Crítica | Detective Comics #33 a 40 (1939 – 1940)

Para complementar a lista de quadrinhos históricos no Plano Crítico, resolvi trazer comentários breves sobre algumas edições da Detective Comics, sequências da reviews anteriores escritas para o Especial: Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge.

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Batman contra o Dirigível da Morte

The Batman Wars Against the Dirigible of Doom

Nov, 1939

As duas primeiras páginas da Detective Comics #33 contam a origem do Homem Morcego, com o assassinato de Thomas e Martha Wayne, a promessa de vingança feita pelo jovem Bruce, sua formação e preparo físico – aqui, vemo-nos tornar-se um “brilhante cientista” e um exímio atleta.

O roteiro, escrito pelo ausente Bill Finger em parceria com Gardner Fox é um dos mais fracos dessa temporada. Os acontecimentos chamam a atenção do leitor pela arte, não pela história, que deixa de lado a atmosfera um pouco mais sombria e ameaçadora dos contos anteriores e aposta em uma aventura de guerra, claramente influenciada pelas batalhas aéreas que então ocorriam na Europa, fustigada pelos primeiros meses da ofensiva nazista.

A história tem sua abertura em Manhattan, quando o dirigível da Hora Escarlate do professor Carl Kruger, que sofre de “Complexo de Napoleão”, aterroriza a cidade com seus raios vermelhos compostos de gás ozônio e raios gama. Basicamente temos a corrida do Batman para impedir que a Hora de Kruger mate pessoas inocentes e domine o mundo – uma forte referência ao embate entre Eixo e Aliados.

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Batman contra o Duque de Orterre

Peril in Paris

Dez, 1939

Algo muito interessante acontece nessa edição. Dois meses depois da história no estilo Drácula que Batman viveu na Hungria (AC #31 e #32), voltamos no tempo e partimos do ponto em que Bruce Wayne põe sua noive Julie em um navio de volta para a América e vive uma perigosa aventura em Paris.

Trata-se, na verdade, de outra história fraca de Gardner Fox, com apenas a arte de Bob Kane e Sheldon Moldoff (que agora também co-assina a arte-final) sobressaindo-se com folga. Na trama, Batman conhece os irmãos Charles (o Homem sem Rosto) e Kael Maire, ameaçados pelo demoníaco duque de Orterre, que apagou todos os traços do rosto de Charles – isso mesmo, você leu direito! – e pretende desposar a bela Kael.

Toda a reta final da história e a sua conclusão são bastante ruins, incorrendo em erros constrangedores de verossimilhança dentro do próprio universo do herói. Definitivamente, considero essa uma das piores histórias da primeira fase do Batman.

Batman e o Ídolo de Rubi

The Case of the Ruby Idol 

Jan, 1940

A primeira coisa que podemos dizer sobre essa edição é que a capa é completamente falsa. Quando a vi pela primeira vez, achei que se tratava de alguma coisa sobre o Dr. Morte ou mesmo algum parente distante do Duque Orterre. Mas não há nessa aventura nenhuma situação sequer parecida com a representada na capa, algo que podemos chamar de “mais uma descarada propaganda enganosa, apenas para vender a revista!”.

O caso aqui é simples, e marca a volta de Bill Finger, sozinho, aos roteiros da AC: um certo Sheldon Lenox tem posse de uma estátua grande de rubi, uma representação de Kali, a deusa hindu da morte e da sexualidade (mas a aventura não explora o lado sexual da deusa). Esse Sheldon Lenox vende a raríssima estátua para um colecionador, que passa a receber cartas ameaçadoras. Lá para o final da história aparece um chinês chamado Sin Fang, um receptador de coisas roubadas em Chinatown, palco principal da história. No final das contas, o verdadeiro criminoso é Sheldon Lenox, que forja sua morte e se disfarça de chinês, contrata mercenários hindus e lutadores mongóis (veja só que samba étnico!) e acaba tendo de lidar com o Batman, no final.

Não é o melhor conto de Bill Finger, mas não é um conto ruim, principalmente pela quantidade de ação e das armadilhas que o Batman encontra pelo caminho, na tentativa de capturar a mortífera deusa Kali.

Batman Contra Hugo Strange

Professor Hugo Strange

Fev, 1940

Bill Finger nos apresenta aqui uma pérola de sua produção. A primeira aparição de Hugo Strange nas histórias do Batman vem em um roteiro perfeito, com uma linha de ação cadenciada, sem efeitos escabrosos, bat-aviões, pilotos automáticos ou coisas do tipo. A história é acompanhada por uma arte nova, assinada por Bob Kane e seu novo parceiro, Jerry Robinson, que trabalhou muitíssimo bem as fronteiras dos quadros da história e apostou bastante nos primeiros planos nos rostos das personagens e no maior número de pessoas por quadro. Ver o Batman enfrentando todos aqueles bandidos ao mesmo tempo em uma perspectiva mais próxima que nas edições anteriores é um grande presente para o leitor e fã do herói.

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A história é tão maluca quanto o próprio professor Strange: ele sequestra um engenheiro e o força a construir uma máquina. Com ela, submete a cidade a uma espessa neblina, que dificulta e muito a ação da polícia, ou seja, um cenário perfeito para se cometer roubos e fugir com o mínimo de risco de ser pego.

O caminho realizado pelo roteirista e pelos artistas é de uma legítima e interessante história policial, algo a ser aplaudido efusivamente. Não preciso nem dizer que essa é uma das minhas histórias preferidas da primeira fase do Batman na Action Comics.

Batman e o Agente Estrangeiro

The Screaming House

Mar, 1940

Até que demorou bastante para aparecer alguma história do Batman enfrentando sabotadores e maquinações internacionais com o objetivo de jogar os Estados Unidos contra algum país. Esse conto, por exemplo, é recheado de ações ligadas ao tipo de história denominada “intrigas internacionais”.

Arte aqui é menos inspirada do que na edição anterior.

O roteiro de Bill Finger começa fraco – desde quando o Batman resolve pedir informações para moradores de uma casa no meio do nada? Dá vontade de rir, só de pensar nisso – e termina muito bem, com um toque interessante de nacionalismo, mas não daqueles doentios, neuróticos e quase fascistas. Vale também dizer que o Batman sofre bastante nessa história, sendo encurralado e passando por maus bocados, saindo um pouco daquela imagem de “intocável” que tinha no início das suas aventuras. E a violência também continua, com mais uma morte tenebrosa…

The Screaming House é um conto interessante de Bill Finger, e também mais um link dos quadrinhos com casos políticos da época.

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Batman & Robin

Detective Comics #38 a #40

Abr/Jun, 1940

E vejam só quem aparece pela primeira vez na Detective Comics! A criação de Robin (Dick Grayson) foi uma jogada da DC para aplacar os ânimos dos que acusavam a Action Comics de ser muito violenta, e que o Batman estava “passando dos limites” na luta contra o crime. A chegada de um garoto e parceiro do Batman, ao menos em tese, deveria diminuir a violência, e por tabela, trazer novos leitores. A violência, é claro, não diminuiu, mas realmente apareceram novos leitores, e a personagem foi um tremendo sucesso, contribuindo até para que outros grandes heróis da editora passassem a ter seus pupilos no combate às forças contra as quais lutavam.

A revista também marca uma mudança editoral, com a saída de Vincent Sullivan do cargo de Editor-Executivo e a entrada de Whitney Ellsworth. Também temos Jerry Robinson como arte-finalista, deixando Bob Kane sozinho novamente nos desenhos, o que não foi uma grande ideia, diga-se de passagem.

O roteiro de Bill Finger nos apresenta uma boa história detetivesca, desde a origem do Robin, com o assassinato de seus pais, no circo, e o início de seu treinamento e parceria com Batman. O primeiro inimigo que enfrentam junto é o chefe Zucco, mafioso que comanda Gotham e cobra tarifas de todos os trabalhadores da cidade, além de ser o dono de todos os pontos de jogos de azar.

O ritmo de Finger é impressionante. Temos a ótima sensação de uma cadência adequada da narrativa, com a passagem exata do tempo por cada fase da trama, desde a apresentação fatídica até a luta final, no topo do Edifício Canin. E nessa luta, temos o prodigioso Robin dando um tremendo chute em um bandido, que acaba caindo do alto do prédio… Quem imaginou que a violência diminuiria com a chegada de Robin à revista não estava completamente certo.

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Infelizmente, a Detective Comics, e mesmo a revista Batman, lançada no primeiro semestre de 1940, deixaria essa violência de lado e passaria por algumas fases infantilóides. A primeira delas nos anos 1950, com a perseguição do Comics Code e a publicação do maior lixo editorial dito acadêmico já lançado contra os quadrinhos, o livro Sedução dos Inocentes (Seduction of the Innocent), do estapafúrdio Frederic Wertham, que dizia que as crianças iriam imitar a violência dos quadrinhos e que esse tipo de publicação não poderia ser violenta ou sexualizada porque instigaria a delinquência juvenil e outras desvirtudes nas crianças (qualquer semelhança com o aspecto [homo]sexual dos quadrinhos contemporâneos – pelo menos na América, porque na Europa e no Oriente a coisa é bem diferente – não é mera coincidência). A segunda, no final dos anos 1960, com a exigência cômica que a série de TV praticamente obrigou os quadrinhos a seguir.

O surgimento de Robin, na DC #38, marcaria uma nova fase na cronologia dos quadrinhos do Homem Morcego.

Na Edição nº 39, publicada em maio de 1940, a dupla dinâmica enfrentaria outro caso detetivesco, mas dessa vez, nada parecido com a máfia italiana. O caso é sobre o Dragão Verde, uma gangue chinesa de venda de ópio que matava violentamente (com machadinhas na cabeça!) os que se punham em seu caminho. Batman & Robin são ajudados pelo prefeito Wong, de Chinatown, o mesmo prefeito que havia contribuído no caso do Ídolo de Rubi…

Já a Detective Comics #40 trouxe um novo vilão para o Homem Morcego e o Menino Prodígio: o Cara de Barro (Basil Karlo), personagem de poucos atrativos, apenas um gângster que foi um ator de filmes B de terror e que agora estava dominado pela personagem que interpretara anos atrás. Tampouco a arte da revista é boa. A ausência de cores e boa parte dos quadros e a péssima finalização de Jerry Robinson só tendem a repelir o leitor. Como cinéfilo, gostei bastante do conceito de Bill Finger para o roteiro, de fazer o cenário da história nas filmagens de um remake de  terror (O Castelo Pavoroso), uma história tipicamente à margem, mas essa, infelizmente, sem o seu famoso brilho de bom escritor.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.