Crítica | Dívida de Honra

Homesman2

estrelas 5,0
A fotografia da terra inóspita. O desconforto é uma sensação árida e vazia estreitamente captada pelas lentes do diretor de fotografia Rodrigo Pietro neste novo filme dirigido por Tommy Lee Jones. Mesmo com uma centralização das imagens, existe algo para descompensar o quadro e causar a sensação de incômodo durante as sequências iniciais e isso diz muito sobre a personagem central.  A amplitude da terra é tão vasta que a solidão se torna a companheira mais sincera de Mary Bee Cuddy, interpretada de uma forma bastante controlada por Hilary Swank. Ela é uma mulher rígida e convicta de sua capacidade de prover por si mesma, mas ela tem a vontade sincera e se sente no dever de ter uma vida conforme prega o rosário, com marido e filhos para cuidar. Essa dualidade e frustração a tornam descompensada e a fotografia ajuda em transmitir isso com sutileza.

Considerado um dos últimos grandes filmes do gênero, Os Imperdoáveis, de Clint Eastwood pode muito bem marcar a singularidade desta história contada, desta vez, por vozes e berros femininos em dicotomia com os que vieram antes. Dívida de Honra tem a original capacidade de reacender as fagulhas do faroeste há muito conservadas em brasa, por conseguir impregnar a história de olhares destoantes e que conseguem se relacionar, a partir do estranhamento, com a concepção de mundo que existe hoje — ultimamente os filmes têm se desdobrado em histórias sobre mulheres fortes e este é um filme feito por homens com e para mulheres. E é interessante apontar que Cuddy não precisa ser constantemente livre de dúvidas e fragilidades para demonstrar força.

A trama ganha impulso com a convocação da pequena sociedade por um “Homesman”, um homem de confiança, alguém que preza pelo bem da comunidade para transportar três mulheres de Nebraska para Iowa. Mas não é um homem que assume a tarefa. O desgaste da vida no Velho Oeste, em 1885, é o cenário que incorpora a loucura vivida por essas mulheres. Aqui as cenas são inesperadas e impactam com força. Não há espaço para explicações mastigadas e reincidentes, como de costume em roteiros de Hollywood. O vazio é o que diz mais, como se esta fosse uma história com vários pedaços de páginas em branco entre um ponto e outro. Esse respiro na narrativa é também o que entrega a impressão de sufocamento, que é uma constante figura no filme.

Como diretor, Tommy Lee Jones, se debruça em detalhes e minúcias cheios de poesia e silêncio, como em uma das cenas em que Cuddy lava roupa no meio do deserto e a cena corta para o varal improvisado em cima da carroça. Uma cena simbólica e que faz reverência ao gênero é a de George Briggs, interpretado pelo diretor, preso ao tronco de uma árvore com um pedaço de corda em volta do pescoço e um cavalo pronto para se mover e enforcar o homem desprovido de honra, aos olhos da sociedade.

As cenas com as três atrizes vêm como um susto puxar o espectador para a realidade sofrida e brutal da loucura enraizada nos olhos delas, que sufocam as vozes de quem eram para dar lugar a gemidos e gritos desconcertantes. A vida é apagada delas. Elas se tornam parte da paisagem hostil. Por conta do ambiente inóspito, a sobrevivência versus a decência humana é um dos temas explorados, algo notável na cena em que Briggs toma um abrigo que guardava o defunto de um índio, para se proteger do frio. Em contrapartida existe uma doçura na confiança de Cuddy, advinda da fé, que a faz ter compaixão das mulheres pelas quais se tornou responsável. Dar de beber a uma boneca com um dedal é um detalhe muito gracioso.

É esta peculiar beleza trançada na narrativa dolorosa que arrebata o espectador. As rasteiras da vida e os tropeços aqui e ali vão dando forma ao caminho percorrido por este grupo de pessoas com diferentes histórias, mas com algo em comum: a humanidade.

Dívida de Honra (The Homesman, EUA e França – 2014)
Diretor: Tommy Lee Jones
Roteiro: Tommy Lee Jones, Kieran Fitzgerald e Wesley A. Oliver baseado no livro de Glendon Swarthout
Elenco: Tommy Lee Jones, Hilary Swank, Grace Gummer, Miranda Otto, Sonja Richter, Meryl Streep, Jo Harvey Allen, Barry Corbin, David Dencik e William Fichtner, entre outros.
Duração: 122 min.

GABRIELA MIRANDA . . . Cinéfila inveterada, sigo a estrada de ladrilhos amarelos ao som de Jazz dos anos 20 enquanto escrevo meu caminho entre as estrelas. Com os diálogos de Woody Allen correndo soltos na minha cabeça, me pego debatendo entre gostar mais do estilo trapalhão ou de um tipo canalha de personagem. Acima de tudo, acredito que tenho direito de permanecer com minha opinião. Mas acredite, nada do que eu disser poderá ser usado contra os filmes.