Crítica | Deuses

estrelas 4

A medicina é uma ciência incrível. Seus feitos, ícones e história atravessaram polêmicas — boa parte delas envolvendo religiões, senso comum e superstições — e chegaram aos nossos dias salvando e prolongando vidas. Mas como em qualquer outra ciência, o experimento, a tentativa e erro, as descobertas e a constante melhoria da tecnologia fizeram os ânimos se enfurecerem com os riscos a que a ela se expôs, colocando profissionais da área contra colegas que “queriam brincar de ser Deus”.

Deuses é um filme polonês sobre o médico cardiologista Zbigniew Religa (1938-2009) que realizou o primeiro transplante de coração bem-sucedido em seu país. Já no início temos uma breve contextualização para o que se tinha feito na Polônia antes de Religa e a partir daí, a voz dos conflitos morais e religiosos se levantam e polemizam a ideia de se transplantar o coração de um humano para outro. A novidade, mal recebida pela população e por parte dos médicos, vinha acompanhada de perguntas sobre as “informações mantidas no coração, para onde não?”, e isso espanta bastante porque estamos falando de meados da década de 1980.

Entre a burocracia do regime socialista polonês e as dificuldades médicas para se realizar o delicado procedimento, o doutor Religa e sua equipe empreenderam uma verdadeira jornada para revolucionarem a medicina na Polônia e, após alguns resultados de sucesso curto ou nenhum sucesso, enfim conseguiram bom resultado.

O roteiro de Krzysztof Rak se apropria de certas chaves textuais dos filmes “feel good” e as remodela em um drama forte, diálogos cômicos e ácidos e uma discussão paralela que logo na primeira parte do filme nos é colocada e que aos poucos e quase clandestinamente é desenvolvida, camada que serve para entendermos melhor as motivações da equipe médica principal e especialmente do doutor Religa que verdadeiramente deixou sua vida de lado para dedicar-se à profissão.

Uma das coisas mais curiosas em Deuses é que os personagens receberam uma forte maquiagem vermelha e nos dá a impressão que estamos vendo inúmeros sistemas circulatórios andando pelos cenários. Marcados pelo sangue e às vezes mergulhados inteiramente em luz vermelha — na verdade, sempre que há decisões de “caráter sanguíneo” para serem tomadas esse mergulho de cor se faz ver –, os atores e atrizes representam indivíduos colocados à beira de um precipício ético-moral. Valores como obediência às regras de uma clínica ou hospital, responsabilidade profissional, compromisso e riscos para que se consiga bons resultados aparecem na frente de cada um, especialmente após a clínica gerida por Religa ser aberta. É nesse momento que o roteiro alcança a maturidade da comédia em meio ao drama, um caminho que seguirá bem pavimentado até o desfecho abruto da obra.

O grande destaque do elenco é o ator Tomasz Kot, que vive brilhantemente o personagem principal, o ‘professor’ Zbigniew Religa. Com sua cara de Daniel Day-Lewis, andar corcunda, cigarro onipresente e olhar cínico, além de ter os melhores diálogos de todo o roteiro, Kot é responsável por dar vida a uma pessoa real e ao mesmo tempo, um personagem caricato, produto de si mesmo. Essa dupla visão amplia a carga dramática do ator e lhe permite viver emoções extremas, entre a entrega total para a sua causa e os rompantes de irresponsabilidade e riscos desnecessários.

Diante da fotografia sintomática de Piotr Sobocinski Jr., o espectador é convidado a responder quase fisicamente ao que vê na tela, a começar pela ótima ideia de representar os atores vermelhos, como sistemas circulatórios ambulantes. A outra parte é a completa imersão dos quadros em cores dominantes dependendo da ação em questão. É como se o diretor de fotografia estivesse nos dizendo que aqui não existe um meio-termo, todas as emoções, boas ou ruins, estão à flor da pele e isso contamina os nossos olhos indo da estranheza ao nojo e à curiosidade. Ao final do filme, estamos exaustos, como os médicos que passaram horas e horas operando um paciente. Mas esse cansaço ótico não é ruim, apenas demonstra que a fotografia conseguiu o seu principal intento, uma ideia excelente para esse tipo de filme, que recebe seu contraponto simpático na trilha sonora, às vezes diminuindo, às vezes aumentando o peso dos eventos na tela.

Ao contar uma história real, o diretor Lukasz Palkowski não perde a mão ao equilibrar os temas e não se perde na aplicação da carga de humor, nem nas explosões dramáticas, fazendo de Deuses um filme bastante coerente com seu tema, com as pessoas que representa e com a ideia que pretende vender para o público. O longa falha apenas na composição estrutural das duas últimas cenas, que são abruptas e com uma escolha da montagem que me deixou por muito tempo pensando que ou foi um erro que passou despercebido ou foi uma opção questionável do editor Jaroslaw Barzan.

Deuses é uma história real que mais parece mentira. Um filme para ver com olhos de quem já recebeu milagres das mãos desses seres divinos de estetoscópio e jaleco branco.

Deuses (Bogowie) — Polônia, 2014
Direção: Lukasz Palkowski
Roteiro: Krzysztof Rak
Elenco: Tomasz Kot, Piotr Glowacki, Szymon Piotr Warszawski, Magdalena Czerwinska, Rafal Zawierucha, Marta Scislowicz, Karolina Piechota, Wojciech Solarz, Arkadiusz Janiczek, Cezary Kosinski
Duração: 120 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.