Crítica | Desejo de Matar 4: Operação Crackdown

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Como toda continuação hollywoodiana – no caso terceira continuação! – o objetivo de Desejo de Matar 4 (ignorarei o subtítulo desnecessário) era ir além dos exageros de Desejo de Matar 3. Em termos de ambição da história, o filme até consegue barrar o anterior, mas sua execução deixa a desejar principalmente pelo fato de que a Cannon Films, à época, já estava em sua era de declínio, cortando orçamentos para todo o lado, com a franquia de Charles Bronson saindo dos 10 milhões para metade disso, algo que fica bastante evidente pelos efeitos práticos e óticos (basicamente explosões) abaixo da média.

Mesmo assim, a obra não é um completo desapontamento. Surpreendentemente, Gail Morgan Hickman escreve um roteiro que, inspirado na estrutura clássica de Yojimbo – O Guarda-Costas, coloca Paul Kersey (Bronson), desta vez, armando para deixar dois cartéis de drogas em conflito mortal. Em outras palavras, além de este ser o primeiro filme da franquia com um subtítulo, ele é também o primeiro a não lidar com marginais “de rua” apenas, elevando o jogo para algo que passa mais fortemente a se assemelhar a uma trama policialesca que muito bem poderia ter James Bond ou Dirty Harry como protagonista. Claro que a tradicional “morte de ente querido” de Kersey acontece, com a filha de sua atual namorada falecendo em razão de uma overdose de cocaína, mas, aqui, notamos outra evolução: nada de espancamento e/ou estupro! Isso serve de estopim não para ele sair se vingando dos carteis, mas sim para ser contratado por um milionário local que, não tem muito tempo, teve perda semelhante para as drogas, o que também é utilizado por Hickman como forma de criar uma (não tão) inesperada reviravolta na trama, algo também inédito na série de filmes.

Em outras palavras, apesar de mais pobrinho que seu antecessor imediato, Desejo de Matar 4 oferece elementos novos para a franquia que acabam prendendo a atenção do espectador daquele jeito descerebrado de ser. Se o anterior era muito mais divertido, este tende a ser mais sério, ainda que o “problema das drogas” seja tratado da maneira mais simplista possível, bastando que um civil fortemente armado, sem qualquer conhecimento dos meandros de operações como essa, seja mais do que suficiente para liquidar com ele. Mas faz parte desse jogo de transformação de Kersey em um super-herói invencível que, desde o filme anterior, nem mesmo fica com o cabelo desarrumado em meio ao extermínio generalizado da bandidagem.

J. Lee Thompson, que trabalhara com Bronson diversas outras vezes, substitui o tradicional Michael Winner na direção (outra novidade!) já que ele não estava disponível para as filmagens e havia se indisposto com a estrela na produção anterior. Com isso, a obra ganha um ar até levemente ambicioso, com uma boa sequência inicial de pesadelo que emula a atmosfera mais série do primeiro filme, ao mesmo tempo que anuncia que veremos algo diferente, mais fora da estrutura formular a que nos acostumamos desde então. Mas isso é verdade até certo ponto somente, pois, mesmo considerando que não há uma guerra campal contra criminosos de rua e que Kersey faz uso de gadgets “sofisticados” como escutas telefônicas e até garrafas de vinho explosivas, no final das contas tudo se resume a muito tiroteio e muita morte, com o personagem de Bronson tornando-se de vez o Rambo urbano da terceira idade (o ator já tinha 66 anos a essa altura) que ele já demonstrara que seria depois do lança-foguetes que encerra a terceira parte.

Há outros bons momentos que mostram que Thompson tentou realmente fazer algo que tivesse um valor maior do que mero entretenimento descerebrado, como a sequência final, no subterrâneo de um prédio com uma pista de patinação no andar de cima, algo que ele usa para criar um efeito tenso por intermédio da montagem entrecortada e com efeitos sonoros que amplificam os sons dos patins rolando. É uma pena, porém, que ele não saiba finalizar com relevância sequências como essas, já que tudo se resolve de maneira simplista e descolada desses seus arroubos criativos que, no final das contas, parecem ser apenas penduricalhos em uma obra medíocre em seu todo.

No entanto, mesmo diante dessa mediocridade, o filme cumpre aquela função básica de divertir quem espera do filme exatamente aquilo que ele entrega: alto índice de mortalidade pelas mãos de um personagem invencível que mal sua o bigode para chacinar dúzias de bandidos com armas dos mais variados calibres. Desejo de Matar 4 estica a corda da franquia e seria o último filme até ela renascer brevemente nos anos 90 para sua despedida.

Obs: Atenção para a participação relâmpago de Danny Trejo!

Desejo de Matar 4: Operação Crackdown (Death Wish 4: The Crackdown, EUA – 1987)
Direção: J. Lee Thompson
Roteiro: Gail Morgan Hickman (baseado em personagens criados por Brian Garfield)
Elenco: Charles Bronson, Kay Lenz, John P. Ryan, Perry Lopez, George Dickerson, Soon-Tek Oh, Dana Barron, Jesse Dabson, Peter Sherayko, James Purcell, Michael Russo, Danny Trejo, Daniel Sabia, Mike Moroff, Dan Ferro
Duração: 99 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.