Crítica | Despertar dos Mortos

DESPERTAR DOS MORTOS

estrelas 4

(…) relação entre selvageria e disciplina, pois os transeuntes se comportam como se tivessem adaptados a automatização”.

Trecho do conto O Homem na Multidão, de Edgar Allan Poe.

Depois do sucesso de A Noite dos Mortos Vivos, o cineasta George A. Romero levou uma década para entregar, em 1978, uma espécie de continuação do seu sucesso anterior. Os zumbis, que continuam organizados como numa matilha, agora cerceiam os refugiados em um grande centro urbano, longe das imagens idílicas pastorais da saga antecessora. A multidão continua querendo crescer, adora a sensação de densidade, tem como um dos ideais a igualdade e precisa de uma direção, neste caso, um shopping center, refúgio dos personagens principais e local que demarca o hábito de consumo que dominava esses zumbis no período em que eram vivos.

Em Despertar dos Mortos, os Estados Unidos estão em polvorosa com uma epidemia que transforma as pessoas em zumbis comedores de carne humana. Basta uma mordida para se tornar, num curto intervalo de tempo, uma dessas criaturas. Como em A Noite dos Mortos Vivos, as causas são desconhecidas, e o governo, interessado em manter a ordem, recruta uma equipe para cuidar do caso. Nesse processo, além de termos acesso a esse eixo narrativo, somos apresentados ao grupo formado pela jornalista Fran (Gaylen Ross) e o seu namorado Stephen (David Emge): refugiados em um shopping center, o casal e alguns dos militares recrutados precisam lutar para sobreviver.

Com este filme, o diretor George A. Romero mostra novamente o domínio sobre o assunto e a capacidade de construção de uma narrativa angustiante e sem o desejado final feliz típico do cinema hollywoodiano. A maquiagem ficou por conta de Tom Savini, profissional que fez longa carreira na seara do terror, tendo ainda atuado na saga Sexta-Feira 13 e participado de numerosas produções ao longo dos anos 1980. O horror, agora filmado colorido, está mais explicito que o episódio anterior, ligado ao universo do consumo típico da cultura do shopping center.

Por falar em consumo, eis que estamos diante da crítica central do filme. Não há contra-análise que dê conta de abafar os ecos desse filme na cultura do final dos anos 1970. O cerceamento no shopping, um “não-lugar”, é a premissa básica para compreendermos o processo de zumbificação do ser humano diante das estratégias da cultura consumista que cresceu vertiginosamente no século XX e chegou a um estado absurdo na contemporaneidade.

Desprovidos de qualquer vestígio de humanidade, os zumbis retém o impulso consumista como a última lembrança das suas respectivas vidas. O fetiche da mercadoria, termo cunhado por Karl Marx, perde o seu sentido neste filme, haja vista que os produtos exibidos nas prateleiras das lojas perderam o seu valor simbólico, bem como o poder de atração, tornando-se apenas simples objetos. Os refugiados olham para as mercadorias sem a mesma intensidade da vida “normal” no cotidiano, e os zumbis (metáfora dos seres humanos atraídos pela ótica da cultura do consumo) representam bem o processo de massificação e nivelamento promovido pelo sistema capitalista.

Despertar dos Mortos ganhou uma refilmagem nos anos 2000, tão boa quanto essa primeira versão. O local de cerceamento continuou sendo um shopping center, tendo apenas algumas modificações, como por exemplo, zumbis turbinados e mais velozes, no provável intuito de atualizar o mito e manter-se em paralelo com as tendências audiovisuais contemporâneas. Madrugada dos Mortos (título da refilmagem) não aprofundou na crítica social ao consumo, mas manteve-se atento ao processo de formação de uma multidão coesa por parte dos zumbis da parte externa, apresentando os conflitos básicos entre os seres humanos na parte interna.

Despertar dos Mortos (Dawn of the Dead, Estados Unidos / Itália – 1978).
Direção: George A. Romero
Roteiro: John A Russel
Elenco: Gaylen Ross, David Emge, Scott Reiniger, Ken Foree, David Crawford, Richard France
Duração: 146 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.