Crítica | Deuses Americanos #1

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estrelas 3

Uma das obras literárias mais importantes e reconhecidas de Neil Gaiman, Deuses Americanos, publicada originalmente em 2001, finalmente ganha o tratamento em quadrinhos – outra mídia que Gaiman domina, vide o aclamado Sandman – pela Dark Horse Comics. A publicação mensal é uma adaptação direta e pelo menos no que diz respeito à primeira edição, muito fiel ao livro, com um roteiro adaptado por P. Craig Russell e arte de Scott Hampton.

Conforme informado pela editora, o projeto consistirá em 27 edições divididas em três arcos, começando com Shadows, o que permitirá, em princípio, a abordagem de todo o conteúdo da obra literária. Assim, o primeiro número é como se fosse um daqueles aperitivos que deixa o leitor curioso pela forma estranha como acaba, destoando bastante de mais do que dois terços da edição, focada em Shadow Moon e sua saída da prisão depois de três anos encarcerado.

É que a narrativa salta de algo razoavelmente banal e simples – Shadow tem mais três dias de prisão para cumprir, quando a morte de sua esposa em um acidente automobilístico o leva a ser libertado mais cedo -, para um mistério de contornos interessantes quando ele, em um avião, é abordado pelo insistente Mr. Wednesday, que parece conhecê-lo, oferecendo-lhe emprego. Mas não há sinal da pegada de fantasia comum à Gaiman até as páginas finais, quando a história de Shadow é momentaneamente deixada de lado para que, então, algo quase surreal aconteça, mas que não contarei aqui para não estragar eventual surpresa. Basta dizer, porém, que o que ocorre dá o tom da saga do protagonista e Russell foi inteligente ao quebrar a narrativa dessa forma, criando uma espécie de cliffhanger (ênfase no “espécie”, pois não é exatamente um cliffhanger) para uma história que, não fosse isso, não chamaria atenção alguma.

Trata-se de um começo lento, um tanto verborrágico, mas muito fiel ao livro, provavelmente para evitar reclamação da legião de fãs e adoradores de Gaiman, ainda que isso possa ser um problema para a adaptação em si. Russell adianta alguns elementos e atrasa outros, mas nada que realmente altere a progressão da história em comparação com o material original e ao mesmo tempo não contando absolutamente nada mais detalhado para o leitor que eventualmente não conhece o livro de 2001. É quase um teaser do que está por vir que nem arranha a superfície do estranho mundo em que Shadow está prestes a entrar.

A arte principal, de Scott Hampton, tem traços simples, por vezes até parecendo colagens, com poucas expressões faciais, mas com um bom trabalho de criação de personagens claramente diferenciáveis, especialmente Shadow, que, de certa forma, parece ter sido inspirado na imagem de Muhammad Ali, ex-Cassius Clay. Mr. Wednesday, apesar de aparecer bem rapidamente, tem uma boa aura de mistério e ameaça que aguça a curiosidade de qualquer um. No entanto, no geral, os demais elementos componentes das páginas são mortos, sem vida, sem vigor, com um esquema de cores que acompanham essas características. Ainda que tenha sido algo provavelmente proposital, muitas vezes parece que estamos lendo um livro com imagens e não uma HQ que faz uso de todo o potencial da mídia. É torcer para que isso seja apenas no número introdutório, naturalmente mais pesado no falatório para estabelecer a ação.

As únicas exceções a essa pegada fria de Hampton estão nos breves quadros que mostram Laura Moon, muito coloridos que revelam os sentimentos honestos de Shadow por ela e, também, nas páginas finais, intituladas “Em algum lugar na América”, em que o próprio P. Craig Russell se encarrega da arte, com cores de Lovern Kindzierski. São quatro páginas bem diferentes em tom e ritmo, com forte conotação fabulesca que entra de vez no lado mais fantástico da história de Gaiman. O choque funciona bem, como já mencionei, deixando o leitor sedento pelo próximo número.

Mesmo com uma arte ainda em desenvolvimento, Deuses Americanos só promete se Russell for além do perturbador material fonte ou, se decidir ater-se a ele, que fuja das armadilha comuns a adaptações do tipo. Há necessidade de algo mais fluido, sem dúvida, e o primeiro número mostra a que veio somente no final, ainda que ele possa ser saboreado tranquilamente por conhecedores ou não do material fonte.

*Voltaremos à crítica de Deuses Americanos assim que o primeiro arco narrativo acabar.

Deuses Americanos #1 (America Gods #1, EUA – 2017)
Roteiro: P. Craig Russell (baseado em romance de Neil Gaiman)
Arte: Scott Hampton, P. Craig Russell
Cores: Lovern Kindzierski (quatro páginas finais)
Letras: Rick Parker
Editoral original: Dark Horse Comics
Data original de publicação: 15 de março de 2017
Páginas: 30

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.