Crítica | Dias Vazios

Vivemos na época das campanhas. Mais do que isso, vivemos um de engajamento social como, muito provavelmente, nunca tivemos desenhado de tal forma em nossa história. E o cinema, político como é desde seus primórdios (e alguém nega que cinema também é ato de resistência?), se faz necessário acompanhar as mutações que cada contemporaneidade constrói para si, e no que tange ao que nos ambienta hoje, existe uma tênue linha entre a clareza e a incompreensão, o que torna o ato de fazer este cinema pautado uma ação bastante arriscada.

E risco pode ser uma das muitas definições para Dias Vazios, primeiro longa-metragem de Robney Bruno Almeida (que no currículo carrega o curta A Farpa) que esteve recentemente na seleção competitiva da 21° Mostra de Tiradentes e que traz para seu cerne um tema tão espinhoso como o suicídio. E o suicídio no meio jovial, faixa esta que, segundo as estatísticas, têm sido a mais afetada com a chegada da depressão, da falta de expectativa na inércia das mudanças na vida. Não é uma abordagem fácil pelos mais variados motivos, seja pela necessidade de compreensão, pela ausência de um julgamento, pelo explorar do motivar um ato de suicídio. Mas há coragem de sobra no longa de Robney, assim como muita sobriedade e, de quebra, um certo flerte com trabalhos de gênero.

Impressionante, de início, é como Robney filma suas locações, no interior de Goiás, como uma intensificação de todos os sentimentos que rodeiam o filme. E nele conhecemos Jean (Vinícius Queiroz), um adolescente que já não se sente confortável na cidade onde vive, apesar de seu namoro com Fabiana (Nayara Tavares). Dois após Jean cometer suicídio (acreditem, isto não é um spoiler) e Fabiana simplesmente desaparecer, outro aluno do mesmo colégio onde Jean estudava, Daniel (Arthur Ávila) decide começar a escrever um livro sobre o casal, e junto com sua namorada Alanis (Natália Dantas), inicia sua própria investigação para descobrir as motivações do que realmente aconteceu, ao mesmo tempo contestando a freira (Carla Ribas, presente em grandes títulos como Aquarius, Campo Grande e O Abismo Prateado) que coordena a escola.

Responsável por uma misé-èn-scene de pulso firme e que tem noção de como se impor no observar de seus personagens, o vazio existencial aqui retratado por Robney é astuto ao se manter com certa distância emocional dos conflitos que desenham os rostos do quarteto principal, e dentro desta abordagem se faz competente nos frames límpidos, observacionais, de planos-sequência absurdamente sutis que nos desafiam de forma tão introspectiva a buscar ou não respostas, justificativas ou o que valha a pena para a compreensão deste estado de consciência que marca o passado, o presente e o futuro.

Por vezes nos remetendo ao melhor do que há nos thrillers silenciosos, seja pela fotografia acinzentada e incolor de Mauricio Baggio que nos remete ao estado de espírito dos personagens ou a já mencionada câmera sempre em ponto de observação de forma cada vez mais intimista, e que atingem seu ponto alto na visita à casa de Jean após esta ter sido abandonada. E tal requinte mantém firme sua funcionalidade como o auxílio dos simbolismos que regem a narrativa fragmentada e metalinguística, que dividida em três atos nem tão distintos assim, desafia o rearranjo dos elementos com o desenvolvimento do livro de Daniel, até chegar num ponto onde ficção e realidade se confundem num clímax certamente contestável, mas que inegavelmente sustenta o tapa na cara que permanece ecoando por um bom tempo após o surgir dos créditos finais.

E assim, Robney escapa de grandes julgamentos ou posições pessoais sobre os personagens que acompanha (e que têm como base o livro Hoje Está um Dia Morto, de André de Leones) para simplesmente deixar as cartas na mesma e dar vida ao seu cinema complexo e de vigor, dono de um controle narrativo notável e competente direção de atores (Ribas e as duas meninas, em especial, se sobrepõem facilmente aos garotos, ambos também em boa presença). Dias Vazios é um filme sobre sobrevivência, mas que jamais nos entrega respostas fáceis para este caminho, e nisto se revela um cinema instigante  e de bom gosto para uma abordagem tão melancólica.

Dias Vazios (idem) – Brasil, 2017
Direção: Robney Bruno Almeida
Roteiro: Robney Bruno Almeida, baseado em livro de André de Leones
Elenco: Carla Ribas, Vinícius Queiroz, Nayara Tavares, Arthur Ávila, Natália Dantas
Duração: 103 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.