Crítica | Divorce – 1ª Temporada

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estrelas 4

Tentações pelo caminho. Dedicação aos filhos e baixo ritmo de relações sexuais. A passagem do tempo que pode revigorar a mente (hipótese), mas envelhecer o corpo (certeza). São tantos os possíveis problemas a se enfrentar num relacionamento conjugal que hoje em dia a afirmação bíblica, segundo a lógica católica, não se sustenta mais: “o que Deus uniu, o homem não separa”. Será?

Não é isso que a mídia nos mostra constantemente, principalmente quando divulga os divórcios mais cobiçados pelas capas de revistas nas últimas décadas, tais como Steven Spielberg e Amy Irving, Príncipe Charles e Lady Diana, Angelina Jolie e Brad Pitt, etc. A separação destes ícones rendeu tantas bobagens em tabloides, mas muito além disso, criou uma rede de descontentamento e desconfiança na instituição do casamento.

O cinema já investiu bastante: O Clube das Desquitadas, Kramer versus Kramer, O Amor Custa Caro, Filhos do Divórcio, Simplesmente Complicado, etc. Estas produções, geralmente, nos mostram as celeumas do rompimento legal de um casamento, pois geralmente envolvem a regulação do poder paternal, pensão alimentícia, partilha de bens, etc.

Em Divorce, comédia dramática, a celeuma da separação não poderia ser diferente. A cena inicial é emblemática: um casal visita uma festa de outro casal supostamente feliz, observa o caos da relação alheia e decide mudar os rumos da sua própria convivência conjugal, tendo em vista o modelo como espelho para reflexão da sua realidade. Quem já viveu uma relação conflituosa ou enfrentou algum turbilhão no casamento sabe exatamente do que estou falando e consegue compreender muito bem os primeiros momentos de Divorce, nova parceria da HBO com a inspiradora Sarah Jessica Parker, mulher responsável por representar as celeumas do amor, do casamento e da mulher do século XXI.

Criada por Sharon Horgan, a primeira temporada da série teve 10 episódios de 30 minutos e nos apresentou os problemas do casal Frances (Parker) e Robert (Thomas Haden Church). A epifania no que diz respeito ao divórcio se apresenta justamente neste evento de abertura, mas se propaga no decorrer do episódio piloto. Frances está envolvida com um professor universitário e repleta de incertezas, precisa lidar com o casamento caótico chegando ao limite e o caso extraconjugal que não parece muito interessado em fincar raízes.

O problema é que quando as coisas parecem ganhar um rumo civilizado, Robert descobre a traição. Tomado pela ira, transforma a vida de Frances num verdadeiro inferno na terra. Inicialmente o humor brota do desconforto das situações, para mais adiante, assumir uma feição mais leve, mas não menos desagradável. Vantagem disso tudo: fugir da escatologia (citada apenas em um momento, mas oportuno e cabível) e do riso fácil, aliado ao preconceito típico das comédias contemporâneas.

Divorce é uma série que emite múltiplas possibilidades no que diz respeito ao seu funcionamento no esquema televisivo. Muitos investimentos ficcionais já foram realizados dentro desta temática, o que deixa a série sem o poder da “novidade”, vocábulo infame que fez alguns produtores forçarem a barra ultimamente. Outra questão é o seu ritmo. Se você gosta unicamente de séries “velozes” e “furiosas”, cheia de truques de montagem, tais como How To Get Away With Murder ou Damages, talvez Divorce não seja o entretenimento ideal: o divórcio entre você e a série, no entanto, é iminente.

O ritmo da série é reflexivo, um pouco letárgico, ideal para o público pensar adequadamente e decidir de qual lado vai ficar, afinal, a trama é construída com tanto cuidado que não deixa espaço para maniqueísmo. Ora você torce por Frances, mulher dedicada, que sempre trabalhou fora e dedicou-se a manter a casa enquanto o marido ficava tomando conta dos filhos e saboreando as delícias do tradicionalismo familiar. Por outro lado, Robert apresenta uma natureza delicada, de um homem amoroso e cuidadoso, pois mesmo diante das tentações de uma amante, preferiu ser fiel ao casamento.

É interessante observar que desde Sex and The City, Sarah Jessica Parker não emplacou papeis muito relevantes. Os filmes baseados na série foram irregulares, as comédias românticas sempre abusaram dos mesmos papeis, reprisados exaustivamente. Em Divorce, a atriz teve a chance de mostrar novamente o seu talento dramático, mesmo que a sua personagem seja mais uma variação da inesquecível Carrie Bradshaw.

Num evento realizado pela Associação de críticos de TV dos Estados Unidos, Parker alegou que “desde o primeiro momento que eu li o roteiro do episódio piloto, percebi que ela era tão diferente não apenas de Carrie, mas de qualquer outra personagem que já interpretei”. De fato, o personagem é diferente, mas as aproximações com Sex and The City são inevitáveis. Esta questão, entretanto, não é um problema, ao contrário, potencializa o texto da série. Os diálogos gaguejados e as pausas comuns ao “estilo Carrie de ser” estão presentes. A sua maneira de ver o amor, por sua vez, é outra, mas não deixa de ser um desdobramento das aventuras em Nova York no final dos anos 1990 para a primeira metade dos anos 2000.

Por falar em personagens, cabe ressaltar que em Divorce, todos são bem desenvolvidos: não espere o glamour de Carrie, tampouco o jeitão caipira fracassado comum aos papeis de Sarah Jessica Parker e Thomas Haden Church, respectivamente, ao contrário, na série eles são esboçados distantes dos perigos da caricatura, para ao passo que a narrativa avança, desenvolverem-se brilhantemente. São criaturas inteligentes, carismáticas e realistas. A identificação é inevitável, principalmente se você é casado, divorciado, separado ou já viveu/vive uma situação conflituosa como protagonista ou como mero espectador. O núcleo gravitacional também é eficiente, sem nenhum personagem coadjuvante vacilante ou desnecessário.

A seara estética consegue adequar-se bem ao clima: o figurino é discreto, as cores frias da cenografia e a cuidadosa direção de fotografia com os seus filtros reforçam que estamos diante de uma situação pouco agradável. Na reta final, a série nos engana, pois acostumados ao esquema hollywoodiano dos finais felizes, levamos um soco no estômago com o desfecho desta primeira temporada. Quem levou a melhor? Quem saiu perdendo as suas apostas iniciais? Para saber, caro leitor, será preciso assistir.

Divorce – 1ª Temporada (EUA, 2016)
Showrunner: Sharon Horgan
Direção: Jesse Peretz, Ben Taylor, Adam Bernstein, Jamie Babbit, Beth McCarthy-Miller
Roteiro: Sharon Horgan, Paul Simms, Patricia Breen, Cindy Chupack, Tom Scharpling, Adam Resnick, Hayes Davenport, Gabrielle Allan, Jennifer Crittenden
Elenco: Sarah Jessica Parker, Thomas Haden Church, Molly Shannon, Talia Balsam, Tracy Letts, Sterling Jerins, Charlie Kilgore, Jemaine Clement, Alex Wolff, Dean Winters, Jeffrey DeMunn, Yul Vazquez
Duração: 30 minutos (10 episódios)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.