Crítica | Desejo de Matar 3

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Depois de matar um monte de gente e nunca sequer passar perto de uma prisão, Paul Kersey (Charles Bronson) é preso por um crime que não cometeu ou, talvez, tenha cometido, considerando que a vítima é Charley, um amigo dele e, como nós sabemos, conhecer Kersey é, por si só, algo extremamente insalubre. Mas é assim que Desejo de Matar 3 começa e, ainda que o velho mote “mataram alguém que conheço, preciso me vingar” esteja presente, ele não é mais importante. A Cannon Films, fazendo o que fazia de melhor, pegou sua propriedade e a transformou completamente já a partir do segundo filme, mas, lá, ele não era mais do que uma refilmagem idiota e, aqui, a produtora dá outros contornos ao vigilante, colocando-o na missão de reduzir o crime na cidade, desta vez com a benção explícita do chefe de polícia Richard Shriker (Ed Lauter).

Com isso, a história perde os freios e ganha no exagero divertido, transformando-se naquilo que a franquia já poderia ter sido desde o fraquíssimo filme anterior. Nada de pistolinhas na mão de Kersey, pelo menos não da segunda metade da fita. Nada de uma vingança pessoal contra meia dúzia de criminosos. Nada de comedimento. Desejo de Matar 3 é mais próximo de Stallone Cobra do que do filme original e, se o espectador estiver no espírito certo, isso é bom e não ruim.

Agora, a gangue inimiga é repleta de buchas de canhão, com Gavan O’Herlihy vivendo o líder Fraker e com um dos membros sendo Alex Winter em seu primeiro papel, quatro anos antes de tornar-se Bill, de Bill & Ted. Com isso, o escopo é alargado, inclusive com um cenário urbano desenhado milimetricamente para permitir uma estrutura de guerra campal, maximizando os estragos e fazendo o melhor uso do considerável elenco de extras fantasiados de marginais variados. A violência ganha outros níveis mais bobalhões e, por isso mesmo, mais “apreciáveis”, ainda que o roteiro insista no “estupro padrão” da franquia, algo desconcertante e perturbador e, francamente, pelo menos aqui, desnecessário.

De toda maneira, o exagero continua no melhor estilo Dirty Harry, com Kersey adotando o uso de “Wildey”, um canhão em forma de pistola calibre.475 Magnum que ele faz questão de explicar como funciona e o estrago que é capaz de gerar. Só faltou o “do you feel lucky, punk?”, algo que é de certa forma compensada pelo fato de Wildey ser apenas o começo, com Kersey também empunhando um prático lança-foguetes para ajudar no extermínio generalizado da praga que assola a região. Aliás, sobre a criminalidade, o filme não tem vergonha alguma em conectar o vigilantismo com a diminuição de crimes e com a adoração do justiceiro como herói local. Se isso era de certa forma trabalhado mais discretamente no primeiro filme, aqui essa discrição é arremessada pela janela sem nenhuma tentativa de entabular uma conversa. Até mesmo a Defensora Pública com quem o protagonista se relaciona ganha seus segundos para indagar o que raios ela está fazendo defendendo um bando de creeps.

Michael Winner volta para a direção, no que seria seu último filme da franquia (ele só faria mais cinco longas depois deste) e, sem ter que retratar a realidade, sente-se livre para lidar com o roteiro básico de Don Jakoby com uma estrutura de filme de ação pura e simplesmente, conseguindo até mesmo criar suspense com uma montagem eficiente e um melhor uso da trilha sonora de Jimmy Page, que também volta à franquia e finalmente estabelece o tom certo para a história. O elenco, do lado dos marginais, é formado de um dos pelotões mais histriônicos que já singrou as telonas, mais bizarros até mesmo do que os “Guerreiros” de Warriors – Os Selvagens da Noite e O’Herlihy é, lógico, o destaque, com cabelo raspado e pintura na testa. Do lado dos (não tão) bons moços, Bronson e Lauter se divertem completamente soltos e canastrões ao limite, mas, estranhamente, perfeitamente dentro da vibe do filme, que exige esse tipo de personagem maior do que a vida. O sempre simpático Martin Balsam, que vive Bennett, quase que o patrocinador de Kersey no conjunto habitacional em que vive e que empresta uma delicada metralhadora calibre .30 para o herói, faz seu papel de sempre e não desaponta, criando uma atmosfera simpática para a violência descerebrada.

O que atrapalha, no roteiro, é a tentativa de construir um novo romance para Kersey. Tudo é muito artificial e forçado, além de feito única e exclusivamente para que seu interesse amoroso seja morto, algo que é evidente ao espectador desde que a moça (vivida por Deborah Raffin) aparece pela primeira vez. Afinal, como mencionei logo no começo da crítica, não há nada mais perigoso do que conhecer Kersey.

Desejo de Matar 3 vale pelo escracho que é. Livre de qualquer semblante de amarra narrativa, Michael Winner e Charles Bronson entregam uma segunda continuação tão boa quanto o filme original, ainda que por razões completamente diferentes.

Desejo de Matar 3 (Death Wish 3, EUA – 1985)
Direção: Michael Winner
Roteiro: Don Jakoby (baseado em personagens criados por Brian Garfield)
Elenco: Charles Bronson, Deborah Raffin, Ed Lauter, Martin Balsam, Gavan O’Herlihy, Kirk Taylor, Alex Winter, Tony Spiridakis, Ricco Ross, Tony Britts, David Crean, Nelson Fernandez, Alan Cooke, Bob Lee Dysinger, Topo Grajeda
Duração: 92 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.