Crítica | Dirk Gently’s Holistic Detective Agency – 2ª Temporada

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Quando se trata de adaptar uma obra de Douglas Adams para alguma mídia qualquer, a estranheza nunca é demais. Por isso, foi com bastante curiosidade (e mais ou menos “vacinado” para o que poderia ver) que embarquei na segunda temporada de Dirk Gently’s Holistic Detective Agency, a continuação nada fácil da saga de Dirk Gently (Samuel Barnett), Todd Brotzman (Elijah Wood) e um time cada vez maior de amigos e inimigos em fuga da maligna instituição secreta do governo americano, a Black Wing, que tem como missão conter e estudar os muitos “projetos inexplicáveis”, personificados em indivíduos que são verdadeiras peças para um melhor funcionamento do Universo.

É preciso aqui levantar aqui, antes de qualquer coisa, um ponto de vista narrativo. Eu ainda não li Agência de Investigações Holísticas Dirk Gently (1987). Vi a adaptação do livro na série britânica criada por Howard Overman e agora, na versão criada por Max Landis. Este levantamento tem o seguinte sentido: independente se algumas coisas apontadas como boas ou ruins estejam ou não no livro, o que realmente importa é se cada uma dessas coisas funcionam na tela, nesta outra mídia para a qual a obra literária foi transposta. É muito importante a noção do público de que adaptação não é cópia. E cada mídia tem uma linguagem e exige caminhos diferentes ou que lhe cabem melhor para capturar a essência de sua fonte. Esclarecido este ponto, vale dizer que é impressionante o quanto essa temporada ainda segurou no alto a qualidade da série, mas em comparação à estreia, esteve pelo menos um degrau abaixo. E o reino de Wendimoor tem um grande papel nisso.

Com as justificativas dadas na reta final da temporada, a explicação para os mistérios centrais e a colocação de cada personagem em um lugar especial para “a próxima aventura”, fica mais fácil ter um olhar positivo para este mundo dos sonhos de uma criança que, com medo, criou uma realidade onde pudesse se abrigar. Isso sozinho já é um elemento excelente para ser trabalhado e gerar ótimos conflitos de personagens. Mas como o drama existencial não é o foco de Dirk Gently. O surrealismo e a fantasia se misturam a um tipo curioso de ficção científica nesta série, olhando para teorias da conspiração e segredos de Estado que, muitas vezes, parecem não se encaixar direito na parte imaginativa que o texto nos traz. Na maior parte das vezes, a realidade de Black Wing, a casa dos Cardenas e seus arredores mais o reino do “Garoto” são partes do enredo que funcionam melhor isoladamente.

Para dar corpo às mais diversas loucuras, era necessário uma direção de arte e fotografia afinadas, coisa que temos de sobra nesta segunda temporada. A despeito dos tropeços do texto, a cobertura estética em Wendimoor é excelente. Figurinos, construções da cidade, modo de vida, trilha sonora específica e a própria concepção hierárquica do reino, com mistura de elementos medievais, típicos dos contos de fatas, mais algumas criações dos século XIX e XX fazem do lugar um mistério em si mesmo, capaz de violência ou comportamento guerreiro que sequer imaginamos, mesmo que isso seja verbalizado o tempo inteiro. Eu só vim ter realmente uma noção de como isso poderia ser exercido por alguém daquele lugar, quando Panto, empunhando sua espada-tesoura, se livra de todos os soldados de Black Wing, não fazendo feio a Bart, sua amiga assassina. Aliás, a posição da personagem na temporada foi um pouco irritante, pela quietude e recusa em matar, mas foi interessante ver que no final ela fez aquilo que sempre fazia, se livrando todo o Exército do Mago.

O bloco com Tina (Izzie Steele) e Hobbs (Tyler Labine) inicialmente apresentava os maiores altos e baixos, mas aos poucos teve uma melhor adequação no enredo da série, tendo em Mr. Priest (Alan Tudyk) um dos personagens mais curiosos dessa nova fase, uma ameaça aos “mocinhos” vinda de Black Wing, mas com uma moral bem mais… assassina. Isso nos ajudou a fixar melhor os eventos no mundo atual e, principalmente, a observar a ascensão de Ken (Mpho Koaho) a um dos postos mais altos de Black Wing, o lugar do qual ele, no início, queria fugir. Como um vírus, o conhecimento de todos os segredos relacionados ao sobrenatural “subiu à cabeça” do jovem e ele simplesmente se tornou aquilo que desprezava, uma reviravolta muito interessante, ainda mais porque Bart volta à Instituição no final, dando um bom gancho para um desenvolvimento mais complexo ou trágico dos personagens.

A série ainda mantém muito de sua diversão, mas o humor mais bobo foi substituído por um outro tipo de comédia, uma que não se aplica realmente aos personagens em cena. Peguemos, por exemplo, a mudança final da “Monstro do Arco-Íris” ou os bordões vergonhosos de Dirk, que são pontos fora do que esperamos para esses personagens e, pior, que aparecem sem ter uma preparação ou encaixe nas respectivas sequências. Mesmo assim, a inteligência na forma como o roteiro criou, desenvolveu e amarrou “O Caso” da temporada foi algo bastante prazeroso de se ver… uma jornada onde temos de tudo um pouco e onde a fantasia e o produto de uma mente insana se encontram para uma investigação que ninguém faz ideia onde vai dar. Uma temporada instigante, sob muitos aspectos.

Dirk Gently’s Holistic Detective Agency – 2ª Temporada (EUA, Reino Unido, 2017)
Diretores: Douglas Mackinnon, Michael Patrick Jann, Richard Laxton, Wayne Yip, Alrick Riley
Roteiristas: Max Landis, Russel Friend, Garrett Lerner, Robert C. Cooper, Sinead Daly, Molly Nussbaum
Elenco: Samuel Barnett, Elijah Wood, Hannah Marks, Jade Eshete, Mpho Koaho, Dustin Milligan, Fiona Dourif, Osric Chau, Michael Eklund, Bentley, Zak Santiago, Viv Leacock, Amanda Walsh, Izzie Steele, Christopher Russell, John Hannah, John Stewart, Tyler Labine, Lee Majdoub, Alan Tudyk, Amitai Marmorstein
Duração: entre 45 min. e 50 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.