Crítica | Do Fundo do Mar 2

Do Fundo do Mar 2 é uma sequência ou refilmagem? Antes mesmo de assistir ao trailer, me indaguei ao perceber que quase todas as cenas apresentadas tinham elementos do filme antecessor, o divertido e bem conduzido Do Fundo do Mar, lançado em 1999, isto é, há quase 20 anos e com efeitos especiais bem mais interessantes que esta continuação. Diante da quantidade de filmes do subgênero lançados nos últimos anos, devo dizer que a produção em questão consegue ser um pouco melhor.

Esqueça os absurdos de Sharknado, Tubarões da Areia, Tubarão Fantasma e filmes da linhagem trash: Do Fundo do Mar 2 pretende ser um filme sério, mas o roteiro escrito pelo trio formado por Erik Patterson, Hans Radionoff e Jessica Scott falha ao se prender demais no filme de 1999 e não se guiar em outras possibilidades. A direção de Darin Scott tenta fazer alguma coisa, mas a produção em geral já nasceu fadada ao fracasso. A abertura, na verdade, é o que tem de mais interessante, pois as discussões que empreende no espectador vão além da narrativa fílmica.

Antes de sermos apresentados ao laboratório subaquático, onde a especialista Misty Calhoun (Danielle Savre) descobrirá os desdobramentos da pesquisa realizada pelo magnata Dr. Caril Durant (Michael Beach), tendo em vista testes com tubarões-touro, espécie conhecida pela mordida mais impactante de todos os tubarões, o filme apresenta um grupo de pescadores massacrando tubarões durante uma pesca, numa prática condenada mundialmente, conhecida por finning, isto é, a retirada das barbatanas do tubarão para fins comerciais.

No livro Sobre Homens e Tubarões, Gabriel Ganme revela que durante a Dinastia Sung, algo entre 960 e 1279, um seleto grupo da elite chinesa consumia um gelatinoso macarrão feito a partir da cartilagem das nadadeiras de tubarões. Certa vez, um almirante chinês chamado Zhing Me, ao retornar de uma viagem da África, trouxe centenas de quilos de barbatanas, o que tornou a sopa bastante popular nos banquetes ofertados pela elite dominante. Séculos depois, com o estabelecimento do Partido Comunista Chinês, em 1949, a sopa foi banida, desaprovada por ser uma iguaria da elite. Reabilitada depois que Deng Xiaoping criou reformas econômicas que permitiram a ascensão da elite e a emergência de uma nova classe média, a iguaria ganhou notoriedade mais uma vez, presente constantemente nos jantares de negócios e demais eventos chineses.

Digressão interessante, não? Mas agora, de volta ao filme, menos interessante. Ao longo dos 94 minutos, saberemos que o bilionário Carl Durant é o empreendedor de experimentos com tubarões-touro numa pesquisa interessada em criar uma droga que seja capaz de modificar a estrutura do cérebro. Os problemas começam quando o experimento sai de controle e os tubarões se libertam, espalhando o terror na estação de pesquisa. Há, inclusive, um nadador especializado em se relacionar com as espécies estudadas, Trent Slater (Rob Mayes), outro ponto de contato com o filme anterior, o que nos faz questionar ser uma sequência ou refilmagem.

Desta vez, esqueça as criaturas gigantescas: uma fêmea vai parir filhotes que possuem destreza e força além do habitual na espécie, o que leva Do Fundo do Mar 2 ao encontro de Piranha, com muitas mortes off screen, ajudadas pela edição de Michael Trent, juntamente com a condução musical de Sean Murray, ambos profissionais que não conseguem fazer muita coisa com o material disponível.  Captado pela direção de fotografia de Thomas L. Callaway, o ambiente claustrofóbico é até interessante, mas a escolha por tubarões filhotes ajudou o filme a afundar mais do que o esperado. O que fica como lição é a tentativa dos humanos em lucrar demasiadamente com a natureza. Os pescadores que praticavam finning na abertura do filme pagaram um preço alto por isso.

Do Fundo do Mar 2 — (Deep Blue Sea 2) Estados Unidos, 2018.
Direção: Darin Scott
Roteiro: Erik Patterson, Hans Rodionoff
Elenco: Danielle Savre, Darron Meyer, Michael Beach, Rob Mayes, Nathan Lynn, Lily Spangenberg
Duração: 94 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.