Crítica | Dez Desejos: Episódio 1

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estrelas 5,0

Em seu mais novo projeto, o roteirista Douglas MCT retoma o universo criado na série de livros Necrópolis. Dessa vez o formato é a webcomic intitulada Dez Desejos, disponibilizada gratuitamente no site Outros Quadrinhos. A obra utiliza um modelo similar ao Infinite Comics da Marvel e, principalmente, o Thrillbent, editora criada por Mark Waid em 2012. A premissa é simples, conhecida e funciona muito bem: emular animações através de pequenas diferenças entre cada página, inserindo novos quadros, balões ou dando uma sensação de movimento pelos próprios personagens.

Dez Desejos faz um eficiente uso de tal meio, puxando, também, outros elementos do cinema. A primeira página, inteiramente preta, aos poucos admitindo outros elementos – primeiro um balão de fala, em seguida os créditos iniciais da obra. Exibidos como em um verdadeiro filme, não vemos simplesmente as palavras estampadas em uma página, mas sim uma sequência que permanece, sem atrapalhar a narrativa, por um extenso período de tempo, utilizando o fade in e o fade out para aparecer e sair de quadro.

As marcas do cinema, contudo, não param por aí, se fazendo presentes em um efetivo uso de foco, que marca um dos diálogos presentes nas páginas finais desse primeiro episódio. Sim, episódio e não capítulo, denotando mais uma vez o interesse dos autores em tornar essa webcomic em uma espécie de série de TV, algo mais que natural considerando a nova Era de Ouro que a televisão se encontra, com notáveis obras de sucesso que vão de Doctor Who a Game of Thrones. Infelizmente, tais efeitos acabam se perdendo no modelo do site Outros Quadrinhos, cuja transição entre páginas é lenta, diminuindo consideravelmente o dinamismo da leitura.

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Seria injusto de minha parte, porém, limitar os méritos desses quadrinhos somente a seu formato, principalmente considerando o envolvente início de sua trama. A narrativa é aberta com um homem – que permanece sem nome até o fim do episódio – caindo. A completa escuridão da qual ele faz parte, então, dá lugar ao céu de um lugar desconhecido. Ao fundo avistamos um grande mar pontuado por duas solitárias ilhas. Após sua queda, na água, o sujeito sem nome luta para alcançar a superfície enquanto seu braço começa a se dissolver. Sua sorte vem na forma de uma criatura, similar a uma pequena garota (com espinhos, rabo e orelha), que o salva no momento oportuno. O restante do episódio procede focando na completa confusão do protagonista e a constante dor em seu braço, criando já o que pode se tornar uma relação entre ele e a misteriosa menina.

O ponto alto do episódio se dá justamente nessa interação entre os dois, o que fica mais que evidente com a completa alienação do homem em relação a seu passado e presente. A pequena criatura rapidamente fisga a atenção do leitor não só por claramente estar escondendo algo, como pela forma como é retratada. Por meio da arte de Rafael Françoi, que mistura o ocidental com o oriental (especialmente nos olhos), o caricato com o realista, os personagens ganham uma notável exuberância. O trabalho de sombreamento rapidamente chama a atenção colocando em foco detalhes marcantes enquanto outros são, sabiamente, mais ocultados. Além disso, temos um pontual uso de cor, sem ser os tons de preto e branco, que, definitivamente, se fixa na memória do leitor e que fiz questão de colocar como a imagem ilustrativa desta crítica – imagem que deixa mais que explícito o caráter dúbio da figura feminina do episódio. Em contraste com o alto grau de detalhes em cada personagem temos planos de fundo mais simples, que muito lembram imagens aquareladas. Tal escolha de design se encaixa bem na proposta, não constituindo um excesso de informações em cada quadro e, no fim, contribui para o aumento do dinamismo da narrativa.

Esta primeira parte de Dez Desejos é, portanto, uma daquelas revistas que não só merece como tem que ser lida, ao menos, duas vezes. A primeira para captar em sua totalidade os efeitos da “falsa-animação” que tão bem garantem uma grande dinâmica a este roteiro cinematográfico de Douglas MCT. E uma segunda para observamos em detalhe os traços de Rafael Françoi. Estamos diante de um projeto brasileiro de destaque que não perde em nada para produções estrangeiras. Certamente será de agrado aos leitores de quadrinhos e fãs da fantasia, rapidamente nos transportando para esse mundo misterioso.

Dez Desejos pode ser lido diretamente no site Outros Quadrinhos, através deste link. O segundo episódio será publicado, em partes, nas próximas semanas.

Dez Desejos: Episódio 1
Roteiro: Douglas MCT
Arte: Rafael Françoi
Cores: Rafael Françoi
Publicação original: Outros Quadrinhos
Páginas: 47

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.