Crítica | Dirk Gently’s Holistic Detective Agency – 1ª Temporada

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estrelas 4

Adaptar Douglas Adams para qualquer mídia não é uma tarefa fácil.

Mente extremamente criativa, núcleo de coisas aleatórias e extremamente bizarras, Adams nos presenteou, além da série O Mochileiro das Galáxias, com o livro Agência de Investigações Holísticas Dirk Gently, publicado em 1987. Em 2010, Howard Overman fez uma adaptação para a BBC, que contaria, além do Piloto, com mais 3 episódios, todos exibidos em 2012.

Quatro anos depois, Max Landis, autor de roteiros díspares como o ótimo Poder Sem Limites (2012), o “ok” American Ultra: Armados e Alucinados (2015) e o tenebroso Victor Frankenstein (2015), criou a sua própria versão para a ensandecida saga, com co-produção entre Reino Unido e Estados Unidos e distribuição na Trumpland pela BBC America e pelo mundo, pela Netflix.

A premissa de Dirk Gently é a mesma do livro: um detetive carismático e quase arrogante encontra, “por acaso” um cidadão qualquer, que é arrastado pela estranha “interconexão de todas as coisas” e se vê sem saída, resignando-se a seguir o estranho detetive, atravessando os mais bizarros perigos e encontrando de tudo um pouco, de viagem no tempo e assassinatos brutais até espionagem, serviços secretos, seitas e planos de corporações para dominar fortunas, pessoas ou governos. Em suma, toneladas de clichês tratados com fino humor, muita inteligência e uma dose brutal de nonsense. É como se Doctor Who tivesse encontrado Sherlock. Os dois chapados.

Por se tratar de um Universo caótico, cheio de reviravoltas e temáticas que normalmente não caminham juntas, o espectador precisa ter um pouco de paciência e ir curtindo a série pelo que ela apresentar aos poucos. Uma coisa é certa: todas as janelas abertas serão fechadas (ou parcialmente fechadas) no encerramento do serial. Claro que nem todas as resolução são perfeitas, mas elas existem, então não estamos falando daquele tipo de programa que nos faz esperar por algo e, de repente, vem com uma explicação boba e insatisfatória que não explica nada e nega mais da metade do que foi mostrado antes, como a 6ª Temporada de Lost.

A maior dificuldade do público é se acostumar com o Dirk Gently histriônico interpretado por Samuel Barnett. Demora a nossa adaptação e demora para o ator conseguir impressionar, valendo-se, no cômputo geral, mais do roteiro do que da própria criação dramática para se sustentar. Paradoxalmente, isso não é exatamente um problema para a série, porque a contraparte de Barnett, Elijah Wood, que interpreta Todd Brotzman, é racional e o tipo simpático e impressionável de shit person com quem normalmente costumamos simpatizar em séries, pois não se trata de um personagem vilão, mas que tem grandes pisadas na bola, momento de burrice e esperteza e uma personalidade que enfrenta toda a “nova situação” com as mesmas dúvidas que nós temos, do outro lado da tela. Impossível não se aproximar de uma persona assim.

SPOILERS

Apresentado o grande problema, ficam imensas dúvidas sobre quem é o quê na história. De todos os tipos malucos aqui exibidos, os “vampiros da van” são os mais dispensáveis em termos de drama (e sim, eu estou considerando o papel deles junto a Amanda), e ainda não tenho muita certeza em relação ao “casal” Ken (Mpho Koaho) e Bart (uma hilária e irreconhecível Fiona Dourif). Pelo destaque em “trama paralela” que eles tiveram para no final das contas marcarem presença en passant no clímax da série não me pareceu uma boa escolha do roteirista, mas não dá para reclamar que a tal aparição da dupla foi ruim. Ela só perde pontos quando nos afastamos para olhar o todo.

Como eu já tinha visto a série de 2010, algumas tramas “ocultas” para a maioria já estavam bem claras para mim. Ainda assim, fui surpreendido pela forma como a produção mergulhou no conceito de viagem no tempo (a melhor coisa de toda a temporada) e de como os encontros, as ligações e os absurdos em consequência de uma mega invenção, no final do século XIX, gerou uma seita e incentivou programas do governo para identificar “pessoas com habilidades especiais”. Como muitos ingredientes das histórias de investigação são mesclados ao grande caos, a sensação de perigo, ameaças e espionagem serve como criadora de tensão para boa parte do que envolve Dirk Gently.

Os figurinos possuem uma importância enorme nessa temporada e servem muito mais do que “apenas” ajudar a montar a personalidade dos personagens. Identificar algumas peças de roupa ao longo da saga pode ajudar o espectador a montar o quebra-cabeça mais cedo e criar suas próprias hipóteses antes das revelações aparecerem. Importante também destacar a belíssima fotografia das cenas no “laboratório” Zackariah Webb, no final do século XIX, e as cenas noturnas no espaço abandonado no Zoológico, onde ficava a máquina com defeito.

Exceto pelos maneirismos do protagonista de Samuel Barnett, sobre o qual não sei exatamente como me sentir (me refiro à dramaturgia, porque eu gosto do personagem!), temos uma temporada com uma história divertida, intrigante e que com certeza nos impulsiona para o ano seguinte do show. Me parece que os “vampiros” não se seguram em mais uma temporada, mas isso ainda veremos. A novidade é que tudo indica uma sequência mais “institucional”, com Dirk e seus amigos fugindo das garras do governo e do agora responsável por “fazer o serviço sujo”, o soldado absolutamente burro e incrivelmente violento, dono do melhor não-bordão da série: “very erectus“.

Dirk Gently’s Holistic Detective Agency – 1ª Temporada (EUA, Reino Unido, 2016)
Criador: Max Landis
Diretores: Dean Parisot, Michael Patrick Jann, Tamra Davis, Paco Cabezas
Roteiristas: Max Landis, Andrew Black, Robert C. Cooper
Elenco: Samuel Barnett, Elijah Wood, Hannah Marks, Fiona Dourif, Jade Eshete, Mpho Koaho, Michael Eklund, Dustin Milligan, Neil Brown Jr., Aaron Douglas, Bentley, Christian Bako, Michael Adamthwaite, Alison Thornton, Zak Santiago
Duração: entre 50 min. e 60 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.