Crítica | Dez Anos em Busca dos Grandes Tubarões, de Lawrence Wahba

Uma das grandes vantagens das publicações disponibilizadas no Brasil, preocupadas em revelar estudos e curiosidades referentes aos tubarões, apresentam-se como complementares, o que torna os relatos, descrições e teorias uma extensa rede de informações que não se tornam cansativas ou destoantes. Com prefácio de Otto Bismarck Fazzano, PHD em tubarões e professor de Biologia da UNESP, trecho que torna a viagem do leitor um guia autorizado cientificamente, Dez Anos em Busca dos Grandes Tubarões é um livro que flerta com algumas questões científicas, mas está intimamente atrelado ao relato biográfico e ao guia de curiosidades.

Mas, afinal, os tubarões são mesmo monstros assassinos e máquinas de matar? Estamos diante de um estereótipo ou Hollywood realmente tem razão quando investe em filmes sobre os predadores mais temidos dos oceanos? Quem vai responder as questões por meio de relatos de viagens e fotografias é Lawrence Wahba, autor do livro com longa experiência em documentários e imagens cedidas para reportagens veiculadas ao redor do planeta, tendo como algumas das suas principais parcerias a Rede Globo e os canais GNT, Discovery Channel e National Geographic. Formado em Cinema, Wahba é um dos fundadores da produtora Canal Azul, segmento que investe bastante no mercado das filmagens subaquáticas e questões ambientais.

Spielberg, mais uma vez, não é poupado, pois é considerado um dos culpados pelo extermínio de tubarões-brancos depois da estreia do filme Tubarão, em 1975. O engraçado é perceber que Wahba critica o cineasta, mas emula traços de tensão do filme e um pouco do estilo de Peter Benchley para contar algumas passagens de contato com tubarões fascinantes, mas assustadores. E o que dizer sobre o relato do leão-marinho encontrado com um grande ferimento, agonizante, provavelmente atacado por um tubarão? O autor conta que mesmo achando “errado”, ficou feliz com a cena, pois acreditava que era o momento de encontrar um tubarão-branco.

Em um trecho do livro somos informados da sua viagem com Rodney Fox, uma das lendas sobre os tubarões, homem que foi atacado em 1963 enquanto disputava um campeonato de caça submarina na Austrália. A descrição do acidente de Fox é incrível, o que nos faz pensar que Wahba critica, mas no fundo é um grande admirador do estilo Benchley empregado no romance Tubarão. Ele conta que a vítima primeiramente se tornou um detrator, depois se aproximou da espécie para entendê-la melhor, o que lhe permitiu outro tipo de compreensão. Foi por meio da experiência que Fox tornou-se membro da equipe de produção de Morte Branca em Mar Azul, documentário quase tão impactante no imaginário quanto o filme de Spielberg.

Além da experiência com pessoas que viveram experiências inesquecíveis com as diversas espécies de tubarões, Wahba conta de maneira bem humorada, recurso que às vezes até atrapalha a leitura, haja vista a sua inabilidade em ser engraçado, os seus dez anos de contato com tubarões em situações capazes de deixar o leitor sem fôlego só de imaginar. E é aí que o imaginário de Tubarão se faz uma presença bem forte. As imagens não surgem apenas como o perigo de estar ao lado de tubarões, mas também o fascínio exercido pelo animal, um ser de grande porte, destreza e beleza.

Acompanhamos a sua viagem por ilhas do Pacífico que tratam os tubarões como “deuses” de suas culturas. Entre frustrações em viagens que demoraram dias para permitir o encontro rápido com uma espécie de tubarão, mergulhamos com o autor em trechos eficientes, tais como o encontro com os cinzentos-dos-arrecifes numa caverna sinuosa, juntamente com perigosas serpentes marinhas; o registro do raro tubarão de seis guelras, espécie que os cientistas alegam ser a mais primitiva da natureza, dentre outras numerosas aventuras.

Wahba também relata as expedições complicadas por conta de orçamento. Houve momentos de extensa dificuldade, da busca por espécies que infelizmente não foram encontradas, enfim, questões que acometem todo pesquisador, status que por sinal, é indesejado por parte do autor que não se considera um acadêmico. Os problemas acabaram quando a rede GLOBOSAT adquiriu os direitos das suas imagens e encomendou uma série sobre o seu trabalho, situação que lhe permitiu continuar os investimentos numa área tão discutida na contemporaneidade.

No que diz respeito aos elementos editoriais, as fotos internas são parcas, haja vista o modelo de relato, algo bastante imbricado com o visual. O projeto gráfico de Vivian Valli traz as melhores imagens de tubarões na capa, em versões tímidas, numa publicação que poderia ter caprichado na beleza destes animais que causam um misto de curiosidade e medo. A foto da capa também é um pouco sensacionalista, creio, mas como o relato é biográfico, é possível que a imagem diga “muita coisa” para o autor. A diagramação, entretanto, é muito pertinente com o tema, principalmente por conta das fichas sobre cada espécie encontrada, situadas em papel couchê no como anexo.

Ao longo das 158 páginas de Dez Anos em Busca dos Grandes Tubarões, Lawrence Wahba traça algumas considerações sobre as discussões científicas sobre a preservação destes animais e reflete também sobre os ataques ao redor do planeta, inclusive no Brasil, com ponto de vista crítico que deve ser levado em consideração. O autor argumenta que Fernando de Noronha, por exemplo, é o santuário da contradição. Segundo seu relato, como um restaurante local pode servir bolinhos de carne de tubarão? Ele também reforça que a mídia é muito sensacionalista ao retratar os casos de incidentes com tubarões como se fossem trechos de um apavorante filme de terror.

Responsável pelo eficiente Rebelião de Tubarões, documentário lançado em 2006, numa parceria com a produção do Discovery Channel, Wahba seleciona um longo trecho para falar sobre os casos ocorridos em Recife. Ele diz que discorda das afirmações sobre os tubarões confundirem os surfistas com focas porque provavelmente os animais que habitam o litoral nordestino jamais viram uma foca antes. Tal como a alimentação do imaginário de “fera assassina”, erguido pela mídia ao redor do planeta, ele também acusa o jornalismo brasileiro de ser irresponsável na condução das coberturas sobre o assunto, pois o apelo por leitores, espectadores e internautas torna tudo nebuloso para a devida compreensão de uma questão ambiental que envolve o poder público e a sociedade civil.

Dez Anos em Busca dos Grandes Tubarões (Brasil, 2006)
Autor: Lawrence Wahba
Editora no Brasil: Nobel
Páginas: 158

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.