica ou uma exposição sobre mitomania, múltiplas personalidades, nada disso. A verdadeira “causa” das mudanças nos parece mais externa; as criações de Alice são versões dela e de pessoas que ela gostaria de ser (ou ter sido), e tudo isso está relacionado a uma forte vontade de estar fora, longe de tudo o que é comum, clichê, maduro. Com uma interpretação cheia de maneirismos exigidos para esse tipo de personagem, Rachel Weisz mostra suas várias facetas e personas, cada uma agindo e procurando algo, sem nunca encontrar.

O questionamento sobre personalidade colocado pelo texto, porém, não levanta voo muito alto. Aliás, ele se perde em meio ao momento, dando deixas de uma possível reconciliação (entre amigos) que não acontece. Depois, abre demais uma vida sedentária para alguém que tem sido, de certa forma, nômade. Chega a ser contraditório que em alguns momentos haja essa grande personalidade viajada e em constante mudança, algo que a montagem faz questão de tornar plural — às vezes com rapidez demasiada –, e por outro lado, alguém que “cansou” de sua última performance, olhou para trás, e então resolve fugir novamente. Agora para “se encontrar”.

Em certo sentido, o filme nos lembra Apenas Uma Noite (2010), da iraniana Massy Tadjedin, mas não se prende a um princípio de pertencimento e coloca em cena alguém cuja identidade inexiste, ou, em interpretação mais leve, existe por pequenos espaços de tempo, um eu frágil, assumidamente mutável, corajoso e orgulhoso demais. Olhando por este lado, o encontro familiar se torna ainda menos importante, servindo mais como uma desculpa longa para colocar Alice e Tom (Michael Shannon) sozinhos, na rua, conversando sobre o passado. Ele, tentando entender. Ela, relatando o passado.

A maior parte do filme se passa durante a noite e há uma aconchegante abordagem do diretor de fotografia para com os espaços visitados. Apenas uma pequena sequência, a dos sapos, permanece como exercício vazio de direção e foto, pois não acrescenta nada à narrativa e, mesmo que olhemos para o lado metafórico ou simbólico supostamente ali presentes, ela não diz nada que já não tenha sido pelo menos aludido no filme, porquanto a cena dos sapos permanece inútil, apesar de visualmente bela.

Desconhecida nos convida a encontrar a Alice. Um momento que não dura mais que duas horas. O elenco do filme, mesmo quando mal utilizado (Kathy Bates e Danny Glover fazem uma participação especial completamente alheia e que só se torna divertida pelos ótimos atores) traz algo de bom para a obra. A pergunta sobre “quem somos” parece ser feita a cada par de diálogos e situações, e não do jeito filosófico ou existencial em que normalmente se faz esta pergunta. Conhecer-se a si mesmo aparece aqui como uma tarefa para a vida inteira. Uma tarefa em que nós raramente teremos muito sucesso.

Desconhecida (Complete Unknown) — Estados Unidos, 2016
Direção: Joshua Marston
Roteiro: Joshua Marston, Julian Sheppard
Elenco: Rachel Weisz, Michael Shannon, Erin Darke, Hansel Tan, FaTye, Zach Appelman, Michael Chernus, Azita Ghanizada, Omar Metwally, Frank De Julio, Condola Rashad, Chris Lowell, Tessa Albertson, Kelly AuCoin, Kathy Bates, Danny Glover
Duração: 91 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.