Crítica | Dinossauro (2000)

“Nós não estamos destinados a sobreviver.”

Era uma vez os dinossauros. Em 1940, Fantasia continha, em um de seus melhores segmentos, dinossauros se enfrentando, em uma luta extremamente brutal por sobrevivência. Aparentemente, podemos ver como inacreditável a demora na realização de um longa-metragem estrelado por tais figuras fantásticas, extremamente vistas como mágicas por crianças. Por outro ponto de vista, o momento do lançamento de Dinossauro, sessenta anos depois de Fantasia, está completamente de acordo com as tendências de mercado. Os dinossauros tinham acabado de ser relembrados pelo público de uma maneira imensamente vívida, possivelmente inigualável, com Jurassic Park e O Mundo Perdido: Jurassic Park. O grande motor dessa iniciativa, portanto, é a ganância, mas não apenas em termos financeiros – a obra viria a ser um sucesso de bilheteria -, mas especialmente em termos de produção, dando margem a uma animação “completamente” criada no computador, sem uso de técnicas tradicionais. O último filme do século XX, para a Disney pelo menos, é o verdadeiro começo do Pós-Renascimento, após Fantasia 2000 continuar com a estética do longa original, já flertando com o novo, impulsionado por Toy Story, de 1995. Dinossauro é mudança, olhando exatamente para o passado, para o primitivo, para dar os primeiros passos da empresa para o futuro.

A ambição é ainda mais gigantesca do que pensamos inicialmente, ao notarmos que, muitas das vezes, os animais pré-históricos estão dispostos em cenários reais, filmados em locação, permitindo uma visualização extensa, por parte do público, de contrastes e maravilhas. A intenção, dessa maneira, é justamente trabalhar com o público a noção de que aquelas criações completamente digitais são propícias ao encaixe no mundo real, teoricamente distante do animado, como se os animadores estivessem próximos de atingirem a realidade na computação. O embate, portanto, é entre o primitivo, intocado pelo homem, e a tecnologia, “agredindo” a natureza. A mistura, porém, não é perfeita, mas permite, ao mesmo tempo, apreciarmos paisagens, que, caso feitas em computador, não gerariam o mesmo impacto, enquanto, de um outro lado, são visíveis as quebras entre o que é real e o que não é. O grande ápice dessa grandiosidade, contudo, é justamente o momento no qual a animação é a mais simples das obras sobre dinossauros, contando a narrativa de um ovo de iguanodon, perdido no mundo até chegar a uma família de lêmures. A aventura é poética, acompanhada por um trilha sonora instrumental acertada – como acontece por todo o longa-metragem -, buscando sonoridades a causarem a imersão do público dentro da jornada proposta.

Quando Dinossauro, então, passa a ser uma aventura mais comum, o público ameaça se perder, pois a estrutura torna-se extremamente familiar aos olhos de espectadores que, até então, estavam imersos em uma jornada quase documentária. A aproximação aos dinossauros, no encontro do ovo com os lêmures, também realça outra problemática, mas de cunho tecnológico agora. Os olhos dos animais não conseguem capturar a essência que deveriam transmitir sobre os respectivos personagens, sendo este resultado consequência de um trabalho específico menos caprichado, que, assim como o restante da animação, será considerado datado nos dias de hoje, mas, diferentemente de grande parte das características da obra, verdadeiramente incomodará. Dinossauro, no final das contas, ainda mostra um poderio técnico. O grande percalço desse reinício cinematográfico, porém, é mesmo o roteiro de John Harrison. Quando a câmera aproxima-se finalmente dos lêmures, os personagens começam, quebrando com o natural de antes, a falar. Dinossauro, em um primeiro momento, fora pensado como uma obra sem diálogos. A adição destes, entretanto, tornou a obra comercialmente mais viável. John Harrison, porém, errando a mão nas falas, deixa aparentar genérica uma produção potencialmente muito mais querida.

A jornada de Aladar (D. B. Sweeney), dinossauro criado por uma família de lêmures, é muito bem resolvida tematicamente. Acompanhamos a tentativa de espécies sobreviverem a um dos vários fins do mundo que a Terra já passou, mas que, dessa vez, ocasionara a extinção desses “lagartos gigantes”. É o que as lendas contam, porém. O grande ponto curioso, seguindo o mote da trama, é que justamente a chegada do imenso meteoro que permite a continuação da linhagem de Aladar, sem parceira alguma na ilha de lêmures. A mudança de ambientação sucinta uma busca pelo acasalamento, mostrado, inicialmente, no próprio ritual entre a família inesperada que o protagonista ganha. Um amigo próximo do personagem principal, Zini (Max Casella), personalidade cômica da obra, também passa por isso, como a conclusão de sua “trama paralela” revela. Ao mesmo tempo que precisa sobreviver ao fim do mundo, chegando ao Assentamento dos Ninhos, o destino indicado desde o início da trama como o derradeiro paraíso dos dinossauros, Aladar também precisa encontrar um par para o seu coração, dando margem à continuação de sua espécie. Com isso, Dinossauro amarra todas as temáticas sugeridas dentro de sua narrativa, sem torná-las digressivas, mas parte de um conjunto só sobre sobrevivência, indo muito além de um mero pensamento egocêntrico acerca do assunto.

O grande embate pela sobrevivência de espécies vai de encontro ao próprio darwinismo social pregado por Kron (Samuel E. Wright), líder do gigantesco grupo de dinossauros que Aladar encontra no início de sua jornada. A obra, então, permite o protagonista portar-se como um verdadeiro herói, acreditando em uma sobrevivência conjunta, de um grupo, não na sobrevivência individual, de um grupo sem intenção de portar-se como grupo. A união dele com um par de personagens idosas, extremamente carismáticas, e um anquilossauro com retardado mental, portando-se como animal de estimação, estimula esse viés. John Harrison, contudo, novamente encontra as soluções mais fáceis para o sustento das suas ótimas ideias, como quando permite, no mero acaso, o grupo de Aladar encontrar o Assentamento. As decisões consequentes, todavia, são frutíferas, indo de acordo com a construção de personagem proposta. Já as barreiras para os animais são, no máximo, interessantes. Os carnossauros assustam, mas não tanto quanto um tiranossauro, enquanto a sede é a real inimiga dos personagens. A jornada de Dinossauro, portanto, por mais livre historicamente que seja, é uma das mais maduras e relevantes entre as instituídas pela Disney, encontrando a mensagem universal, sobre esperança, justamente nas dinâmicas acordadas com a situação de extinção.

Dinossauro (Dinosaur) – EUA, 2000
Direção: Ralph Zondag, Eric Leighton
Roteiro: John Harrison
Elenco: D. B. Sweeney, Alfre Woodard, Ossie Davis, Max Casella, Hayden Panettiere, Samuel E. Wright, Julianna Margulies, Peter Siragusa, Joan Plowright, Della Reese
Duração: 82 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.