Crítica | Django Livre (Trilha Sonora Original)

estrelas 4,5

Obs: Leiam as críticas dos filmes dirigidos por Tarantino, aqui e das trilhas sonoras de seus filmes, aqui.

Já vem de anos o desejo de Quentin Tarantino de dirigir um faroeste. Ele finalmente se realizou em dois de seus projetos recentes, Django Livre e Os Oito Odiados. Este último foi seu primeiro longa com trilha sonora composta originalmente, mas seu faroeste com Jamie Foxx também já trazia algumas composições próprias. O resultado é uma salada de frutas musical que se destaca como a mais diversa da carreira de Tarantino.

Com o protagonista negro, é de se esperar que a trilha refletisse sua cultura – tal como foi o caso na trilha de Jackie Brown. O rap, blues e soul marcam forte presença aqui, incluindo no cada vez mais frequente anacronismo nos filmes de época de Tarantino (vide David Bowie em Bastardos Inglórios). A começar com 100 Black Coffins, composição original de Rick Ross e do próprio Jamie Foxx, um rap nervoso com batidas eletrônicas que representa o primeiro choque cultural do espectador; em pleno campo do sul escravagista dos EUA, vemos uma carruagem pelo por do sol ao som de um rap. É um dos primeiros momentos de autonomia de Django.

O segundo, provavelmente o favorito da maioria, é quando o protagonista encontra-se em um sangrento tiroteio na propriedade do vilão Calvin Candie. A música em questão é um remix esperto de The Payback, de James Brown, e Untouchable, de 2Pac, que explode quando o ex-escravo ganha vantagem no conflito – até então desenrolado sem qualquer tipo de trilha sonora. É realmente poderoso vê-lo chutar bundas o ao som de dois dos grandes nomes da música negra da História dos EUA, em dois estilos completamente diferentes que se unem com incrível naturalidade; aplausos para o mixador.

Mas, claro, Django Livre ainda é um faroeste. Como não poderia ser diferente, Tarantino traz novamente seu ídolo Ennio Morricone para a trilha. Temos composições como The Braying Mule, Sister Sarah’s Theme (de Os Abutres têm Fome) e Un Monumento (esta, de Os Cruéis) para distintos momentos. A primeira nos apresenta à comicidade do Dr. King Schultz, e o senso de estranhamento dos habitantes de uma vila ao verem Django montando um cavalo pela primeira vez; a segunda nos traz um dos inesperados momentos chocantes do longa, ao trazer Django testemunhando a tortura de sua esposa; e o terceiro nos oferece quase que uma marcha fúnebre de honra para a última cena de Django e Schultz, com um crescendo que atinge a glória no encontro de Django com a esposa. Morricone também empresta seus dons para Ancora Qui, música original que compôs em italiano com a cantora Elisa. Pena que o resultado é esquecível, além de servir como “enfeite” para uma cena em que as empregadas de Candie arrumam a mesa de jantar.

Voltando a falar em composições originais, outras duas peças notáveis marcam presença aqui. Freedom, de Anthony Hamilton e Elayna Bolton, abraça o soul e o R&B para a sequência do flashback, onde acompanhamos a fuga de Django e Bruhmilda, alcançando resultados dramáticos. Já Who Did that to You? traz John Legend em ótima forma com uma balada empolgante que evoca até mesmo o gospel para ilustrar musicalmente a reviravolta de Django com os comerciantes australianos, assim como a letra que alerta para a chegada da polícia e da justiça quando encontrar o responsável, tal como é a situação de Django, partindo para resgatar sua esposa. Surgindo em meio à neblina como o Estranho sem Nome de Clint Eastwood e cavalgando ao som da música de Legend, ficava a constatação de que nascia ali um dos grandes heróis do cinema contemporâneo.

Por fim, temos outras faixas que certamente merecem menção. De início, literalmente, Djangoa canção-tema de Luis Bacalov para o longa Django de Franco Nero, já embarca o espectador durante os créditos iniciais. É uma canção agitada e até divertida, sendo contrastante vê-la justamente com uma marcha de escravos; uma introdução fascinante para nosso protagonista. Ainda sobre introduções, é de uma tamanha coincidência (ou não) que His Name was King, novamente de Bacalov – mas agora com Edda Dell’Orso – sirva como uma luva para o Dr. King Schultz após sua excepcional escapada do saloom com o xerife.

Single lançado em 1973 de Jim Croce para o longa O Importante é VencerI Got a Name é um folk rock divertido e agradável de se ouvir, sendo a escolha perfeita para a sequência que constrói a amizade de Django e Schultz. Seguindo a progressão da história, I Giorni Dell’ira, composição de Riz Ortolani para o italiano Dias de Ira trabalha a construção da parceria entre os protagonistas, e a evolução das habilidades de pistoleiro do ex-escravo; com uma guitarra nervosa, é a clássica trilha de bangue bangue. A chegada de Django e Schultz à Candyland também rende uma escolha brilante, com Nicaragua, do mestre Jerry Goldsmith para Sob Fogo Cerrado, uma trilha abstrata e que faz um uso peculiar de sua flauta. Acerta o tom para a atmosférica sequência de entrada, assim como a revolta de Stephen ao ver Django pela primeira vez.

A trilha sonora de Django Livre é uma viagem de diferentes estilos e culturas em único álbum, só não levando a nota máxima pela decepcionante canção de Morricone. Fica agora a antecipação para ver o mestre retornar em Os Oito Odiados.

Django Unchained (Original Motion Picture Soundtrack)

Compositor: Various Artists
Gravadora: Universal Republic/Loma Vista
Ano: 2012
Estilo: Hip/Hop, Soul, Trilha Sonora

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.