Crítica | Desejo de Matar 2

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Desejo de Matar 2 está para o filme original assim como Rambo II – A Missão está para Rambo – Programado para Matar, com a diferença que a continuação com Sylvester Stallone consegue ser pelo menos divertida, ao passo que a com Charles Bronson não chega sequer a ser minimamente aceitável mesmo para o patamar já razoavelmente baixo estabelecido pelo original. Trata-se de mais um filme daqueles que só existem para arrancar dinheiro de incautos, já que pervertem por completo o espírito do primeiro e converte seu anti-herói em um super-herói, um típico brucutu dos anos 80, mas sem o charme de um Stallone, Schwarzenegger ou até mesmo de um Norris da vida para essa função bem específica de ação descerebrada e isso sem que sequer seja culpa de Bronson necessariamente.

Apenas para deixar bem clara a comparação que fiz, basta lembrarmos que, no excelente Rambo original, o protagonista é um veterano de guerra que é obrigado a defender-se do preconceito que emana de uma cidadezinha americana. Ele se sente traído por ter sido abandonado por seu país e, agora, sequer consegue paz para procurar antigos colegas. Na continuação, Rambo é transformado em um ser extremamente musculoso e uma máquina de matar que mói seus inimigos com uma facilidade e eficiência de trazer lágrimas aos olhos, mas sem que qualquer traço da mensagem do primeiro filme seja transportado para a segunda aventura. Mas há coração ali por trás, nem que seja um coração perfurado por flechas e explodido por granadas. Em Desejo de Matar, um clássico setentista, sem dúvida, vemos a colocação de uma questão interessante e muito complexa: o vigilantismo como forma de se reduzir a criminalidade. Não há um estudo profundo do assunto, mas a matéria é abordada e faz o espectador pensar enquanto Paul Kersey, depois que sua mulher é morta e sua filha é estuprada e colocada em estado catatônico por marginais, sai lutando não contra pessoas específicas, mas contra o crime em geral. Seu inimigo é difuso e impossível de eliminar, o que torna sua jornada o metafórico “enxugamento de gelo” com consequências psicológicas para qualquer cidadão comum, algo visto na icônica cena final em que ele sorri enquanto aponta o dedo como um revólver para alguns bandidos.

Em Desejo de Matar 2, produzido oito anos depois do primeiro e, agora, pela fábrica de trasheiras oitentistas Cannon Films, que adquirira os direitos de Dino de Laurentiis, pega-se o conceito do vigilantismo e o perverte completamente. Kersey, anos depois dos eventos de Desejo de Matar, mora em Los Angeles e namora Geri Nichols (Jill Ireland, enfiada goela abaixo no filme por Bronson, por ser a esposa do ator), com sua filha Carol (agora vivida por Robin Sherwood) ainda catatônica, mas melhor, internada em um sanatório local. Não demora e descobrimos que o protagonista é, na verdade, um grande para-raio de tragédias, já que um grupo de marginais liderados por um então muito jovem Laurence Fishburne, estupra e mata sua empregada doméstica, agride Paul e, não satisfeito, sequestra, estupra e mata Carol. Mas, assim como no caso das facas Ginsu e das meias Vivarina, há mais: o tenente Frank Ochoa (Vincent Gardenia, reprisando seu papel), da polícia novaiorquina, que descobrira que Kersey era o vigilante em sua cidade, mas que, por instruções do prefeito, decidiu não aprisioná-lo, chega em Los Angeles com receio de que justamente seja descoberto que ele fizera corpo mole e, dito e feito, acaba morto também.

A luta de Kersey contra o crime sem rosto é esboçada no filme, mas a grande verdade é que, aqui, ele, juntamente com Ochoa, age como um detetive, investigando o crime cometido contra sua família e persegue especificamente os membros da gangue estuprada e assassina. Com isso, Paul Kersey transmuta-se em Dirty Harry, só que com bigode e sem metade do charme. O vigilantismo sai da narrativa e entra um filme policial procedimental liderado por um civil com literal desejo de matar (nada da dicotomia do “desejo de morrer” aqui). Se o primeiro filme já havia irritado Brian Garfield, autor do livro em que fora baseado, levando-o a escrever uma continuação para ratificar seu pensamento, aqui Menahem Golan e Yoram Globus destroem a premissa completamente, algo que deve ter terminado de enfurecer Garfield. De alma torturada, Kersey torna-se o Justiceiro, só faltando pintar uma caveira branca na camisa preta.

Michael Winner, que volta à direção também por imposição de Bronson (duas escalações em um filme só não é para qualquer um!), entrega um resultado pouquíssimo inspirado, muito aquém do potencial que demonstra ter no primeiro filme. Seus problemas com a montagem – aqui um trabalho de Julian Semilian e do próprio diretor, mas sob pseudônimo – se intensificam e a passagem de tempo é errática, com a conversão do já fraco roteiro de David Engelbach em uma narrativa dolorosamente episódica, ainda que misericordiosamente rápida, com menos de 90 minutos. É, grosso modo, exatamente o filme original só que sem o frescor e a originalidade apresentados por lá e com uma fotografia pouco imaginativa da dupla Thomas Del Ruth e Richard H. Kline. A cereja no bolo é a trilha sonora com base em solos de guitarra por ninguém menos do que Jimmy Page (sim, ele mesmo!) que pode até funcionar razoavelmente bem fora do filme, mas que, ao ser sincronizada à película, chama muito mais atenção à si própria do que consegue enfatizar as cenas. É quase como ouvir algo que muito nitidamente não deveria estar ali.

Continuações são normalmente problemáticas, especialmente quando o filme original já não era nenhuma maravilha. Mas Desejo de Matar 2 consegue irritantemente manter a estrutura do filme setentista, mas tirar dela tudo que existia de bom, mal deixando algo aproveitável além da sempre simpática carranca de Charles Bronson e as divertidas mortes que ele impinge a quem quer que olhe torto para ele.

Desejo de Matar 2 (Death Wish II, EUA – 1982)
Direção: Michael Winner
Roteiro: David Engelbach (baseado em personagens criados por Brian Garfield)
Elenco: Charles Bronson, Jill Ireland, Vincent Gardenia, J.D. Cannon, Anthony Franciosa, Ben Frank, Robin Sherwood, Silvana Gallardo, Robert F. Lyons, Michael Prince, Drew Snyder,  Paul Lambert, Thomas F. Duffy, Kevyn Major Howard, Laurence Fishburne
Duração: 88 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.