Crítica | Do Fundo do Mar

estrelas 4

Para os que não sabem 08 de junho é o Dia Mundial dos Oceanos. Durante os congressos e palestras realizados para travar encontros entre profissionais e estudantes da área, especialistas afirmaram que “o fundo do mar é mais desconhecido que o solo lunar”. Essa alcunha de desconhecido leva ao medo que muita gente possui deste espaço misterioso e aparentemente sombrio. È lá que habitam criaturas perigosas e pouco conhecidas, tal como as várias espécies de tubarões, um dos segmentos do reino animal que mais ganhou versões cinematográficas.

Após o hiato entre a última sequência envolvendo a família de Martin Brody, em 1987, alguns filmes foram produzidos esporadicamente, mas nenhum deles ganhou a projeção da produção australiana Do Fundo do Mar, o melhor filme sobre tubarões desde a produção de Steven Spielberg.  Dinâmico, divertido e honesto com a sua proposta relativamente exagerada, mas cabível como metáfora para as questões contemporâneas sobre Bioética e Direito Animal, assuntos que fazem parte da pauta do dia nas áreas em questão.

No filme Do Fundo do Mar, o laboratório Aquatica, usado para guardar aviões durante a Segundo Grande Guerra Mundial agora é base para a pesquisa avançada da Dr. Suzan McAlester (Saffron Burrows), uma pesquisadora que cria tubarões da espécie Mako. Os animais deste segmento são encontrados em mares tropicais e temperados, podem chegar aos 4,5 metros de comprimento e pesar cerca de 580 quilos. Assustador, não? É o mais rápido dos tubarões, um exímio nadador, capaz de alcançar 88 km/h. Embora se alimente de outros animais marinhos, a periculosidade é questionável.

De acordo com as pesquisas desenvolvidas no projeto, há uma proteína do cérebro dos tubarões que pode curar milhares de pessoas com o Mal de Alzheimer. O problema é que um dos tubarões fugiu e quase atacou uma embarcação com jovens encalços, mas um membro da equipe conseguiu contornar a situação. Em partes, afinal, Russel Franklin, um magnata investidor, deseja ver de perto os meandros da pesquisa, deslocando-se para Aquatica para atuar com a equipe de trabalho que ainda conta com o mergulhador Carter Blake (Thomas Jane), o cozinheiro caricato Preacher (LL Cool J) e os cientistas Janice Miggins (Jacqueline McKenzie) e Jim Withlock (Stellan Skarsgard).

A equipe de cientistas, por sua vez, parece ter esquecido que em 27 de janeiro de 1978, em Bruxelas, foi assinada a Declaração Universal dos Direitos dos Animais. Ao mexer no DNA dos tubarões, tendo em mira aumentar o tamanho dos seus respectivos cérebros, e por sua vez, a quantidade de enzimas para a pesquisa, eles quebram códigos de ética em nome da ambição profissional, com consequências devastadoras, haja vista a capacidade dos animais em elaborar um estratégias de ataque, além da estrutura física: eles tornaram-se maiores e mais mortais.

Se o problema ético coloca as dimensões psicológicas dos personagens em reflexão, a tempestade que acomete o local, bem como um terrível acidente de helicóptero, fazem a dimensão física de cada um ter que trabalhar juntamente com o raciocínio. A unidade afunda a cada minuto, colocando todos em risco de afogamento, entretanto, muito pior que isso, é a liberdade dos três tubarões em cativeiro, ferozes e mais mortais, donos do jogo de caça que se estabelecerá a partir de então na condução dos conflitos narrativos.

Dentre os elementos que tornam Do Fundo do Mar mais interessante que os outros filmes que tentam emular as fórmulas do clássico dos anos 1970 é a forma como a narrativa se organiza. Há diálogos de efeitos, frases prontas, situações absurdas, mas o clima claustrofóbico e a intensidade do terror ecológico ganha projeção, seja pela música bem composta de Trevor Rabin ou (muito mais) pela direção de Renny Harlin, geralmente irregular em outros trabalhos, mas muito eficiente nesta aventura.

Lançado em 1999, o filme chegou em uma época que não se falava mais sobre estas “feras assassinas”, pois o ecoterror estava mais envolvido em filmes sobre crocodilos. Dirigido com eficiência por Renny Harlin, cineasta responsável por filmes como Duro de Matar 2 e A Hora do Pesadelo 4, o roteiro desta nova incursão sobre tubarões foi escrito à seis mãos: Donna Powers, Wayne Powers e Duncan Kennedy, este último, convidado em 2012 para um dos tratamentos de Isca, outra produção relativamente interessante dentro deste subgênero responsável por entregar filmes bastante questionáveis.

Na seara das homenagens, coincidência ou não, os três tubarões morrem tal como os primeiros filmes da franquia “original”. Um explode (Tubarão), outro é eletrocutado (Tubarão 2) e o outro incinerado (Tubarão 3). Ainda bem que a metalinguagem ficou apenas por ai.

Do Fundo do Mar – (Deep Blue Sea) – EUA, 1999.
Direção: Renny Harlin.
Roteiro: Duncan Kennedy, Donna Powers e Wayne Powers.
Elenco: Thomas Jane, Saffron Burrows, Samuel L. Jackson, LL Cook J, Aida Turturro, Michael Rapaport, Jacqueline Mckenzie, Daniel Rey, Eyal Podell.
Duração: 101 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.