Crítica | Dívida de Sangue (1965)

estrelas 3

Elliot Silverstein, que até então só havia trabalhado na televisão, entra no mundo do cinema apostando no western. Sua abordagem do gênero, já em seu período crepuscular, contudo, não foi nada convencional. Ao invés de nos trazer o velho bang-bang, Silverstein decide criar uma mistura de drama, filme histórico, comédia e musical. O resultado foi contemplado com uma série de nomeações ao Oscar e Lee Marvin acabou levando a estatueta de melhor ator coadjuvante pelo seu papel como Kid Shelleen/ Tim Strawn. Mas olhando agora para trás, será que essa mistura, de fato, funcionou?

A princípio a resposta é difícil de se dar. Passamos grande parte da projeção em um grande estranhamento, como se a obra vagasse por diferentes gêneros, mas sem encontrar sua real linguagem. Ainda assim, essa heterogeneidade não é o suficiente para nos afastar, em geral graças a distintos elementos presentes desde os minutos iniciais da narrativa.

Começamos já sabendo que esse não é o faroeste comum quando a mulher-símbolo da Columbia pictures ganha vida e se torna uma cowgirl que começa a atirar. De imediato pulamos para Nat King Cole e Stubby Kaye cantando a música tema do longa-metragem, a balada de Cat Ballou. Os dois músicos atuam como narradores em diversos pontos do filme, funcionando como bem posicionadas elipses ao longo da história de Cat Ballou (Jane Fonda), uma jovem professora que se se torna fora-da-lei após seu pai ser assassinado, em uma espécie de vingança desenfreada. Para isso conta com a ajuda de Clay Boone (Michael Callan), Jed (Dwayne Hickman), o índio Jackson (Tom Nardini) e o cômico Kid Shelleen.

Mesmo nos momentos mais dramáticos, o lado cômico da obra nos impede de termos nossos espíritos abaixados. Tal característica acaba prejudicando nossa identificação com os personagens e, ironicamente, acaba tirando grande parte da graça das gags presentes na narrativa. Alguns momentos conseguem, de fato, tirar algumas risadas do espectador, mas, durante a maioria da projeção, permanecemos em uma constante apatia em relação ao longa.

Essa ênfase em um tom menos pesado acaba prejudicando, também, os personagens, que acabam soando rasos demais – inclusive a própria Ballou. Kid Shelleen é o único a ganhar um maior destaque dentre os coadjuvantes, mas esse foco soa fora do lugar, como se inserido de última hora no roteiro, criando um distinto estranhamento no espectador, especialmente quando, após uma aparente evolução, o personagem volta aos seus modos decadentes.

O roteiro de Dívida de Sangue, porém, funciona no âmbito de homenagem que faz ao gênero western. Através de citações de outros personagens, como Jackson acerca do General Custer, ou aparições de notáveis figuras, como Butch Cassidy, vemos diferentes pontos do faroeste serem referenciados. Além disso, a construção desse tom de decadência do Velho Oeste é evidente e mais de um indivíduo fala abertamente sobre essa situação. Kid Shellen, por sua vez, é um desses elementos em decadência, representando os velhos cowboys que entraram em extinção após a chegada da modernidade.

Elliot Silverstein ainda chama a atenção em sequências específicas, em especial à dança nos minutos iniciais do longa. Realizada em plano-sequência vemos um sólido trabalho de direção, envolvendo diversos personagens e uma coreografia precisa, rapidamente divertindo o espectador. O mesmo vale para a posterior briga de bar que, de forma cômica se insere no meio da narrativa, optando por planos bem intercalados que definem um ótimo trabalho de montagem que se mantém ao longo do filme.

Dívida de Sangue é uma obra repleta de altos e baixos. Conta com seus evidentes problemas de tom, mas acaba nos divertindo, em especial pelo sólido trabalho de Lee Marvin. Trata-se de um bom retrato do fim do velho Oeste, construído de forma nada convencional. Com ótimas melodias, pode não ser o melhor exemplar do gênero, mas vale a experiência.

Dívida de Sangue (Cat Ballou – EUA, 1965)
Direção: 
Elliot Silverstein
Roteiro: Walter Newman, Frank Pierson
Elenco: Jane Fonda, Lee Marvin, Michael Callan, Dwayne Hickman, Nat ‘King’ Cole, Tom Nardini, John Marley
Duração: 97 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.