Crítica | Deserto Vermelho – O Dilema de Uma Vida

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A história é, uma definição breve, quase banal. Giuliana (Monica Vitti) é casada com o industrial Ugo (Carlo Chionetti) com quem tem um filho. Eles moram na Zona Industrial de Ravenna, Itália, e Giuliana, que acaba de sair de uma clínica, recupera-se de um acidente de carro que lhe trouxe mais impactos psicológicos do que físicos. Ainda atormentada pelo choque, a mulher passa os dias em um estado constante de agonia. É quando ela conhece o engenheiro Corrado (Richard Harris, que teve inúmeros problemas com Antonioni durante as gravações), com quem passa a andar e, aos poucos, desenvolve uma espécie indefinida de atração, que cresce e tem seu papel igualmente angustiante na reta final do filme.

Vindo da catártica experiência de sua Trilogia da Incomunicabilidade, formada por A Aventura (1960), A Noite (1961) e O Eclipse (1962), em Deserto Vermelho — que originalmente se chamaria Celeste e Verde –, Antonioni termina de fechar as janelas dramáticas em torno da solidão e da dificuldade de comunicação entre as pessoas, especialmente nos momentos em que uma mensagem mais precisa ser transmitida. Ao focar no dilema cotidiano de uma mulher vivendo em um mundo no pico tecnológico-industrial, o diretor também dá as cartas da neurose cultural, da dúvida e do vazio existencial, todos ingredientes do mundo vitorioso da ciência, da máquina, das paisagens de metal e fumaça que representam de maneira incômoda a alienação do homem e, ao mesmo tempo, o seu domínio sobre o espaço.

Antonioni já tinha mostrado a sua forma impressionada de olhar para os complexos industriais no curta Sete Canas, Um Vestido (1948), onde acompanhava o processo de produção do rayon, da colheita da cana até a manipulação química e o processo das máquinas para que se desse pronta a seda artificial. Aqui em Deserto Vermelho, o cenário industrial não é mais necessariamente visto com espanto e glória. Guardadas as devidas proporções, há até o distanciamento e dominação do elemento tecnológico cercado pelo trabalho que vemos em Meu Tio (1958), mas sem a comicidade ou a pontada de esperança. O domínio é praticamente o mesmo. Mas a lista de significados que o diretor nos apresenta e as coisas que nos faz prestar atenção são diferentes.

Manipulando imensamente a paisagem para atingir as “cores certas” (a única sequência não manipulada, que no restante do filme contou até com grama e árvores pintadas a mão para parecerem mais vivas ou escurecidas, é a da história da garota em sua praia deserta), o diretor optou por direcionar suas lentas para outra camada da existência nesse espaço geográfico. A camada onde os louros de uma vida cheia dos benesses da indústria apodrecem em meio à venenosa fumaça amarela, à banalidade do mal, à manipulação dos empregados, à diminuição do valor das pessoas como pessoas e a substituição do contato mais íntimo por qualquer coisa que possa dar um prazer imediato, onde se espera que outro tipo de prazer momentâneo o substitua imediatamente. Sob o olhar de Giuliana (e Monica Vitti está gloriosa em seu papel, exalando beleza e transmitindo com exatidão a sensação de uma mulher em pleno tormento, totalmente perdida), isso é sempre trágico. Já sob o olhar de Ugo, isso é apenas um dos muitos compromissos esperados da vida, como brincar com o filho, atender a um telefonema, tomar um café com amigos ou viajar a trabalho.

O espectador nota que a cada persona que ganha destaque (até o filho, com a paralisia momentânea, cuja dubiedade de ser emocional, para chamar a atenção da mãe ou de outra natureza, permanece no ar), a visão de mundo também se altera, ao menos na dose do que fazer, o que sentir e como escapar por alguns momentos desse cenário cheio de sons industriais, trilha sonora eletrônica e fotografia profundamente sentimental, assinada pelo grande Carlo Di Palma que guia, junto de Antonioni, alguns planos e sequências de tirar o fôlego. Quanto mais passa o tempo, mais inconformada, ansiosa e desesperada se torna a protagonista, culminando com a sua fuga noturna, contendo uma angustiante cena de sexo e um momento final de busca de alternativas que nos faz olhar para ela como uma prisioneira no mundo, prisão que também engloba todos ao seu redor, mas nem todos possuem o nível de sensibilidade (ou pessimismo? Ou loucura?) em relação ao mundo para vê-lo sob tamanha e constante dor.

O final é o ponto máximo da resignação, mantendo os mesmos grilhões de antes, mas incorporando a incapacidade de se fazer algo a respeito, ao menos no exterior do corpo. Assim como os pássaros que evitam a fumaça amarela e venenosa para não morrer, Giuliana tenta escapar de seus tormentos não falando, não pensando ou minimizando-os. Essa ideia já tinha sido dada em um de seus diálogos com Corrado e aparece como solução para se evitar o sofrimento, no final. Como se no deserto vermelho, a única alternativa à morte imediata fosse ignorar a robotização, a sujeira, o gosto estranho das coisas e o martírio de se viver em um mundo que apodrece a olhos vistos, apesar das pequenas ilhas com cores contrastantes e momentos particulares de beleza. Até que tudo isso, algum dia cumpra o ciclo e, como a emergência do navio que coloca a todos em desespero, traga a morte, a saída definitiva.

Deserto Rosso – O Dilema de Uma Vida (Il deserto rosso) — Itália, França, 1964
Direção: Michelangelo Antonioni
Roteiro: Michelangelo Antonioni, Tonino Guerra
Elenco: Monica Vitti, Richard Harris, Carlo Chionetti, Xenia Valderi, Rita Renoir, Lili Rheims, Aldo Grotti, Valerio Bartoleschi, Emanuela Pala Carboni, Bruno Borghi
Duração: 117 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.