Crítica | Dias Perigosos – Realizando Blade Runner

Dias Perigosos – Realizando Blade Runner é um documentário de 3h34′ produzido e dirigido por Charles de Lauzirika que foi incluído nas versões em DVD e Blu-Ray da Versão Final de Blade Runner, de 2007. Trata-se de um vasto trabalho de garimpo cinematográfico que não se furta em abordar as controvérsias e personalidades difíceis que participaram de todo o processo de gestação do filme desde antes da entrada de Ridley Scott como diretor, até seu lançamento no cinema e seu legado.

A riqueza do documentário para qualquer cinéfilo está na coleção de entrevistas feitas especialmente para ele, com praticamente todos os grandes nomes atrás e na frente das câmeras e ainda outras pessoas não relacionadas direta ou indiretamente com a produção, como os diretores Frank Darabont, Guillermo del ToroRonald D. Moore, o criador do reboot de Battlestar Galactica, além de Isa Dick Hackett, filha de ninguém menos do que Philip K. Dick (que faleceu no ano de lançamento do filme, antes de sua estreia), autor de Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas?, a seminal obra sci-fi que inspirou a adaptação cinematográfica. São nomes como os dos roteiristas Hampton Fancher e David Webb Peoples, os dos investidores e produtores Michael Deeley, Jerry Perenchio e Alan Ladd Jr., de Ridley Scott e de quase todo o elenco, de Harrison Ford até Morgan Paull, que viveu Dave Holden, o caçador de androides que é morto por Leon logo no começo. Os únicos dois nomes do elenco que não aparecem em entrevistas são os de Brion James (justamente o ator que vive Leon), pois ele faleceu em 1999, e de William Sanderson, que vive J.F. Sebastian. No lado técnico, temos Syd Mead, Douglas Trumbull, David L. Snyder e outros vários responsáveis pelo design, iluminação e efeitos visuais.

O resultado é uma mina de diamantes cinematográficos que permite uma profunda visão do processo criativo de um filme desde seu nascedouro até sua transformação em uma obra cult, depois de ser mal recebida pelo público e pela crítica. E o melhor é que de Lauzirika não se esquiva em colocar o dedo na ferida, por diversas vezes deixando evidente o inferno que deve ter sido trabalhar primeiro com Hampton Fancher, o responsável pelas primeiras versões do roteiro que, com a entrada de Scott, foi radicalmente alterado por Peoples, para seu desgosto eterno e, depois, com o próprio Scott, um meticuloso diretor que começou sua carreira trabalhando no departamento de design de produções televisivas e que arregaçou as mangas para microgerenciar todos os aspectos da obra.

É absolutamente fascinante ver Fancher falando sobre como o filme começou com um roteiro que tinha quase que somente cenas de interior, com um orçamento muito baixo e como isso foi mudando com a entrada de Alan Ladd Jr., ex-executivo da Fox responsável, dentre outras obras, por nada menos do que as franquias Alien e Star Wars, e que usou sua confiança em Scott para garantir um orçamento mais polpudo e, em seguida, com a entrada do próprio Scott que, aí sim, fez a visão da produção desabrochar para a que conhecemos, com a criação de um futuro noir distópico que praticamente tornou-se o “padrão da indústria”. Da mesma maneira, é incrível os relatos dos responsáveis pela equipe técnica e também de Scott sobre um protesto com direito a camisetas usadas pelo elenco e pela produção, um dando alfinetadas no outro, depois que descobriram uma declaração de Scott que basicamente dizia que trabalhar com equipes britânicas era muito melhor do que com americanas. Ver Sean Young elogiando, mas sub-repticiamente falando mal de Harrison Ford e Ford, sem rodeios, dizendo o inferno que foram as filmagens apenas à noite e como ele quase não se comunicava com ninguém, vivendo isolado em seu trailer é como se estivessem cochichando em nossos ouvidos segredos de bastidores que simplesmente não têm preço. Outros ótimos momentos são os que abordam os investidores e garantidores querendo tomar controle da produção depois dos atrasos e dos gastos além do orçamento.A entrevista com eles, em 2007, já com o filme com reputação mais do que estabelecida, revela aquela raiva e ressentimento que permeiam elogios que soam vazios e forçados.

Outros momentos memoráveis que selecionei para os leitores:

  • Os depoimentos de Rutger Hauer (e de outros corroborando) sobre todas as contribuições que ele fez, especialmente o famoso discurso “lágrimas na chuva” e o salto entre prédios que nenhum dublê conseguia, mas que ele conseguiu, além de a ideia da pomba ter vindo dele também;
  • Os depoimentos de Edward James Olmos sobre como ele convenceu o diretor de deixá-lo criar o cityspeak, língua própria do filme e como ele a criou, mostra o comprometimento do ator com o filme, algo também visto com Hauer, claro;
  • O Dr. Eldon Tyrell, morto por Roy Batty, era para ser um replicante e Batty descobriria o corpo do verdadeiro Tyrell, morto há quatro anos, em uma espécie de sarcófago;
  • Dangerous Days – ou “Dias Perigosos” – foi o primeiro nome da produção, nome esse que Fancher detestava;
  • Muito é falado sobre as influências dos artistas Moebius e Enki Bilal, da revista Heavy Metal e dos filmes noir americanos dos anos 40, mas nada é mencionado sobre Metropolis, cujos designs muito claramente foram a base para a Los Angeles de 2019;
  • Mary (vivida por Stacey Nelkin), um dos dois que são mencionados como tendo sido mortos antes de Deckard começar a caçada, foi cortada do filme em razão da greve dos roteiristas da época, mas teve algumas cenas-teste filmadas;
  • Para trabalhar sequências de efeitos especiais no Bradbury Building (onde J.F. Sebastian mora), a equipe teve que voltar na locação depois das filmagens principais, podendo permanecer por ali de 6 da tarde até 6 da manhã. Como era necessário entregar o prédio como se nada tivesse acontecido na noite anterior, mas as filmagens exigiam que ele estivesse em pedaços e cheio de goteiras, a equipe técnica veio com a brilhante ideia de “sujar” os corredores com cortiça moída que não só parece lama, como absorve toda a água jogada, o que facilitava a limpeza nas primeiras horas da manhã;
  • Para obter os resultados realistas que queria, Scott exigiu que as filmagens da sequência com Hannibal Chew (James Hong) fossem dentro de um freezer industrial devidamente funcionando, o que resultou em câmeras quebradas e quase a intoxicação da equipe;
  • Joanna Cassidy, que vive Zhora, tinha mesmo uma cobra de estimação e é ela que aparece no filme;
  • Os comentários em áudio apenas de Harrison Ford sobre a narração que foi obrigado a fazer para a versão cinematográfica do filme são hilárias. O descontentamento e a raiva dele são evidentes. Por outro lado, é interessante ver como Guillermo del Toro afirma adorar a narração e como Frank Darabont a odeia, mais especificamente a que vem logo depois da morte de Batty;
  • Scott conta como foi o processo de tentativa de se filmar as sequências verdejantes para o odiado final feliz e como o fracasso de suas tentativas o levou a usar sequências anteriormente filmadas e não usadas por Stanley Kubrick na abertura de O Iluminado;
  • A maquete da pirâmide da Tyrell Corporation pegou fogo e foi destruída ao final da produção (e o fogo foi filmado e está no documentário!).

Em termos estruturais, o documentário não reinventa a roda, sendo dividido em oito capítulos seguindo a progressão natural de uma produção cinematográfica, com os trechos das entrevistas sendo utilizados para dar vida à narrativa. Há muitas imagens, digamos, aleatórias do filme, que não são conectadas com o que está sendo abordado, mas, por outro lado, há muitas outras ilustrando exatamente o que é discutido, especialmente no que se refere aos desenhos conceituais, storyboards, plantas técnicas dos cenários e veículos, testes de elenco, takes alternativos e mais completos do que jamais foi visto nas versões do filme (especialmente na sequência em que Deckard e Rachael começam a se beijar, que é bem mais explícita, contendo até mesmo nudez), pinturas matte, imagens das maquetes sendo construídas e manipuladas, versões inacabadas de diversas sequências e assim por diante. Em outras palavras, em termos visuais, o documentário é tão rico quanto os depoimentos que o povoam.

Dias Perigosos – Realizando Blade Runner é a segunda melhor forma de se conhecer os bastidores desse importante sci-fi (a primeira é o detalhado livro Future Noir, de Paul M. Sammon (que também aparece no documentário, aliás) e um olhar interessantíssimo sobre a conturbada produção de um blocksbuster em tempos pré-CGI e é, para Blade Runner, o que Império dos Sonhos representa para Star Wars. Apesar de longo, ele é bem dividido e não cansa, pois as intrigas que vão sendo abordadas dão um sabor todo especial à obra como um bom thriller faz, atiçando a curiosidade do espectador.

Dias Perigosos – Realizando Blade Runner (Dangerous Days: Making Blade Runner, EUA – 2007)
Produção e direção: Charles de Lauzirika
Com: Hampton Fancher, David Webb Peoples, Michael Deeley, Jerry Perenchio, Alan Ladd Jr., Ridley Scott, Syd Mead, Douglas Trumbull, David L. Snyder, Harrison Ford, Rutger Hawer, Sean Young, Daryl Hannan, Joanna Cassidy, Edward James Olmos, James Hong, Stacey Nelkin, Morgan Paull, Frank Darabont, Guillermo del Toro, Ronald D. Moore, Isa Dick Hackett, Paul M. Sammon
Duração: 214 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.