Crítica | Desobediência

O sucesso de Azul é a Cor Mais Quente em 2013 abriu caminho para uma nova e prolífica safra de filmes sobre a homossexualidade. O filme de Abdellatif Kechiche criou polêmica tanto por sua cena de sexo explícito como pelo suposto abuso dos corpos das atrizes por parte do diretor durante ela. Desobediência, novo filme do recém ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por Uma Mulher Fantástica – o diretor chileno Sebastián Lelio –, parece a antítese perfeita do filme de Kekiche dentro da mesma temática. O cineasta sul-americano segue tratando da diversidade sexual e da homofobia e a expectativa criada em torno de seu mais recente trabalho foi grande tanto pelo sucesso do oscarizado filme de 2017 como pelo fato de que o tema está mais em voga do que nunca na sétima arte. Desobediência trabalha sobre um nervo exposto. Trafega em um território perigoso, onde o limite entre o que dá terrivelmente errado e o que obtém êxito é muito tênue. Evitando erros maiores, Lelio parece ter mesmo optado por puxar o freio de mão durante toda a projeção. É seu filme mais comedido. Excessivamente.

Se, em Azul é A Cor Mais Quente, o casal de protagonistas vive um amor juvenil, movimentado, cheio de paixão, de cores vibrantes e de cortes ágeis, em Desobediência, todos esses elementos surgem ao avesso. O amor de Ronit (Rachel Weisz) e Esti (Rachel McAdams) é vivido na maturidade, expresso por uma cinematografia contida, com cores esmaecidas e invernais. A direção do chileno se encarrega de narrá-lo com uma câmera que se move lentamente pelos cenários, demorando-se nos rituais judaicos típicos da comunidade onde as personagens se criaram. É acertada a decisão de transmitir a ortodoxia daquela comunidade, tão regrada e imobilista, por meio de uma linguagem cinematográfica que insira o espectador naquele ambiente tão hermético. Também é interessante que a introdução do longa-metragem contenha o discurso do rabino Rav Krushka (Anton Lesser), o pai de Ronit, sobre a natureza ímpar do homem – obra de um criador que sabia estar esculpindo do barro a única criatura capaz de lhe desobedecer.

O discurso é retomado ao final da obra pelo marido de Esti e rabino indicado para o lugar de Krushka, exaltando que as últimas palavras de seu mestre trataram justamente da natureza livre do homem dada por Deus. O filme alcança bons momentos de inflexão, sem dúvidas. Mas há muitos pontos que incomodam em Desobediência. As duas protagonistas, mesmo vividas por grandes atrizes, parecem ter se revestido de uma carapaça impenetrável até pelo próprio público. O roteiro e a direção de Sebastián Lelio acertam no tom geral do longa-metragem, mas pecam no desenvolvimento das duas mulheres, que em nenhum momento conseguem viver seu amor com um mínimo de paixão. O cineasta economiza demais nas tintas e parece esconder os dramas maiores e mais dolorosos de suas personagens. O filme evoca a liberdade, mas ela não se faz realmente sentir. O espectador anseia por um grito de libertação, mas termina com ele ainda preso na garganta. A boa química das atrizes não é aproveitada a contento. Não por suas atuações, mas pelo fato de que suas personagens parecem irremediavelmente embotadas.

Contribuem para isso algumas decisões questionáveis. A famosa cena de sexo não contem nudez. Em seu lugar, ocorre uma peculiar troca de fluidos que transgride a assepsia de uma sociedade onde até o sexo tem dia e hora para acontecer. A ideia é realmente fabulosa e surpreendente. Outro acerto é o pedido da própria atriz Rachel Weisz durante o processo de montagem para que a cena fosse encurtada e focasse apenas no orgasmo de Esti. O coração do filme, como a cena foi chamada pelo próprio diretor, ocorre de modo perfeito. O problema é para onde ela flui logo depois. O close no rosto de Esti, cujos esgares rebentam em orgasmo, surge como a tão aguardada alforria da personagem. A aproximação da câmera não deixa dúvidas – ali o dique havia rompido de vez. Mas o pedido da personagem de Rachel McAdams ao seu marido Dovid (Alessandro Nivola) logo na sequência – “Conceda-me a minha liberdade” – nega completamente a força dessa imagem. Isso eu considero um erro imperdoável, que uma grande direção de cinema não poderia cometer. O pedido até poderia vir antes, como uma construção até a decisiva ruptura, mas jamais depois. Vejo a ordem dos fatores como algo determinante aqui.

Outro ponto problemático, construído pela direção, é o excesso de planos fechados em Dovid, demonstrando seu sofrido processo de abnegação. Ele acaba tomando o protagonismo das mulheres no terço final de um filme que prometera desde o começo ser um conto sobre o amor entre elas. É bastante estranho que ambas cheguem a ser tratadas de modo até frio e distante, enquanto o centro narrativo do longa-metragem vai se deslocando pouco a pouco para o marido (aqui é o roteiro que toma rumos duvidosos). A decisão pode ter agradado alguns, mas frustrou bastante as minhas expectativas de ver um filme essencialmente sobre duas mulheres e sua tentativa de viver um amor proibido. Também não me agrada que, à exceção da famigerada cena de sexo, o filme tenha seus dois momentos mais sobressalentes protagonizados por homens (os discursos do pai de Rosti e de Dovid). Todas as demais cenas que envolvem o relacionamento clandestino entre Rosti e Esti me parecem lamentavelmente convencionais.

Desobediência tenta claramente fugir das armadilhas mais óbvias do gênero. Por outro lado, ao não escancarar nenhuma pregação ideológica, acaba não oferecendo também tudo o que poderia às suas protagonistas. Um bom filme sobre o tema, mas que não consegue revitalizá-lo como poderia ter feito. O nome de Sebastián Lelio tem se tornado uma grife dentro da temática do feminino no cinema. Mas isso não é o bastante para fazer deste mais um grande filme.

Desobediência (Disobedience) – EUA, 2017
Direção: Sebastián Lelio
Roteiro: Naomi Alderman, Rebecca Lenkiewicz, Sebastián Lelio
Elenco: Alessandro Nivola, Alexis Zegerman, Allan Corduner, Anton Lesser, Benjamin Tuttlebee, Bernice Stegers, Cara Horgan, David Fleeshman, David Olawale Ayinde, Dominic Applewhite, Liza Sadovy, Mark Stobbart, Nicholas Woodeson, Omri Rose, Orlando Brooke, Rachel McAdams, Rachel Weisz, Sophia Brown, Steve Furst, Trevor Allan Davies
Duração: 114 min.

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.