Crítica | Divertida Mente

estrelas 5,0

Depois de um ano sem lançamento, algo que não acontecia desde Carros, em 2006, e depois de três continuações de resultados variáveis em termos de qualidade e um filme original (Valente) não muito especial, é possível dizer, sem sombra de dúvidas, que a Pixar que nos acostumamos a idolatrar finalmente voltou com força total! Sim, caro leitor, Divertida Mente é o triunfal retorno de Pete Docter à direção de uma animação, para um resultado que, arrisco dizer, equivale ou chega muito próximo à obra máxima da produtora (e do mesmo diretor), Up – Altas Aventuras.

Divertida Mente é a perfeita união de originalidade com criatividade em um roteiro inteligente, em iguais medidas engraçado e emocionante que fará rir e derreterá corações de crianças e adultos igualmente. Some à isso personagens apaixonantes e a criação de um fantástico universo visual e o resultado é hipnotizante e arrebatador do começo ao fim, literalmente sem qualquer falha visível.

A história, inteligentemente mantida sob sigilo mesmo depois que trailers e imagens foram liberados, será melhor aproveitada assim mesmo, no escuro. Portanto, se o leitor nada sabe de Divertida Mente, vá tranquilo ao cinema saborear e surpreender-se com cada minuto da projeção e depois volte aqui. Para aqueles que decidirem continuar lendo, porém, fiquem tranquilos, pois essa crítica é completamente sem spoilers.

O 15º longa-metragem da Pixar fala de emoções e memória. Usando personificações das emoções Alegria (Amy Poehler, de Parks and Recreation), Tristeza (Phyllis Smith), Raiva (Lewis Black), Medo (Bill Hader) e Nojinho (Mindy Kaling), vemos a história da vida da menina Riley (Kaitlyn Dias) que vive com seus pais (Diane Lane e Kyle MacLachlan) em Minnesota. Ela é alegre, cheia de amigos e adora hóquei no gelo, mas, aos 11 anos, um evento catalisador da narrativa do filme acontece: eles se mudam para São Francisco.

Até esse ponto, aprendemos o “funcionamento” das emoções de Riley em um impressionante exercício de criatividade gráfica. Há um pouquinho mais de texto expositivo do que talvez o estritamente necessário, mas o deslumbramento visual causado pelo Centro de Comando onde vivem as emoções comandadas por Alegria e todos os seus desdobramentos são magníficos demais ao ponto de ser fácil perdoar as explicações que, aliás, são fundamentais para a boa compreensão da lógica interna da fita.

Quando a mudança ocorre, as regras que aprendemos logo antes começam a desmoronar e a ação realmente se inicia sem que haja qualquer solução de continuidade. E, o mais interessante, é que não há antagonista. Todo o roteiro é construído em cima de uma busca cheia de obstáculos e não com a contraposição de opostos completamente antagônicos. Nessa busca, focada em Alegria e Tristeza – esse é todo o “antagonismo” que vemos – passamos a, de queixo caído (reconheço meu uso exagerado de superlativos, mas o filme merece, confiem em mim) viajar pela imensidão da mente de Riley, sendo apresentados ao simpático Bing Bong (Richard Kind) e ao que acontece “de verdade” com nossas memórias. Fascinante, simplesmente fascinante.

Mas, da mesma maneira que o visual deslumbra – reparem na textura das emoções, na suavidade das esferas de memória – o roteiro nos manipula (no bom sentido), fazendo-nos transitar entre a alegria e a tristeza, o medo e a raiva. É fácil reconhecer-se ou lembrar de situações semelhantes que já vivemos vendo a ação se desenrolar em Divertida Mente. É como passear por nossa memória, como revisitar momentos perdidos lá no fundo de nosso cérebro. A animação é capaz de tocar profundamente qualquer um, por mais durão que seja, deixando um sorriso na boca e, até mesmo, quem sabe, aquela lágrima furtiva no canto do olho. Pete Docter e seu co-diretor Ronaldo del Carmen fazem o melhor uso possível da técnica, lembrando muitas vezes a doçura de Up – Altas Aventuras e o lirismo e surrealismo das obras de Hayao Myiazaki.

Kevin Nolting, responsável pela montagem, faz as transições de “dentro” para “fora” e de “fora” para “dentro” de maneira orgânica, natural, perfeitamente encaixadas no ritmo da narrativa, aproveitando-se ainda do detalhismo e do cuidado dos co-diretores em diferenciar os dois mundos também com o uso de cores. Elas são fortes e brilhantes no “interior” e pasteis e tons crescentemente mais escuros no “exterior”, refletindo a exata natureza do que se desenrola diante de nossos olhos.

Outro elemento essencial para a suavidade do trabalho é a trilha sonora de Michael Giacchino, que tenta – e consegue – ser muito mais atmosférica do que intrusiva, em um delicado equilíbrio que ele mantém até o final. E, da mesma forma que a música é claramente importante, Docter e del Carmen sabem usar o silêncio, gerando suspense ao eliminar a trilha em momentos chave de tensão, somente para elevá-la cirurgicamente.

Já mencionei com bastante ênfase o design geral da produção, mas pequei ao não falar do design de personagens e ele merece todo o destaque. Riley e seus pais ganham feições que mesclam o fotorrealismo com a caricatura, de maneira semelhante ao que vemos em Valente, demonstrando o quanto a computação gráfica evoluiu desde os idos de 1995, com os humanos “duros” de Toy Story. Mas o grande show fica mesmo por conta das emoções. Muitos dirão que é óbvio que Alegria deva parecer uma fada, toda iluminada e que Tristeza precisa ser azul e assim por diante. Mas, como diria Vincent Vega, o importante são as “pequenas diferenças” e elas são muitas aqui. Além da qualidade etérea purpurinada dos traços de cada emoção, suas posturas e os respectivos trabalhos de voz, além dos diálogos evocam exatamente o que precisam evocar e não só uma ou duas vezes, mas em todos os momentos em que elas estão em tela, que não são poucos. Em particular, o trabalho de voz de Phyllis Smith como Tristeza é irretocável, um misto de preguiça com fatalismo que é impagável do primeiro ao último minuto.

Para terminar, uma palavrinha sobre o 3D. A Pixar saber fazer uso da tecnologia, sem criar situações para jogar coisas na cara do espectador. Há sutileza em todo momento e um bom uso da profundidade de campo, exatamente como todo o 3D deveria ser, mas infelizmente não é. No entanto, mesmo assim, assistir Divertida Mente em 3D não é algo que reputo essencial e diria até que as cores vivas do filme saltarão mais à vista sem os óculos que escurecem a película.

Divertida Mente está lá facilmente no panteão das grandes animações e certamente é uma das melhores da Pixar que finalmente sai de seu perigoso sono profundo e mostra que, quando o estúdio quer, ele ainda é o melhor do mercado em computação gráfica.

obs: Misericordiosamente assisti ao filme no original em inglês, com legendas em português. Assim, não posso julgar a dublagem nacional.
.

Lava

estrelas 3,5

Lava é o curta-metragem musical em computação gráfica que antecede Divertida Mente e que foi originalmente mostrado no Hiroshima International Animation Festival, em 2014. O filme, dirigido e escrito (composto, melhor dizendo) por James Ford Murphy, animador veterano da Pixar que trabalha por lá desde Vida de Inseto, conta a inusitada história de um vulcão – sim, um vulcão! – solitário no Pacífico ao longo de milhões de anos.

Ele canta aos céus desejando uma companheira e é essa música que ouvimos pelas vozes de Napua Greig e Kuana Torres Kahele, ao som de um ukulele. Simplicidade e beleza são a chave desse pequeno filme que assombra por ser diferente e ao mesmo tempo tão bonito. Não há uma efetiva história aqui, apenas uma narrativa cantada com pouquíssimos acontecimentos que são também previsíveis. Murphy trabalha planos gerais verdejantes e tomadas espetaculares da força do vulcão e reúne os fragmentos com a canção que, porém, é mais falada do que cantada, faltando um pouco de ritmo.

De toda forma, Lava, com toda sua simplicidade, encanta e serve como perfeita introdução a Divertida Mente.

Divertida Mente (Inside Out, EUA – 2015)
Direção: Pete Docter, Ronaldo del Carmen
Roteiro: Meg LeFauve, Josh Cooley, Pete Docter
Elenco: Amy Poehler, Phyllis Smith, Richard Kind, Bill Hader, Lewis Black, Mindy Kaling, Kaitlyn Dias, Diane Lane, Kyle MacLachlan
Duração: 94 min.

Lava (Idem, EUA – 2014)
Direção: James Ford Murphy
Roteiro: James Ford Murphy
Elenco: Napua Greig, Kuana Torres Kahele
Duração: 7 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.