Crítica | Detona Ralph

estrelas 4

Detona Ralph parece uma ode de amor a uma geração que já está ficando velha, no bom sentido, até porque essa é a minha geração. O filme começa há 30 anos, na época dos saudosos fliperamas e somos apresentados a jogos de muito poucos bits, com aquelas “circunferências quadradas” e altíssimo grau de dificuldade, que nos fazia marretar os controles até a mão sangrar e pedir dinheiro para nossos pais ao ponto de enlouquecê-los (ou empobrecê-los, o que acontecesse primeiro).

Somos apresentados ao jogo Fix-It Felix Jr., que faz quase expressa referência à Donkey Kong, em que Ralph é o vilão grandalhão que destrói um prédio e o jogador controla o Felix do título que, com um martelo mágico herdado de seu pai, pula e sobre o prédio, consertando-o, até que, derrotado, Ralph é jogado lá de cima em uma poça de lama. Em uma sequência de time lapse muito bacana que traz o filme até os dias de hoje, aprendemos que, apesar do advento de jogos mais modernos, Fix-It Felix Jr. sobreviveu incólume, sem atualizações, sendo um anacronismo tecnológico que demonstra o sentimentalismo e nostalgia dos produtores (John Lasseter entre eles, o rei desse tipo de adorável sentimento) e do diretor Rich Moore, estreante em longas metragens.

Mas também aprendemos que, depois que o fliperama é desligado, os personagens dos jogos podem transitar livremente de um para o outro, por meio de uma muito bem sacada “central”, que é o filtro de linha em que todas as máquinas permanecem ligadas. Descobrimos, também, que Ralph (John C. Reilly no original em inglês) está infeliz, pois não tem o reconhecimento de seus pares, por ser um vilão. Ele participa de grupos de ajuda junto com outros vilões clássicos como Bowser (da série Mario Bros.), Doctor Eggman (Sonic), Neff (Altered Beast) e um dos fantasminhas de Pac-Man.

Decidido a mudar esse cenário, Ralph resolve conseguir uma medalha para mostrar que é um herói e acaba de armadura e arma em punho no jogo Hero’s Duty, uma espécie de mistura de Halo com Call of Duty e cujo jogo em primeira pessoa é brilhantemente representado no filme como um “robô usuário” que não pode ser atrapalhado pelos demais peões. Óbvio que dá tudo errado e Ralph, junto com um inseto do jogo, acabam dentro de Sugar Rush, um açucarado jogo de corrida cheio de docinhos, chocolate e avatares fofíssimos. Perseguido por Felix Jr. (Jack McBrayer) e a Sargento Tamora Jean Calhoun, a durona chefe de Hero’s Duty (Jane Lynch), Ralph acaba se envolvendo com a adorável Vanellope von Schweetz (Sarah Silverman), uma corredora que também é um bug no jogo de corridas no mundo das doçuras.

A profusão de homenagens e citações ao longo da fita é impressionante. Nada fica de fora. Desde as presenças mais óbvias como os citados vilões, passando por personagens “desempregados” de jogos desativados como Q*Bert e Coily, até citações e gags visuais com o próprio Mario e Sonic, nada é esquecido pelos roteiristas Phil Jonhston e Jennifer Lee.

É quase informação demais. E enfatizo aqui o “quase”, pois Jonhston e Lee, apesar de se esforçarem para citar o máximo dentro dos 108 minutos do filme, também trabalharam na fluidez da narrativa e o resultado acaba não sendo forçado. É bem verdade, porém, que o segundo ato do filme, quando todos os personagens e toda a trama já foram apresentados, poderia ter sido podado, com talvez menos interação entre Ralph e Vanellope ou, no mínimo, interações mais rápidas. Mas não é nada que estrague o prazer que Detona Ralph proporciona.

Mas eu disse que a fita, por seu tom saudosista, seria mais focada nas “crianças” de 40 anos, aquelas que efetivamente viram a evolução dos jogos desde as preciosidades de 8 bits até os profundamente complicados, ainda que belíssimos, jogos atuais, que quase exigem PhD em engenharia para serem detonados (eu sei, é a mente lenta de um cara de 40 anos, que ainda sente dificuldades jogando o primeiro Pitfall falando…). Acontece que a narrativa criada pela dupla de roteiristas consegue ser certeira o suficiente para funcionar em dois níveis: o dos saudosistas e o das crianças pequenas. Afinal de contas, a trama poderia muito bem ser resumida a “vilão de videogame quer ser herói”.

E, com essas duas formas de ver o filme, Detona Ralph consegue ser um triunfo em computação gráfica da Disney, algo raro para a Casa do Camundongo se excluirmos, claro, a produção da Pixar. Rich Moore, apesar de capitanear seu primeiro longa e de derrapar na montagem do segundo terço, como já mencionado, tem um bom material para trabalhar e não faz invencionices. A atmosfera e paleta de cores de cada jogo é aquilo que esperamos de algo semelhante e, jogando do lado seguro, ele consegue apresentar um resultado final muito competente.

Para aqueles que ainda apreciam animação tradicional, cheguem um pouco mais cedo ao cinema para verem Paperman (dirigido por John Kahrs), um delicioso curta metragem em preto-e-branco sobre um homem, uma mulher e aviões de papel em um Nova Iorque da década de 40. Belo, sem diálogos e simples. Exatamente como toda animação deveria ser.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.