Crítica | Devorador de Pecados

Penumbras, arquitetura com alguns elementos góticos, atmosfera medieval em plena contemporaneidade e uma trilha sonora repleta de cantos oriundos de ritos religiosos. Eis o clima estabelecido por Devorador de Pecados, um filme que pode não ser assustador quanto promete em seus primeiros momentos, mas que se esforça para tratar de um tema bastante recorrente na indústria cinematográfica: a presença do mal.

Os representantes das forças infernais querem, tal como tantos outros filmes, dominar o mundo e estabelecer de vez as premonições bíblicas. O foco desse roteiro é a presença de um misterioso devorador de pecados, figura lendária que, segundo dados históricos, assume os pecados de uma pessoa próxima ao seu falecimento ou já morta, tendo em vista, absolver os pecados desta alma e permitir que a pessoa descanse em paz. A prática foi bastante comum até determinado momento do século XIX, principalmente na Inglaterra, Escócia e alguns países do continente americano.

Dirigido por Brian Helgland, Heath Ledger repete a parceria estabelecida com o cineasta em Coração de Cavaleiro, para representar o monge Alex Bernier, integrante da ordem dos carolíngios. O líder desta ordem religiosa morre em circunstâncias muito bizarras, acontecimento que promove a ida de Alex para Roma, tendo em mira investigar o estranho óbito. O cadáver apresenta marcas estranhas que remetem a investigação para as ações de um possível devorador de pecados.

No ritual pagão, alguém literalmente come os pecados da outra pessoa e garante a sua salvação. Atordoado diante de tanto mistério, Alex convida o padre Thomas (Mark Addy) para ajudar na descoberta de pistas que possam levar á resolução do caso. Um dos primeiros passos é ir até Mara Sinclair (Shanny Sossamon), uma artista plástica que no passado, foi submetida a um exorcismo por Alex. O reencontro reacenderá as chamas do maligno que ainda flamejam em torno destes personagens.

Somos informados que o passado de Alex foi perturbador: ele presenciou o suicídio da mãe, mulher que cortou os próprios pulsos, o que lhe fez ser adotado por Dominic (Francesco Carnelutti), o tal monge que morreu misteriosamente. É com base nesta noção de seu passado que uma atmosfera de depressão e inconstância paira no ar constantemente.

Para trazer mais intrigas ao roteiro, temos a presença do cardeal Driscoll (Peter Weller), ambicioso clérigo que tem interesse em suceder o papa e cuja real identidade pode levar a humanidade aos seus últimos suspiros. Juntamente com a sua presença desagradável há a cenografia romana, repleta de ícones muito bem utilizados pelo cinema ao longo de tantos bons filmes de terror, o que não acontece com Devorador de Pecados, filme que têm os seus pecados direcionados no roteiro.

Não adianta o cuidado da direção de fotografia com as sombras, tampouco a higienização com as gotas de sangue modestas que esparramam pelo cenário. Mesmo diante de tanta cautela, o filme peca pela falta de ousadia e pelo roteiro sem carisma. O final flerta com a possibilidade de uma sequência, o que de fato não aconteceu. Se há um elemento significativo na história, acredite, são as crianças malignas que aparecem em cena e causam arrepio sem a colaboração de um efeito visual.

Lançado em 2003, Devorador de Pecados teve uma primeira exibição-teste que fez o filme retornar para a mesa de edição. Segundo relatos, os efeitos especiais causavam risos ao invés de sustos, o que provocou a revisão do trabalho pela equipe técnica. Apedrejado pela crítica, o filme tornou-se esquecível e teve algum desempenho razoável no mercado de DVD/VHS. No bojo dos filmes sobre possessão, exorcismos e celeumas apocalípticas, a trama não acrescenta muita coisa, o que a torna irrelevante nas malhas da nossa densa memória cinéfila.

Devorador de Pecados (The Order) — Alemanha/EUA, 2003.
Direção: Brian Helgeland
Roteiro: Brian Helgeland
Elenco: Heath Ledger, Mark Addy, Shannyn Sossamon, Benno Fürmann, Peter Weller, Francesco Carnelutti, Mattia Sbragia, Mirko Casaburo, Richard Bremmer, Rosalinda Celentano, Alessandra Costanzo
Duração: 104 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.