Crítica | Diário de Um Exorcista

estrelas 3

A iniciativa dos atuais realizadores brasileiros em trazer para a nossa cinematografia, temas pouco abordados, não é apenas interessante, mas bastante louvável. Durante muito tempo, a nossa produção esteve atrelada às demandas sociais, bem como as comédias que geralmente emulam temas hollywoodianos e adaptam para a realidade local. O Diário de Um Exorcista – Zero, ao lado de Mangue Negro, A Noite do Chupacabras, Condado Macabro, Isolados e O Caseiro, dentre outros, faz parte do panorama de filmes de terror que abordam temáticas bastante exploradas no cinema estrangeiro, só que desta vez, com algumas pitadas “regionais”.

A trama não é muito complexa: Lucas Vidal é um homem que leva a vida dedicando-se ao universo religioso, haja vista o seu passado traumático, tendo a morte dos pais como uma má recordação. Tal como as narrativas clássicas, Vidal será convocado para uma missão que mudará a sua vida: assumir um exorcismo e enfrentar o diabo frente a frente. Ele conta a sua vida para dois cineastas interessados em biografá-lo. Entre os relatos, ele testemunhará os infortúnios da missão e como as coisas sairão do controle, ocasionando sérios problemas na vida de todos que gravitam em torno da situação.

A ideia do filme surgiu durante uma reprise de O Exorcista na TV, quando o cineasta Renato Siqueira teve a sua epifania, ao perceber a ausência de filmes nesta temática na história do cinema brasileiro, descontando, claro, Exorcismo Negro, de Zé do Caixão, um exemplar importante em termos históricos para a nossa indústria, mas pouco expressivo na carreira do “mestre do horror brasileiro”. Sendo assim, as mentes férteis de Renato Siqueira e Luciano Milici desenvolveram o material que rendeu um filme que supera as nossas baixas expectativas, haja vista a inexperiência deste subgênero em nossa indústria, bem como no cinema dito independente.

No que tange aos aspectos técnicos, torna-se evidente a falta da pirotecnia típica de produções com orçamentos exorbitantes, mas o Diário de um Exorcista – Zero consegue fazer muito com o pouco que possui. O filme enfrenta limitações industriais, mas nem isso faz com que a sua qualidade caia, ao contrário, transforma a produção num vigoroso exercício de realização cinematográfica, mesmo que o resultado esteja longe dos padrões que o grande público anseia.

As insinuações sexuais, as blasfêmias e profanações, os olhos negros assustadores e a flexibilidade dos corpos possuídos, somam-se as crendices populares que deixam o filme se identificar com o seu território de produção, sem deixar de utilizar elementos basilares da linguagem do subgênero “filmes de exorcismo”.

Assim como os clássicos do terror, a produção coleciona situações sobrenaturais de bastidores que renderiam outro filme tranquilamente. Dentre as listadas podemos destacar os sons captados durante as filmagens em um cemitério, algo que segundo a produção, soava como lamentos, além de objetos pessoais que sumiam e depois reapareciam em outros lugares.

O Diário de um Exorcista – Zero antecipa uma trilogia que será lançada futuramente em circuito nacional. Diário de um Exorcista – A Gênese do Mal, Diário de um Exorcista – Possuídos e Diário de um Exorcista – Apocalipse. Todo este material literário, oriundo das mentes férteis de Milici e Siqueira vão render muita coisa ainda. Por conta de uma perda familiar ainda cedo, Milici escreveu o seu primeiro conto aos seis anos e hoje coleciona um vasto acervo de obras, ovacionadas em vários “cantos” do Brasil. O Livro que Roubava Meninas, Amor de Sangue, A Página Perdida de Camões são alguns exemplares típicos de um escritor que cultua Edgar Allan Poe, H P Lovecraft, Stephen King, Ray Bradbury, dentre outros.

Ao passo que os seus 90 minutos de narrativa avançam, Diário de um Exorcista – Zero mostra-se bastante seguro dentro da difícil proposta, pois trabalhar com um subgênero tão desgastado não é tarefa fácil. E, por conta deste desgaste industrial, a trama não consegue trazer nada de diferente ao que habitualmente já assistimos antes. Isto, portanto, não deve ser visto como um problema, ao menos que você seja muito exigente em relação ao famigerado desejo por “novidades” que toma conta das plateias contemporâneas.

Diário de Um Exorcista – Brasil /2016
Direção: Renato Siqueira
Roteiro: Renato Siqueira, Luciano Milici
Elenco: Renato Siqueira, Fábio Tomasini,  Fábio Cadôr, Priscilla Avila, Cibelle Martin, Edson Rocha, Lisa Negri, Vininha de Moraes, Olívia Camargo, Paulo Contato, Waldemar Dias, Celso Batista
Duração: 102 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.