Crítica | Desventuras em Série – 1ª Temporada

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estrelas 4

Notas individuais dos blocos de episódios

Livro 1:  

Mau Começo

1X01/02: The Bad Beginning

estrelas 4

Livro 2:

A Sala dos Répteis

1X03/04: The Reptile Room

estrelas 4,5

Livro 3:

Janela Larga

1X05/06: The Wide Window

estrelas 3,5

Livro 4:

Lugar Tenebroso

1X07/08: The Miserable Mill

estrelas 3,5

A tarefa de adaptar a série de livros Desventuras em Série, de Lemony Snicket (pseudônimo de Daniel Handler), definitivamente não é fácil. Para construir a profunda ironia e humor-negro de sua obra, o autor constantemente dialoga conosco, nos aconselhando para não ler o livro, visto que só coisas trágicas ocorrem nele, algo que, na maior parte das vezes, não se traduz bem para as telonas ou telinhas. A adaptação cinematográfica de 2004 tentou transpor tais trechos do livro através de uma narração em off, utilizando o autor, Lemony Snicket, como um personagem de fato, mas tudo o que conseguiu foi dilatar a narrativa, isso sem falar na mudança do Conde Olaf, que fora interpretado de forma totalmente diferente por Jim Carrey. Eis que entra a Netflix, nos trazendo a esperança de uma adaptação que fizesse jus à série literária, através de uma de suas produções originais, com o próprio autor dos livros atuando como roteirista.

Evidente que a presença de Daniel Handler como um dos responsáveis pelo projeto pode ser, ao mesmo tempo, ótimo ou terrivelmente péssimo. O autor conta com uma experiência bastante limitada no audiovisual, tendo trabalhado como roteirista dos longa-metragens RickKill the Poor, o que não constitui exatamente uma carreira invejável. Mas, já tivemos alguns bons exemplos de como o escritor da obra base pode trazer boas contribuições para sua adaptação, como é o caso de Entrevista com o Vampiro e a série Game of Thrones. Já adianto, felizmente, que Handler mais que cumpriu seu papel, nos proporcionando algo que se sustenta por conta própria, independente da leitura dos romances originais.

A primeira temporada é composta de oito episódios, que adaptam os quatro primeiros livros de Desventuras em Série. Neles, acompanhamos os irmãos Baudelaire, Violet (Malina Weissman), Klaus (Louis Hynes) e a bebê, Sunny, que se tornaram órfãos após um misterioso incêndio causar a morte de seus pais e a destruição da casa na qual moravam. Após esse trágico evento, eles são colocados aos cuidados de Conde Olaf (Neil Patrick Harris) pelo executor do testamento da família, Sr. Poe ( K. Todd Freeman). Pouco sabiam os irmãos, contudo, que suas desventuras estariam apenas começando, visto que Olaf deseja, acima de tudo, por usufruir da fortuna deixada pelos pais das crianças, tentando, a todo custo, conseguir tirá-la das mãos dos legítimos herdeiros da família.

O primeiro elemento que nos chama a atenção no seriado é a sua estrutura narrativa. Cada dupla de episódios funciona como uma história autocontida, que, é claro, deixa o gancho para a continuação da história, mas que podem ser aproveitados como filmes. Essa escolha do roteiro acaba pedindo de nós, espectadores, que assistamos a série de maneira mais calma, não correndo para ver tudo de uma vez, como muitos estamos acostumados em relação às produções da Netflix. Experimentar essa temporada em uma tacada só pode levar a uma sensação de repetitividade, considerando que a trama de cada dupla se resume a Olaf assumindo uma diferente personalidade para tentar roubar o dinheiro dos Baudelaire.

Isso, todavia, não quer dizer que veremos sempre as mesmas coisas a cada capítulo. Cada trecho de Desventuras em Série nos apresenta uma ambientação completamente diferente, além de personagens coadjuvantes diferentes, que vão desde  o herpetólogo Montgomery Montgomery (Aasif Mandvi) até a Dra. Orwell (Catherine O’Hara), uma das muitas menções ao romance 1984 presentes tanto no seriado quanto nas obras originais. De fato, a saga desses irmãos avança nos trazendo algumas dicas acerca do mistério que gira em torno de seus pais, além de nos levar para diferentes locais que exploram aspectos únicos  desse melancólico universo construído por Snicket.

Aqui entramos em um dos maiores méritos da obra, sua direção de arte, que constrói perfeitamente essa atmosfera sombria essencial para o humor negro presente na narrativa. Podemos observar uma evidente influência do Expressionismo Alemão, especialmente no terceiro bloco de episódios, com a casa inclinada de tia Josephine (Alfre Woodard), constituindo algo semelhante ao que vimos na adaptação cinematográfica, mas que soa mais crível, ainda que a série tenha um pé firmado na fantasia. É justamente esse teor fantasioso que permite a construção dos eventos absurdos que presenciamos em tela, absurdo esse, que se transforma no permanente tom de ironia que permeia toda a produção.

Esse é o fator que garante a identidade da obra, transformando o depressivo em humor, que nos causa risadas quando menos esperamos. A presença física do narrador, Lemony Snicket (Patrick Warburton) garante um sorriso em nossos rostos do início ao fim, com suas constantes interrupções que perfeitamente transpõem esse aspecto dos livros para a telinha. A encarnação de Snicket por Warburton nos remete quase que automaticamente a Don Draper de Mad Men, ele está constantemente série e jamais esboça um sorriso, suas falas são tão exageradamente depressivas que não há como conter o riso, especialmente quando suas roupas mudam de acordo com o ambiente no qual ele está. É um personagem invisível para os outros ao seu redor, mas sentimos como se ele cumprisse um papel ativo dentro da narrativa, nos aproximando daquilo que vemos em tela.

Evidente que o mérito dessa aproximação também cai nos ombros de Malina Weissman, Louis Hynes e a bebê, cada um demonstrando uma personalidade bem definida que conseguimos captar desde os primeiros episódios. De início sentimos como se a atuação deles estivesse um tanto quanto travada, mas logo os atores se acostumam com seus personagens e, nesse processo, passamos a simpatizar com eles e prever a forma como cada um vai agir dentro de determinada situação. Violet é a inventora, capaz de criar criativas soluções para seus problemas, Klaus, por sua vez, é um bookworm e conta com um conhecimento sobre praticamente tudo e aquilo que não sabe, ele procura aprender com os livros a seu redor. Sunny, por sua vez gosta de morder as coisas e fala em uma língua de bebê que somente seus irmãos entendem. É interessante observar como, na maior parte do tempo, eles funcionam como um protagonista único, dividido em três corpos e o roteiro faz o ótimo trabalho de sedimentar a importância de cada um deles a cada capítulo, de forma que nenhum soa deixado de lado.

O maior atrativo de Desventuras em Série, porém, certamente é ninguém menos que Neil Patrick Harris, no papel do cruel Conde Olaf. Harris encarna um homem ranzinza, convencido, psicopata, uma mistura de Dick Vigarista com vilão de James Bond, que surpreendentemente se demonstra mais inteligente que todos os outros adultos da série. Seus disfarces descarados são um dos pontos altos da ironia presente na obra, visto que são extremamente óbvios e somente os irmãos conseguem enxergar. Assistir suas vilanias é como ver os clássicos desenhos da Hannah Barbera ou Looney Tunes e a atuação de Harris só faz isso se tornar melhor. Empregando diferentes vozes ao longo dos episódios não há como conter as risadas quando ele se transforma em um pesquisador italiano ou em um capitão do mar (ou grande lago) e o sarcasmo chega às alturas quando ele próprio esquece que não está caracterizado de Conde Olaf. O mérito também, é claro, vai para o roteiro que coloca muito de sua metalinguagem nas falas do vilão, algumas mais disfarçadas e outras estampadas em nossa cara.

Infelizmente, mesmo com os esforços de todo o elenco principal, o seriado acaba cometendo alguns deslizes ao longo do percurso. O mais gritante deles é a nítida lentidão no último bloco de episódios, que facilmente poderia ter sido reduzido a um só, ainda que uma das maiores brincadeiras da série com o espectador aconteça aqui. Outro ponto que funciona contra a fluidez da narrativa é a atuação de Alfre Woodard, no papel de Josephine, que soa exagerada demais (e olha que estamos falando de uma comédia pautada no absurdo e na ironia), criando um sentimento de apatia no espectador. Esses constantes tropeços criam uma percepção bastante negativa em alguns momentos, prejudicando consideravelmente nossa percepção geral da obra. Felizmente, o restante do elenco consegue nos fisgar novamente.

Outro ponto a ser louvado é a ágil montagem da série, que garante muitas das piadas presentes em seus oito capítulos. Isso sem falar, que um bom trabalho de montagem é essencial para o funcionamento do narrador em tela, para que a quebra de expectativa seja inserida no momento certo. Dito isso, vemos no segundo bloco de episódios (The Reptile Room) o ponto alto da temporada, no qual todos os elementos atuam de forma tão orgânica que nos fazem esquecer da fácil e forçada resolução apresentada na parte 2 de The Bad Beginning, isso sem falar, é claro, na hilária personificação de Olaf como Stephano, que possibilita Neil Patrick Harris soltar toda sua voz para fingir um sotaque italiano.

A Netflix, portanto, conseguiu de forma louvável adaptar a série de livros de Lemony Snicket, transpondo para a telinha todo o humor negro, a ironia, a fantasia e o absurdo de Desventuras em Série, em uma obra que pode ser aproveitada tanto por adultos quanto por crianças. Não ouçam as recomendações do narrador e mergulhem nessa série, preferencialmente assistindo dois episódios por vez, para um maior aproveitamento. Não estamos falando de um seriado perfeito, mas que com certeza traz uma comédia com identidade própria, do tipo que dificilmente encontraremos por aí. Definitivamente, o canal de streaming acertou novamente.

Desventuras em Série – 1ª Temporada (A Series of Unfortunate Events) — EUA, 2017
Direção:
 Barry Sonnenfeld, Mark Palansky, Bo Welch
Roteiro: Daniel Handler, Emily Fox, Joe Tracz, Tatiana Suarez-Pico
Elenco: Neil Patrick Harris, Malina Weissman, Louis Hynes, K. Todd Freeman, Will Arnett, Usman Ally, Jacqueline Robbins, Joyce Robbins, Tara Strong, Matty Cardarople, John DeSantis, Alfre Woodard, Don Johnson,  Joan Cusack, Aasif Mandvi, Catherine O’Hara, Patrick Warburton
Duração: 8 episódios de aprox. 50 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.