Crítica | Distúrbio (2009)

estrelas 1

Todo e qualquer tipo de segregação ou agressão é desprezível e infame. Se atentarmos para as muitas ocorrências nesse campo, veremos que em grandiosa parte das vezes a covardia é o elemento sustentador das ações, pois sempre dirigem-se a alguém indefeso ou impossibilitado, por algum motivo psicológico ou físico, de revidar. Vale lembrar que a violência, via de regra, é realizada em grupo.

A preocupação com relação ao bullying ou segregação moral, física e social é uma das grandes discussões tornadas essenciais nos anos 2000.

O antro mais fecundo (embora não seja o único) dessas ações violentas são as escolas, porque reúnem diversos grupos morais e oferecem, por sua constituição, um ambiente perfeito para a prática: plateia, seguidores e vítimas. Sim, porque quem executa atos de violência de qualquer tipo o faz para destacar-se e precisa de um séquito para aplaudir suas atitudes e venerá-lo.

Um outro lado também pode ser considerado: não seriam os “valentões” vítimas de agressão em algum lugar – do passado ou presente –, e, tendo uma personalidade vingativa e neurótica/psicótica, querem impingir o mesmo sofrimento que lhes são ou foram causados em outra pessoa tão indefesa quanto eles? Concordamos que isso não é nem de perto uma justificativa, mas devemos esquadrinhar o máximo de possibilidades que se nos apresentam.

Uma pergunta raramente feita sobre o tema tornou-se o motivo do roteiro de Stephen Prentice em Distúrbio (2009): e se as vítimas de bullying pudessem se vingar?

A corrupção moral e sua relatividade entre perdedores e dominadores, tal como propôs Nietzsche, vem embalar a juventude dionisíaca que vemos neste filme dirigido por Jon Wright. A palavra da vez é “diversão” e tudo o que for possível fazer para levar a cabo o que se entende por “diversão”, será feito. No decorrer do filme, quando defrontados com a responsabilidade de suas ações livres, os jovens optarão pela mentira e pelo assassinato para livrar-se do mal presente: em nenhum momento as regras morais sugeridas pelo Contrato Social afloram. Mas em Distúrbio, a questão crítica é minimizada pelo gênero do filme, que precisa de toda uma cartilha técnica para “dar certo”.

A história se passa com um grupo de estudantes de uma escola no Reino Unido. O modo narrativo não difere em nada do “terror subjetivo” a que estamos acostumados, principalmente para quem conhece obras do gênero produzidas no Oriente – embora estas sejam muitíssimo superiores a esse trash movie que é Distúrbio.

Um jovem chamado Darren Mullet suicida-se (em tempo elíptico) e o início do filme, após duas criativas transposições temporais que só entendemos ao final da fita, é justamente o velório do jovem aluno. Com o tempo, descobrimos que Darren não era nada popular entre os colegas e que era vítima de bullying, sendo o suicídio a sua forma de escapar da vida infernal a que era submetido. A autoridade escolar, os pais e até mesmo os professores mostram-se ineficientes e o aluno fica à mercê de um grupo de jovens sem limites.

Mas Darren Mullet não morre, de fato. Na noite do dia em que foi enterrado, o vil grupo que o atormentava dá uma festa de comemoração (observem as características típicas do terror trash) e é aí que o vingativo espírito passa a agir. Inicialmente, o Darren-além-túmulo começa a enviar mensagens macabras para os celulares dos seus antigos algozes. Depois, a vingança se dá em larga escala e a eliminação é concluída em pouco tempo, não poupando ninguém.

Embora trabalhe com certa responsabilidade a temática da violência moral e física contra alunos “diferentes” (Darren Mullet é obeso), o filme segue a trilha do asco em detrimento da reflexão. Não que Distúrbio devesse ser um filme teórico sobre o tema ou um terror cerebral, etc. Mas a desmedida vingança da ex-vítima acaba por tirar a força da opção de denúncia sobre o bullying, levantando a problemática da pergunta: e se uma vítima dessas agressões pudesse vingar-se?

O elenco é terrivelmente ruim e mal dirigido, bem como a maior parte do filme, sendo apenas algumas sequências salvas da danação que se apodera da película após o sangue começar a correr. Vale dizer que as atrizes April Pearson e Larissa Wilson fazem um trabalho notável na série Skins, o que de certa forma impressiona a queda de qualidade do trabalho de ambas no presente filme.

O ambiente gótico (inclusive com uma tribo totalmente injustificada no contexto do filme) é ressaltado pela fotografia escura e adequado ao rock que pontua toda a obra. Mas o próprio roteiro é constituído de características desse tipo, o que não espanta o caminho macabro e muitas vezes caricato que é trilhado. Algo interessante é vermos que mesmo em todo o rio de sangue e mortes à la Re-Animator (1985), ainda temos um desvirtuamento moral ao fim da obra, quando o Darren-espírito parte para cima do casal bonitinho de protagonistas.

Duas coisas ressaltamos desse epílogo: a prejudicial simpatia que o especador nutre pelo romance cinematográfico, aqui, fator primordial para a condenação da ex-vítima, e o uso desse fato para o gancho da cena final, em uma saída fácil (já aludida em cena pregressa). Há uma ambiguidade moral enorme ao fim de Distúrbio, e numa tentativa de dar força psicológica à trama através do humor negro, há uma pequena cena final do treinador do time da escola encontrando-se com o Darren-espírito. Se as coisas não funcionaram nada bem durante 88 minutos de projeção, esta pequena cena é algo que nem merece ser comentado.

Distúrbio (Tormented) – UK, 2009
Direção: Jon Wright
Roteiro: Stephen Prentice
Elenco: Alex Pettyfer, April Pearson, Dimitri Leonidas, Calvin Dean, Tuppence Midleton, Georgia King, Larissa Wilson, James Floyd
Duração: 87min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.