Crítica | Divines

estrelas 4

Distribuído pela Netflix sob o selo de Netflix OriginalDivines é o segundo longa-metragem da diretora Houda Benyamina, que lida com as extremamente difíceis condições de vida pelas quais passam alguns cidadãos franceses, que moram em conjuntos habitacionais ou favelas nos arredores de Paris. Temos aqui uma visão que foge do glamour que estamos acostumados a ver quando se trata da capital da França, um olhar aprofundado sobre a pobreza e o violento caminho que algumas pessoas optam por trilhar a fim de conseguirem ter o que querem na vida. Apesar de se situar em um país europeu, o que vemos aqui não está nem um pouco distante de nossa própria realidade.

Dounia (Oulaya Amamra) é uma jovem moradora nessas condições, islâmica, ela tem aulas, junto de sua amiga Maimouna (Déborah Lukumuena) de atendimento, para se tornar uma recepcionista, uma das poucas aspirações que a sociedade lhe oferece. Cansada dessa falta de perspectiva, ela decide entrar na vida do crime, passando a  trabalhar, arrastando Maimouna junto, para a traficante Rebecca (Jisca Kalvanda), que prontamente as acolhe. Pouco sabia, contudo, da violência que encontraria nesse ramo, algo que não foi facilitado pela sua forte personalidade. Dito isso, tudo traz suas consequências e Dounia descobriria tarde demais quais essas seriam.

Um dos aspectos mais perturbadores de Divines é a forma realista como aborda todo esse segmento da sociedade. Embora seja rebelde e bastante independente, conseguimos facilmente visualizar a protagonista como uma das muitas jovens em nosso mundo e sua entrada nessa vida do crime soa extremamente natural. O trabalho de Oulaya Amamra, naturalmente, rapidamente nos aproxima de sua personagem e o roteiro demonstra uma verdadeira preocupação em construí-la. Infelizmente, o mesmo não pode ser dito dos outros personagens, que são demonstrados de forma bastante unilateral, sempre diretamente ligados à protagonista, como se não existissem sem ela. Evidente que o foco permanece sempre em Dounia, mas não custava trabalharem com mais cuidado sua melhor amiga.

Por outro lado, o roteiro faz o ótimo trabalho de deixar tudo no território da imprevisibilidade, algo garantido pela própria personalidade da personagem principal. Jamais sabemos o que irá acontecer a seguir e a jornada toda da protagonista parece ser feita exclusivamente na base do improviso. Isso sem falar no impactante paralelo criado entre ela e o dançarino Djigui (Kevin Mischel), que representa o que ela poderia se tornar caso não optasse pelo “caminho mais fácil” (que de fácil não tem nada, na verdade, é apenas mais rápido). Através disso, vai se construindo um forte clima de tristeza, ao passo que enxergamos que dificilmente veremos um final feliz ao término do longa-metragem.

Esse fator é constantemente colocado em evidencia través da trilha sonora, que utiliza a música clássica, especialmente a ópera (e o trecho Lacrimosa do Requiem de Mozart) a fim de realçar toda a dor que Douna sente dentro de si e para onde esse caminho a está levando. Uma emblemática sequência a coloca em uma banheira, preenchida por notas de euro, algo que é exibido não como uma conquista, mas na intenção de causar uma certa repulsa no espectador, tornando cada vez mais nítido a diferença da personagem do início para o final do filme. Vale ressaltar, porém, que a obra faz toda essa comparação sem, jamais, realizar julgamentos, apenas demonstra a realidade de forma nua e crua.

Divines é um daqueles longa-metragens que deixam a audiência pesada após o término da projeção, uma jornada angustiante, que se livra de julgamentos e qualquer floreio. Embora conte com personagens rasos, à exceção da protagonista, sua narrativa consegue nos envolver de imediato e, por mais que seja localizada na França, a história reflete aquela de muitos jovens ao redor do mundo, inclusive o nosso próprio país. Tudo traz suas consequências e o caminho mais curto definitivamente irá trazer a maior delas.

Divines — Catar/ França, 2016
Direção:
 Houda Benyamina
Roteiro: Houda Benyamina, Romain Compingt, Malik Rumeau
Elenco: Oulaya Amamra, Déborah Lukumuena, Kevin Mischel, Jisca Kalvanda, Yasin Houicha
Duração: 105 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.