Crítica | Distúrbio (2018)

Steven Soderbergh nunca foi um diretor de descansos ou comodismos. Pelo contrário, desde seus primórdios, o cineasta adotou para si uma identidade experimental que, ao longo de sua longa carreira, lhe permitiu passear por experimentalismos de gêneros, técnica, narrativas e ambientações. Distúrbio se encaixa num flerte ainda um tanto raro para Soderbergh, mas que já lhe rendeu ricos frutos no passado com Contágio e Terapia de Risco: o horror centrado em possibilidades fatalistas, na paranóia e na contestação do que é real e do que não é.

Exibido no Festival de Berlim e aclamado por aquelas bandas, Distúrbio dá continuidade a essa busca de Soderbergh pela exploração com as tendências de filmagem ao ser inteiramente filmado com um iPhone 7 Plus, o que já lhe garante um leque de possibilidades para que seu diretor use e abuse da criatividade e do inusitado dentro do cenário claustrofóbico de um sanatório, para onde Swayer (Claire Foy, de The Crown) é levada e mantida prisioneira contra sua vontade após, aparentemente, ter tido ilusões de que seu ex-namorado estaria lhe perseguindo. Mantida nesse espaço fechado por tempo indeterminado, Swayer estará à mercê dos pacientes do manicômio que não parecem dispostos a lhe receber com animosidade.

Com um abuso natural de enquadramentos nada usuais, supercloses, imagens desfocadas que são esteticamente adaptadas ao conceito de filmagem com um iPhone, Distúrbio se revela um projeto bem menos ambicioso do que sua realização dá a entender, e narrativamente falando, Soderbergh se contenta com um trabalho de condução extremamente linear e sem grandes arroubos nos plots que, gradativamente, se acumulan ao desespero crescente de Sawyer em escapar daquele local. Não que tal opção pela simplicidade da linearidade diminua a força de sua experiência, e fotografando suas imagens pelas lentes de seu pseudônimo Peter Andrews, Soderbergh nos guia pela mão dentro de um labirinto de incertezas e personalidades neuróticas, elementos fortes e indispensáveis para a imersão que o roteiro de Jonathan Berstein e James Greer oferece ao espectador dentro de seu desafio em exigir constantemente o olhar apurado sobre o que é verdade e o que não é.

O mais curioso é como Distúrbio, gradativamente e de forma muito orgânica, se transmuta de sua paranóia para um thriller de convenções muito bem trabalhadas e aplicadas pelas lentes de Soderbergh, por mais que isto venha simplificar ainda mais a proposta inicial. a ambiguidade embutida na história vai, aos poucos, dando lugar a um tradicionalismo que, apesar de lançar a obra num jogo de gato-e-rato comum, abraçam com bom gosto o lado B e quase vanguardista dos thrillers sarcásticos dos anos 80, e dá-lhe mortes elaboradas, perseguições e plot twists para que Soderbergh se lance na sua busca pelo despertar da tensão em seu auge, que é muitíssimo bem capturada no espetacular plano-sequência dentro da solitária do sanatório.

Talvez falte para Distúrbio um desfecho um pouco mais polido, é verdade. A última cena, em especial, pesa a mão no sarcasmo da brincadeira e finaliza a trama de forma mais rasteira do que deveria, por mais que seu aspecto cômico seja deveras funcional para os objetivos experimentais de Soderbergh. De qualquer forma, é deveras revigorante acompanhar um diretor tão inquieto ainda tecer seu olhar, após quase 30 anos no cinema e também na TV, dentro de gêneros que ainda lhe oferecem oportunidades tão valiosas de chacoalhá-los e transformá-los em experiências desafiadoras para o cinema cada vez mais rasteiro do século XXI.

Distúrbio (Unsane) – EUA, 2018
Direção: Steven Soderbergh
Roteiro: Jonathan Berstein e James Greer
Elenco: Claire Foy, Joshua Leonard, Amy Irving, Jay Pharoah, Juno Temple
Duração: 97 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.