Crítica | Desejo de Matar (2018)

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  • Leia, aqui, as críticas de todos os filmes da franquia Desejo de Matar.

Publicado em 1972, o livro Death Wish, de Brian Garfield, não demorou muito tempo para chamar a atenção do público e de produtores de cinema, especialmente porque apresentava um cenário familiar sob um aspecto caótico (de perda e dano) e um homem que passou a vida sustentando um certo ideal político e social, mas que se vê distante de todas as suas coisas e do modelo de vida cultivados até aquele momento, quando precisa adotar uma posição de vingança e justiça diante do que fizeram com sua esposa e filha. Em 1974, Michael Winner dirigiu a primeira versão cinematográfica da obra, película icônica, apesar de não ser perfeita, com Charles Bronson no papel principal. O sucesso de público e o peso da narrativa deu origem à franquia Desejo de Matar, que nesta produção de 2018, assinada por Eli Roth, traz uma leitura bastante diferente, com menos conteúdo, menos trabalho de personagens, e (o mais frustrante de todos), menos violência — se levarmos em conta que é um filme de Eli Roth para uma franquia originalmente violenta.

Este é um ponto curioso na filmografia de Eli Roth, que em suas três safras anteriores procurou mudar, dentro do possível, o seu estilo de dirigir. Assim, temos de O Albergue 2 (2007), Canibais (2013) e Bata Antes de Entrar (2015) até Desejo de Matar, tentativas diferentes de abordar ambientes com muita morte, tripas e miolos voando na tela e algum suspense mesclado com diferentes nuances ou mesmo subgêneros do terror. Death Wish, porém, é um filme de ação envolvendo uma investigação policial e um drama familiar para dar suporte ao protagonista (já falo sobre isso), e que parece não cair bem no jeitão “eu estou aqui para te deixar chocado” do diretor.

Joe Carnahan escreveu o texto com base no livro e no argumento de Wendell Mayes para o filme de 1974, mas fez a sua própria leitura da trama, uma leitura que retirou todo o aspecto de discussão (inclusive política) sobre as ações do matador e se contentou em colocar isso como anúncios pontuais, via televisão — vale destacar que as interrupções burocráticas das notícias vão perdendo impacto e atrapalhando o filme a cada nova morte — e de um podcast/programa de rádio com uma colocação ainda menos interessante que a do telejornal, porque sugere possíveis debates sobre um ato de vigilantismo de cunho racista, mas a fala do apresentador fica isolada, sem nada que afete de verdade o protagonista ou mesmo a linha narrativa do filme, dando a sensação de “atualização de conceitos” sem um propósito benéfico para a obra. E como se isso não bastasse, temos uma questionável construção para o personagem de Bruce Willis — que sim, é exatamente o mesmo de sempre, com os mesmos vícios e maneirismos, mas ele repete esse papel há tanto tempo que alcançou um alto nível de simpatia diante do público. O que não dá para engolir é o que o roteiro faz com ele.

Willis é, em sua “vida normal”, um cirurgião. Agora vejam o arroubo metafórico a que o roteiro de Carnahan se entregou, algo equivalente a, em poesia ruim, rimar “amor” com “dor“. Em nenhum momento da fita o ator convence de que é mesmo um cirurgião e, embora a gente pense em uma lista interminável de profissões que caberiam muitíssimo melhor ao tipo de ator que Bruce Willis é, cá está a ocupação que menos impacto e coesão tem diante dele. Sem preparo ou mesmo vontade para fazer um papel de passagem de um homem em luto (e deveria estar mesmo, porque Elisabeth Shue está muito bem no filme e só lamentamos a sua pequena participação na fita) para um aspirante a assassino-vingador-vigilante que não sabe escolher nem mesmo o seu local de treinamento de tiro, o personagem acaba se perdendo facilmente no tráfego de sua “vida normal” e para a sua “vida de assassino”. Cabe aí até uma “solução” que provavelmente Carnahan se orgulhou bastante, tomando-a por “imensamente inteligente“, mas que na verdade é apenas um caminho ruim, que nos faz questionar uma porção de decisões do roteiro. Sem outra opção que não a de aceitar o mistério, rimos da tal “esperteza” que ainda acaba gerando prole dramática, vide a sequência final de Paul Kersey e aquela conversa do tipo ~piscadelas cúmplices para o público com doses de “vocês viram o que a gente fez aqui?”~ com o Detetive Kevin (Dean Norris).

A intenção de Eli Roth em mudar de ares funcionou em partes, pelo menos. O início do filme, até o crime acontecer, funciona dentro de uma lógica menor, mas funciona. E se descontarmos todo o aspecto dramatúrgico (mesmo por parte de Vincent D’Onofrio, que não está ruim, mas parece afogado em uma direção que o pede para ser… bobo) temos uma jornada de tiros, perseguições, corridas noturnas e um pouco de suspense capazes de divertir. Somam-se aqui alguns pontos para a trilha sonora tendenciosamente macabra de Ludwig Göransson (Pantera Negra) e para a fotografia noturna de Rogier Stoffers (Amaldiçoada) mostrando uma boa versão para o uso de vermelho em diversas cenas de violência, uma marca estética de Eli Roth.

Já o diretor, que insiste em fazer split-screen — e sob uma edição de cenas que não produzem o efeito necessário, inclusive nos deixam em dúvidas do por quê estão ali –, se sai abaixo da média, talvez por querer mudar demais e acabar devendo algo que ele mesmo já tinha assumido como parte de sua identidade fílmica. Subtraído de uma discussão sempre interessante sobre vigilantismo e do rio tortuoso que é a posição sobre justiça e vingança, pouco sobra de tutano no filme para acalentar a nossa vontade de ver na tela uma “boa história”. Desejo de Matar, versão 2018, pode até dar aquele prazer enorme de ver criminosos violentos pagando de maneira não-ortodoxa pelo que fizeram. Mas esse prazer vem em um embrulho que faz com que o seu conteúdo perca mais da metade do valor. Condenação ainda maior pelo fato de usarem um certo clássico do rock errado, no filme. Duas vezes.      

Desejo de Matar (Death Wish) — EUA, 2018
Direção: Eli Roth
Roteiro: Joe Carnahan (baseado na obra de Brian Garfield e no roteiro prévio de Wendell Mayes)
Elenco: Bruce Willis, Vincent D’Onofrio, Elisabeth Shue, Camila Morrone, Dean Norris, Beau Knapp, Kimberly Elise, Len Cariou, Jack Kesy, Ronnie Gene Blevins, Kirby Bliss Blanton, Andreas Apergis, Ian Matthews, Wendy Crewson, Warona Setshwaelo
Duração: 107 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.