Crítica | Deutschland 83

estrelas 5,0

Calmamente, como quem não quer nada, Deutschland 83 vai cativando o espectador e, quando ele se dá conta, a minissérie o tomou completamente tamanha é a perfeição das peças que ela vai aos poucos conectando. É mais uma pérola televisiva dessa Era de Ouro da TV que vivemos e que, dessa vez, vem da Alemanha.

Sim, Alemanha. A série foi produzida pela RTL Television em co-produção com a SundanceTV (da AMC) e é falada integralmente em alemão, com atores alemães. Foi a primeira série nessa língua a ter estreia em uma rede de TV americana.

E muito merecidamente, diria. Deutschland 83 poderia ser classificada como um thriller de espionagem durante um dos momentos-chave da Guerra Fria. Mas essa é, apenas, sua embalagem, uma que atrai o espectador como a isca em um anzol. Quando menos se espera, porém, estamos assistindo a uma clássica narrativa de amadurecimento de um jovem dentro de um contexto sócio-político complexo, embalado por músicas oitentistas e atuações de se tirar o chapéu, especialmente a de Jonas Nay, vivendo o soldado da Alemanha Oriental Martin Rauch que é enviado pela Stasi (o serviço secreto de lá) para a Alemanha Ocidental como espião infiltrado, com o nome “emprestado” Moritz Stamm.

Sem invencionices e investindo pesadamente na construção de personagens, os roteiros de Anna Winger, co-criadora da série, entrelaça fatos históricos com ficção, sem que a narrativa fictícia pareça fictícia. Em vários momentos é possível imaginar que as aventuras de Martin/Moritz, tendo que se virar em Bonn como um espião amador ao ser literalmente jogado no “colo do inimigo”, como ajudante do General Wolfgang Edel (Ulrich Noethen), do Bundeswehr (forças armadas alemãs) são verdadeiras, fruto de uma biografia ou algo semelhante. Winger trabalha fortemente a verossimilhança, sem invencionices, sem ações desmedidas e impraticáveis em situações semelhantes. Com isso, o roteiro é muito eficiente em passar suspense e tensão, com diálogos econômicos que não exageram na exposição. Na cabeça de Martin/Moritz as coisas são simples: ele precisa cumprir uma missão para que sua mãe possa entrar na fila preferencial para ganhar um rim. Na cabeça da Stasi, claro, muito mais é esperado de Martin e o garoto entra de cabeça em um turbilhão de intrigas envolvendo a OTAN, os EUA, as duas Alemanhas e, claro, a União Soviética.

É possível que o espectador menos familiarizado com a época em que o filme se passa não perceba a dimensão do contexto da série. 1983 foi o ano em que o exercício militar Able Archer, pela OTAN, aconteceu. Esse exercício foi notável no grau de comprometimento e investimento das nações envolvidas e lidava com movimentação de tropas e de armamentos pela Europa em uma escala então sem precedentes, o que acabou levando o Politburo soviético a realmente achar que se tratava de algo para esconder um ataque nuclear verdadeiro. O episódio foi equivalente à mais conhecida (pois é mais abordada em filmes) crise dos mísseis em Cuba, em 1962, quase levando o mundo à Terceira Guerra Mundial.

Mesmo com esse panorama aterrador no horizonte, os diretores Edward Berger e Samira Radsi (cada um responsável por metade dos episódios) entregaram uma obra intimista, que foca no micro, deixando o macro apenas em segundo plano. Fotografado com realismo, mas não em tom documental, a série funciona perfeitamente como um longo telefilme, com episódios começando exatamente onde o anterior acaba, o que permite fluidez sem o didatismo típico de séries de TV que, primeiro, localizam o espectador espacialmente para, depois, mostrar a ação. O trabalho de Berger e Radsi não se fia nesse artifício clássico, mas, com uma montagem inteligente, com tomadas longas, eles jamais confundem o espectador que sempre tem Martin/Moritz para seguir, com apenas alguns desvios interessantes para a politicagem dentro da Stasi, para a relação entre Alemanha Ocidental e EUA, para as dúvidas de Alex Edel (Ludwig Trepte), filho do general Wolfgang Edel e para a vida que Martin deixou na Alemanha Oriental, com sua mãe doente Ingrid (vivida por Carina Wiese) e sua namorada Annett (Sonja Gerhardt).

São essas histórias paralelas, todas indelevelmente ligadas à narrativa principal, que dão o sabor especial à Deutschland 83. Por intermédio delas, Anna Winger aborda a paranoia belicista soviética e a ineficiência risível do protecionismo e isolamento comunista (o momento mais simbólico talvez seja a sequência em que o computador usado pela Stasi é revelado como antigo e praticamente inútil, com a recusa dos líderes em “importar” um IBM). Do outro lado, a roteirista nos coloca diante da prepotência americana e como seu poderio bélico faz de gato e sapato mesmo seus aliados. Dentro do seio familiar de Martin, a oportunidade é de se abordar a traição – em diversos níveis – e contrastá-la com a lealdade e, sim, a liberdade. Vemos o quanto a Alemanha Oriental sofreu com sua separação do mundo e o quão manipuladora era a máquina de propaganda comunista.

Mas o contraste existe também no lado ocidental e esse aspecto fica bem representado pela abordagem corajosa dada a Alex Edel, soldado e filho de general que se sente desconfortável com tudo aquilo e com ele mesmo. Em um primeiro momento, o vemos com um jovem desajustado, com problemas familiares, mas, aos poucos, a narrativa desabrocha em comentários fortes sobre os protestos pela paz da época (e o quanto eles são ou não manipulados) e, também, sobre a epidemia da AIDS, então em seu começo, ainda mal compreendida.

É impressionante notar, em retrospecto, como oito episódios podem render em mãos hábeis como as dos envolvidos na criação e direção da série. Os assuntos tratados em Deutschland 83 são difíceis e complexos, mas a série não pesa. Ao contrário até: ela tem uma leveza quase surreal, uma simplicidade enganosa que ensina sem fazer discursos e prende sem artificialidades. Wunderbar!

Deutschland 83 (Idem, Alemanha – 2015)
Criação: Anna Winger, Joerg Winger
Direção: Edward Berger, Samira Radsi
Roteiro: Anna Winger
Elenco: Jonas Nay, Maria Schrader, Sonja Gerhardt, Ulrich Noethen, Ludwig Trepte, Sylvester Groth, Alexander Beyer, Lisa Tomaschewsky, Godehard Giese, Uwe Preuss, Anna von Berg, Carina N. Wiese, Niels Bormann, Errol Trotman Harewood, Nikola Kastner
Duração: 42 min. por episódio (oito episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.