Crítica | Diário de um Pároco de Aldeia

Qualquer filme que aborda temas religiosos corre o risco de estar pregando demais ou não saber como passar sua mensagem, mas nas mãos de um diretor habilidoso e com um respeito e interesse genuíno no material, podemos ter uma experiência memorável como em Diário de um Pároco de Aldeia.

Dirigido por Robert Bresson, este é um filme sério que foge de todas as convenções que poderiam transformá-lo em algo superficial, principalmente com uma premissa aberta para incontáveis interpretações. A história segue um jovem padre da pequena vila de Ambricourt. Apesar de ser ridicularizado e desrespeitado pela maioria dos habitantes, nunca deixa de fazer o bem, educar os jovens e ouvir as dores de cada um. Sem poder ingerir carnes ou vegetais, o padre vive de uma dieta que o restringe apenas a pão e vinho e está debilitado por conta da constante dor estomacal. Não sabemos ao certo se este é um sacrifício necessário ou apenas o resultado de uma alimentação irregular.

Bresson tem uma relação curiosa com Deus. Uma definição que muitos usam é a de um “cristão ateu”, outros o definem apenas como agnóstico, mas a única certeza que temos é de todo o respeito que ele transmite com seu filme ao representar as angústias de um personagem atormentado por uma sociedade cheia de más intenções. Esta sociedade que fabrica mentiras sobre o padre é a mesma procurando pelo perdão e cobrando respostas de um Salvador.

Mais uma vez, o diretor decide seguir com o mesmo método de escalação de elenco que acabou virando uma de suas marcas registradas. Utilizando apenas atores desconhecidos ou iniciantes, apelidados de “modelos”, Bresson procura distinguir cada vez mais a linguagem cinematográfica do teatro e através da repetição de várias cenas, faz com que os atores cheguem ao ponto de esquecer que estão atuando, atingindo assim um nível de credibilidade inacreditável. É algo que Chaplin fazia bastante (é só lembrar como ele fez a atriz Edna Purviance comer tantos pratos de feijão que acabou doente durante as filmagens do curta O Imigrante, de 1917), mas nunca seguiu em frente. Já Bresson aperfeiçoa sua técnica neste filme, trazendo uma performance tão real do ator Claude Laydu (intérprete do padre) que fica difícil acreditar que este é seu primeiro papel em um filme.

Não apenas Laydu, mas todo o elenco é comprometido e todo personagem é necessário, cada adição é um complemento narrativo que contribui positivamente para a obra. O que já era um enredo construído com muito cuidado e atenção aos detalhes, se transforma em um estudo envolvente de personagem. Apesar de crua em alguns aspectos, a direção minimalista de Bresson tem um aspecto muito pessoal e naturalista.

O tom melancólico, outra característica que o diretor desenvolve com maestria, constrói a atmosfera realista de seus personagens miseráveis. Para Bresson, “o cinema é um movimento interior”, e ele prova isso com um filme que simboliza como poucos a batalha interna de um personagem e debate um tema tão importante quanto religião sem comprometer sua trama, que poderia ter ido por um caminho muito mais perigoso, mas acaba sendo uma obra sensível e indispensável para qualquer um interessado na filmografia do diretor.

Diário de um Pároco de Aldeia (Journal d’un Curé de Campagne, França, 1951).
Direção: Robert Bresson.
Roteiro: Georges Bernanos (romance), Robert Bresson (roteiro).
Elenco: Claude Laydu, Léon Arvel, Antoine Balpêtré, Jean Danet, Jeanne Étiévant, André Guibert, Bernard Hubrenne, Nicole Maurey, Jean Riveyre.
Duração: 115 minutos.

ROBERTO HONORATO . . . Criado pela TV, minha família era o programa dos Muppets e minha segunda casa era a locadora (era fácil de chegar, só precisava atravessar a rua). Não me incomodava rebobinar todas as fitas, e nem podia, já que assistia o mesmo filme várias vezes. E quando não é cinema, o cheiro de quadrinhos me chama de longe e preciso gastar dinheiro que não tenho. E nunca esqueça: #sixseasonsandamovie