Crítica | Disque M para Matar

estrelas 4,5Curioso saber que Disque M para Matar, hoje considerado uma das principais obras-primas de Alfred Hitchcock, nasceu durante um bloqueio criativo do diretor. Baseado num espetáculo de sucesso da Broadway, Hitchcock simplesmente se ofereceu para dirigir à obra quando soube que seus direitos haviam sido comprados pelos estúdios Warner. Mas Hitchcocok, esperto como era, e mesmo diante de certa ausência de ideias e inspiração, fez de Disque M para Matar um suspense elegante, criativo e eletrizante, algo que o filme jamais teria sido se tivesse caído nas mãos de um diretor menos experiente.

Passado quase que inteiramente em um único cenário (como não lembrar de Festim Diabólico?), o filme nos apresenta Tony Wendice (Ray Millan), um homem que planeja o assassinato da esposa Margot (Grace Kelly, em seu primeiro filme com Hitchcock) após descobrir que ela possui um caso secreto com outro homem, Mark Halliday (Robert Cummings). Para isso, Tony chantageia Charles Alexander (Anthony Dawson), um antigo amigo, para assassinar Margot e fazer com que a herança caia em suas mãos. Mas o plano dá errado, e após Margot matar Charles em defesa própria, Tony elabora um novo plano que poderá levar Margot para a prisão.

Considerado pelo próprio Hitchcock como um de seus filmes menores e de pouca importância, Disque M para Matar reúne todas as características que fizeram de Hitchcock um dos cineastas mais inovadores e brilhantes de seu tempo. Econômico como era, o diretor é eficaz em apresentar seus personagens de maneira rápida e direta, mas inserindo pequenos detalhes que, ao contrário de meras palavras, conseguem nos dizer o que aqueles personagens são. Reparem na cena de abertura: vemos Tony e Margot sorrindo, felizes, um típico casal aparentemente perfeito. Margot lê uma notícia no jornal sobre a chegada de um navio norte-americano a Londres, e no corte seguinte, vemos Margot agarrada com outro homem. Reparem também nas cores das roupas de Margot, que usava um simples vestido branco no café com Tony, mas veste uma decotada e avermelhada peça vermelha com o amante. Através de truques simples, Hitchcock consegue estabelecer os personagens e quem eles realmente são, e neste momento, o espectador imediatamente sente uma empatia pelo marido traído.

Mas Hitchcock, como sabemos, jamais foi de manter a experiência seguindo apenas uma linha, e conforme Tony vai se revelando um sujeito frio, cruel e vingativo, nossa torcida muda, inevitavelmente, para a mulher adúltera, numa inversão de posições nada menos que genial.

Como o filme traz poucas cenas de ação física e é carregado de diálogos, o diretor impede que o filme caia na monotonia ao elaborar um trabalho de câmera constantemente intenso, que por muitas vezes coloca o espectador na mesma posição dos personagens, o que traz ainda mais realismo para as cenas de maior tensão, algo que pode ser atestado na constante exposição dos enquadramentos sobre quem está ouvindo, e não quem está falando durante os diálogos). Hitchcock também ousa e inova ao apoiar a narrativa em cima do ponto de vista do criminoso, e não da vítima, o que traz um ar de novidade para o tema preferido de Hitchcock, o falso culpado. Além disso, Hitchcock trouxe um adendo interessante ao filmar com a tecnologia 3D, mas aos invés de simplesmente atirar objetos nos espectadores, o diretor constantemente coloca os objetos do cenário em primeiro plano, acentuando  a sensação de imersão na tridimensionalidade.

Com recursos dramáticos muito bem empregados e um desfecho pra lá de claustrofóbico, Disque M para Matar, ao contrário do que afirmou o próprio Hitchcock, passa bem longe de ser uma de suas obras menores. É um suspense de primeira linha, repleto de jogadas inteligentes e momentos de muita tensão. Sem dúvidas, mais uma obra-prima do diretor.

Disque M para Matar (Dial M for Murder, EUA, 1954)
Roteiro: Frederick Knott
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: Ray Milland, Grace Kelly, Robert Cummings, John Williams, Anthony Dawson, Patrick Allen, George Leigh
Duração: 105 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.