Crítica | Divinos Segredos

Divinos Segredos é um filme intenso. No lugar das reflexões obtidas por meio de arroubos silenciosos, temos personagens verborrágicos que estão, a todo instante, durante os 116 minutos de duração, prontos para ação: enquanto mãe e filha travam uma batalha que envolve mágoas, ressentimentos e “repetições”, os coadjuvantes buscam alternativas de fazê-las compreender as bases que ergueram as suas respectivas histórias, tendo em vista encontrar o bálsamo necessário para a cicatrização das feridas.

Dirigido por Callie Khouri, profissional do ramo que possui trabalhos interessantes, dentre eles, o roteiro de Thelma & Louise, Divinos Segredos é um drama com carga emocional bastante feminina. Trocando em miúdos: as protagonistas e as coadjuvantes, em sua maioria, são mulheres. Os homens aparecem e possuem importância, mas o ponto nevrálgico mesmo é a relação de amor e ódio entre Siddallee Walker (Sandra Bullock) e a sua mãe, a dramática e intensa Vivian (Ellen Burstyn).

O ponto de partida para a jornada de reconciliação ocorre depois que a filha, ao perceber que foi sabotada por uma jornalista durante uma entrevista para divulgação de sua peça de teatro, divulga informações deturpadas da relação de ambas durante determinado momento do passado, uma época muito difícil para a família Walker, desestruturada por conta de um desequilíbrio emocional de Vivian. O que a dramaturga (igualmente dramática) possui de referência do passado está numa zona nebulosa, pois muita coisa ficou no terreno do interdito na época.

Diante da situação exposta, as amigas inseparáveis de sua mãe armam um plano para sequestrar Siddallee e leva-la para o interior, tendo em vista apresentar os motivos que fizeram a sua mãe aparentemente rejeitar a família no passado. É a partir daí que a moça começa a compreender o que aconteceu e trabalhar o exercício do perdão. O grupo é divertido e composto por mulheres de características fortes: Teensy (Fionnula Flanagan), Necie (Shirley Knight) e Caro (Maggie Smith). No passado elas formaram a Irmandade Ya-Ya, reunião que as tornou inseparáveis, a ponto de tornarem-se capazes de conhecer profundamente as proezas e fraquezas que compõe as suas personalidades.

O trio faz questão de introduzir Siddallee no túnel do tempo por meio de um álbum de fotos da fraternidade. Assim, a filha que age constantemente de maneira a impedir que o presente se desdobre, haja vista seu apego ao passado e ao que acha que sabe, iniciará uma jornada que lhe permitirá aprender a repelir o medo de repetir os erros da sua mãe com a família que o seu noivo, o paciente e calmo Connor (Angus Macfadyen) quer construir.

A postura de Siddallee e Vivian, em muitos momentos, nos remete ao que Freud traz no elucidativo Para Além do Princípio do Prazer, publicado em 1920, texto que ilustra a relação entre compulsão e repetição como evento que busca dar conta de um processo inconsciente que, segundo o psicanalista, o individuo não consegue controlar e que constantemente é levado a repetir sequências para resolvê-las, numa busca incessante por reelabora-las. Em momento algum do filme há menção aos elementos da psicanálise, nem creio que seja o caso do projeto da produção, mas como obra aberta, o filme permite o desenvolvimento desta reflexão.

Narrado por meio de muitos flashbacks, Divinos Segredos beira ao monótono em alguns instantes, mas o brilhantismo do elenco e os elementos visuais dessa jornada constante ao passado não deixam o ritmo de se perder. A direção de fotografia de John Bailey enquadra com cuidado a paisagem e a beleza dos elementos que compõem o design de produção assinado por David J. Bomba, num festival de imagens já imaginadas no roteiro esquemático, mas doce e bem humorado, escrito por Mark Andrews, inspirado no romance homônimo de Rebecca Wells.

Lançado em 2002, Divinos Segredos é um drama que emociona e oferta ao espectador uma história sempre atual. O filme não aprofunda, mas nem sempre é preciso sair tanto da superfície para conseguir atingir os propósitos desejados, afinal, como foi dito por um crítico na época do lançamento, nem toda produção sobre relacionamentos tempestuosos entre mãe e filha tem que ser complexo como Sonata de Outono, de Bergman.

ivinos Segredos — (Divine Secrets of The Ya-Ya Sisterhood) Estados Unidos, 2002.
Direção: Callie Khouri
Roteiro: Callie Khouri, Mark Andrus
Elenco: Angus Macfadyen, Ashley Judd, Ellen Burstyn, Fionnula Flanagan, Jacqueline McKenzie, James Garner, Katy Selverstone, Kiersten Warren, Maggie Smith, Sandra Bullock, Shirley Knight
Duração: 116 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.